Francisco

Postado em 25 de abril de 2013

Ouvi na rua: Eu ando nas ruas com o sol descolado da tua pessoa. Entre.

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O elefante infinito

Postado em 25 de abril de 2013

Ela tocou o ombro dele e pediu a xícara para pôr café. Não era possível acessar nenhuma das duas coisas. Ela olhou para o outro lado e também a moça morena, de onde estava, não alcançava, nem via. Do outro lado, um homem assoviava na rua, na chuva, na fazenda. Episódios lancinantes do final da década de 1990 atiraram balas de efeito moral contra as costas da mulher. Os 30 são realmente uma boa época da vida. Olhou para frente, tudo era aquele elefante pardo. E quando você me envolver nos seus braços serenos, eu vou me render. Mas seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol. