Temporã (Guinga/MauroAguiar)

Postado em 2 de setembro de 2016

Vou-me embora/ Vou lá fora/ Uso a imaginação/ Quero ver antes da hora/ Minha nova encarnação/ A sabiá/ Ao divagar no andor/ Fez sem querer/ O tempo andar de ré/ És tu no ar/ O meu primeiro amor/ A sabiá me confirmou/ Vem de longe esse querer/Mas um guará/ Só pra desmerecer/ A sabiá e seu bom coração/ Fez disparar/ O tempo e o pé do ipê/ Ficou sem flor/ Pro bem-me-quer/ Você nem saiu do grão, hein?/ Quer a fábula burlar/ Fui-me embora a contrafeito/ Não aceito a solidão/ Faço agora do meu jeito/ Minha nova encarnação/ Será um sol de não se por/ E a sabiá, meu derradeiro amor/ De par em par/ O que me apetecer/ Irá se dar até porque/ Sei que eu nem saí do grão/ Mas eu fiz por merecer/ Vou-me embora sei que agora/ Já se vive de antemão/ Quem quiser que conte outra/ Uma outra dimensão

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Água Maravilha, para Elke

Postado em 16 de agosto de 2016

Eu hoje acordei com uma enxaqueca sem razão e a primeira notícia que recebi foi a da morte de Elke. Quero deixar claro que uma Elke não morre, é água que se expande e permanece em quem fica. Água que cura. Falando em água, deixei que elas dançassem fartamente no meu rosto, direto do coração. Falei pro meu cachorro, hoje eu não vou conseguir ser solar como a gente é. E ele me acompanhou nessa manhã de susto, lambendo meu pé e minhas águas. Elke cabe em muitas metáforas de água. Nunca brinque com um peixes de ascendente escorpião. Acrescento: lua em câncer. Eu brinquei. Muitos brincaram. Minha maior inspiração drag, aquilo me conecta diretamente com a criança que eu fui, fascinada por aquela mulher imensa. Quando tinha machucado no joelho, minha mãe passava Água Maravilha. Acho que nem existe mais. Secretamente eu ouvia Elke Maravilha. E o dodói sarava. Não sem antes borbulhar muito, numa gigantesca festa de cura. Ao longo da manhã, muitos amigos queridos lembraram de mim, que sempre falei muito desse meu amor-talismã pela Mulher Drag que falava coisas que hoje são comuns, quando elas não eram assunto. Eu e minha mãe assistindo ao Gala Gay, vendo Elke entrevistar uma travesti e perguntar a ela sobre a relação dela com sua família. Minha mãe me ama como eu sou. A travesti dizia. E isso me educou profundamente. Elke era tanta coisa que nem todas as cores que ela usava dariam conta. Ela dizia: com o tempo venho me descobrindo muito mais por dentro e colocando o que descubro para fora.  Uma revolução de raciocínio. Tirei duas cartas sob o efeito da notícia da morte dela hoje. Cruzei “Cara Pintada” e “Porco-espinho”, sincronias monumentais. Uma fala do poder da auto-expressão quando conectada com a sua verdade, em fé e confiança. A outra sobre encontrar os caminhos que te levam de volta para a criança que você foi e brincar com ela. Vi Elke, esplendorosa, ao lado de Pedro de Lara e eu dublando junto com as transformistas daquele quadro do programa de Silvio Santos. Poderia escrever muito ainda sobre a presença encantada dessa fada, que depois me inspirou a fabulação da minha drag. A função ídolo é constantemente mal compreendida. Quem cultiva e se projeta, olha o mundo pela cabeça das girafas. São amigos invisíveis que fortalecem nosso sonho, nosso devaneio. E é porque imagino que sei que gente como Elke não morre, se expande água dentro de quem verticaliza para criar melhor. Daqui a pouco volto a ser solar com meu cachorro, num mundo sem Elke e sem enxaqueca. Mas agora não. Agora me falta Água Maravilha.

