Água Maravilha, para Elke

Postado em 16 de agosto de 2016

Eu hoje acordei com uma enxaqueca sem razão e a primeira notícia que recebi foi a da morte de Elke. Quero deixar claro que uma Elke não morre, é água que se expande e permanece em quem fica. Água que cura. Falando em água, deixei que elas dançassem fartamente no meu rosto, direto do coração. Falei pro meu cachorro, hoje eu não vou conseguir ser solar como a gente é. E ele me acompanhou nessa manhã de susto, lambendo meu pé e minhas águas. Elke cabe em muitas metáforas de água. Nunca brinque com um peixes de ascendente escorpião. Acrescento: lua em câncer. Eu brinquei. Muitos brincaram. Minha maior inspiração drag, aquilo me conecta diretamente com a criança que eu fui, fascinada por aquela mulher imensa. Quando tinha machucado no joelho, minha mãe passava Água Maravilha. Acho que nem existe mais. Secretamente eu ouvia Elke Maravilha. E o dodói sarava. Não sem antes borbulhar muito, numa gigantesca festa de cura. Ao longo da manhã, muitos amigos queridos lembraram de mim, que sempre falei muito desse meu amor-talismã pela Mulher Drag que falava coisas que hoje são comuns, quando elas não eram assunto. Eu e minha mãe assistindo ao Gala Gay, vendo Elke entrevistar uma travesti e perguntar a ela sobre a relação dela com sua família. Minha mãe me ama como eu sou. A travesti dizia. E isso me educou profundamente. Elke era tanta coisa que nem todas as cores que ela usava dariam conta. Ela dizia: com o tempo venho me descobrindo muito mais por dentro e colocando o que descubro para fora.  Uma revolução de raciocínio. Tirei duas cartas sob o efeito da notícia da morte dela hoje. Cruzei “Cara Pintada” e “Porco-espinho”, sincronias monumentais. Uma fala do poder da auto-expressão quando conectada com a sua verdade, em fé e confiança. A outra sobre encontrar os caminhos que te levam de volta para a criança que você foi e brincar com ela. Vi Elke, esplendorosa, ao lado de Pedro de Lara e eu dublando junto com as transformistas daquele quadro do programa de Silvio Santos. Poderia escrever muito ainda sobre a presença encantada dessa fada, que depois me inspirou a fabulação da minha drag. A função ídolo é constantemente mal compreendida. Quem cultiva e se projeta, olha o mundo pela cabeça das girafas. São amigos invisíveis que fortalecem nosso sonho, nosso devaneio. E é porque imagino que sei que gente como Elke não morre, se expande água dentro de quem verticaliza para criar melhor. Daqui a pouco volto a ser solar com meu cachorro, num mundo sem Elke e sem enxaqueca. Mas agora não. Agora me falta Água Maravilha.

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