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Sem título

Postado em 28 de julho de 2016

Um futuro saliente, uma baleia de plástico no chão, dedo no teclado, até onde a vista alcança, a busca por uma imagem que dê conta de respirar suave no focinho do cachorro, não há moscas para espantar, mas há tanta violência, daquela miúda, que adia, e espanto, muito espanto, e isso não é nada, nonada, só a concentração pedindo passagem, rajada de foco, congo blue, o verbo sagrado de hoje foi a-v-a-n-c-e, mas não se mate, Carlos, não se mate.

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Escorpião

Postado em 29 de junho de 2016

Estudando a resiliência, ardendo em febre, a pontada, a carcaça, esse jeito de quem se importa sem presença, sou do tipo que se magoa fácil, faz beicinho, fala direto, de um cateter a outro, aparentemente tudo errado, anormativa funcional, vejo o trem vindo no fim do túnel em trilhos separados, aquela metáfora, você indo, melancólico e vertical, esse sou eu quando acordo, uma paulada, o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas acesas, olha, acesas, ainda, acesas.

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Cora e os balões

Postado em 28 de junho de 2016

Cora, joga uma alegria no rosto, uma alegria azul, você que me disse, com chá de alecrim e sopa nas mãos, que a explicação do seu nome é aquela tão bonita. Ainda não é tempo de batom, e talvez nunca seja, você já tem o feminino da cor no nome, não é isso, Cora, aquela explicação bonita? Vale todos os anos celebrar com muitos balões, você e eu somos amigas deles, tudo o que você entende e tudo o que não entende, assim como eu. Sua mãe, que tem o olho mágico, seu pai, cheio de escuta boa, e que são por ti cuidados, que é a missão canceriana máxima, todos os anos vão insistir nos balões, é um segredo geracional, Cora, coisa de quem sabe fazer voar, sinta isso com seu coração de árvore, bonito, e dance com ele, um passo novo a cada batida, sem nunca repetir. Pode não ter passo também. Você pode mudar muitas coisas com seus oito anos de idade, neles você voa. E é por isso que amamos os balões.

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Casablanca

Postado em 23 de junho de 2016

Eu não sei como fazer isso. Avançar três casas, voltar uma. E, ao mesmo tempo, tão simples o baile. Tão leve. You jump, i jump, right? O aprendizado continua porque nunca acaba. Festiva e exaustivamente. Vou saltar os barcos de não dormir, agora que tenho um cachorro para aquecer os pés, as mãos e o coração. Ana C.: Te acalma, minha loucura. Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!

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Porta

Postado em 30 de abril de 2016

Como um verso ou uma bóia. De ruídos translúcidos. Uma flecha apontada ad infinitum. Aquela pipoca de panela, o calor. Eu já posso ver o futuro. Sem borra, sem linha. Depois do café, ler o jornal. A vida não tem a menor perspectiva. Só grandes. Olhar em frente, apertar o travesseiro. Voltar três casas. Quiçá maluquice, Alice. Para o fecho, tem você multicromático. Poucas primaveras e um tango.

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Três pontinhos

Postado em 4 de janeiro de 2016

Um pensamento que me seguiu, ainda na avaliação das entranhas sobre o ano passado, foi sobre a enorme diferença entre estar a serviço da criação sob encomenda e estar a serviço da criação autoral, aquela do umbigo. Não há conclusão, há desejo de umbigo. Aquele buraco que sempre me leva para a barriga do meu pai, muito embora a minha concha tenha sido sempre materna. Estou no começo de um abismo. Vejo isso sublinhado em dourado, com cola e purpurina. No meio do ano solar, aos 35. Não é só um ano que virou, a cabeça vibra. Cheguei naquele ponto de fêmea independente. Só que, vejo agora, não existe topo da montanha, nem local sagrado o suficiente para assentar e descansar. Vou ali, morrer de querer mais.

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Sobre anteontem

Postado em 2 de janeiro de 2016

Dois mil e quinze foi tão infinito que nem conseguir escrever antes do ano acabar, aqui nesse consultório a céu aberto. Aliás, escrevi pouco de modo geral. Pensando retrospectivamente, cumpri uma lista de coisas imprevistas que aconteceram e me tomaram, sem que eu tenha cavado objetivamente, mas a gente sempre cava, para o bem e para todas as outras coisas.

Perdi dois amigos fisicamente, a mãe das minhas irmãs também se foi. Desliguei o interruptor outra vez, para pessoas, situações, lugares, essa metáfora que ainda segue comigo, não sei ainda se para o bem ou se para todas as outras coisas, mas segue. Não fiz rituais, como no ano passado, fui para a rua, pouco mentalizei, resolvi começar recomeçando e agindo. Pensei em uma nova metodologia de foco, de foca. Estou cumprindo. Só por hoje, mais um dia, tudo isso é bastante sério. Revisitando, para não ser completamente injusta e focada in the dark side of the moon, comecei o ano viajando para Conquista, com Masturbatório, peça de 2014, estreei “O mundo de dentro”, a convite de Mariana Moreno, com texto de Luciana Comin e com as meninas e Leo Villa e Marconi Araponga no elenco; inaugurei o Inspiratório, proposta de Fabiana Pimentel, que encontrou minha total animação, comecei a produzir o projeto Tripa – Trilogia do Patrocínio, a convite de Rafael Rebouças, passei como professora substituta no IHAC/UFBA, pro BI de Artes, e, meses depois, passei como professora efetiva para a cadeira de Design do Espetáculo, no CECULT/UFRB, isso, inacreditavelmente para mim, foi o primeiro semestre.

No segundo, produzi o projeto do livro “Caminho”, de Mariana David, produzi também o show “Vulcanidades”, de Lívia Nery, mudei de casa cruzando a Contorno, Santo Antônio-Canela, estreei “Floresta debaixo do mar”, a convite de Leonel Henckes e Christina kyriazidi, minha primeira direção de peça adulta, processo que me fez conhecer pessoas incríveis; voltei em cartaz com “Parece Bolero”, com nova escritura e novas parcerias, com Gildon Oliveira no texto comigo, Juliana Molla, repeteco na assistência de direção, e os parceiros de sempre, Márcio, René e Estevam; escrevi/colaborei com, seguramente, mais de dez projetos para editais diversos, bem mais, nos quais dois foram aprovados, um de circulação de “Para o menino-bolha”, em parceria com a Giro Produções, outro grande encontro do ano, e, um do Nariz de Cogumelo, cuja peça de celebração de dez anos de grupo irei escrever e dirigir, daqui a pouquinho. Antes do ano se encerrar, finalizei a produção do Tripa, fiz a primeira parte da preparação de elenco da série “A professora de piano”, a convite de Henrique Filho e Edson Bastos e tomei posse na UFRB.

Foi um ano farto de atravessamentos, cavados e conquistados. No fim das contas, dormi pouco, mas cresci muito. No Natal, quando levei minha mãe e minha avó para passar dois dias num hotel fazenda, nossa comemoração a três, pelo aniversário de 94 anos da vó, minha posse no concurso e o fato de estarmos vivas e saudáveis nesse mundo louco e imprevisível, desejei profundamente o luxo do tempo, para elas, para o nada, para mim, o enorme benefício de poder continuar gerindo e decidindo sobre o uso do meu tempo aqui neste planeta. Voltei de viagem e fiz um pão, com minhas mãos e com tempo, tempo de fermento. Esperei muito esse ano, esperei, esperei, aprendi a ter muitas paciências. Ainda estou engatinhando nisso, o trânsito que o diga. Saber esperar é meu grande desafio, selecionando melhor os temperos, as paciências. Para o bem e para todas as outras coisas, com ação e emoção.

Saravá!

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Dona Juju

Postado em 1 de dezembro de 2015

E ela foi enterrada no mesmo dia em que meu pai. Será. Treze anos depois.

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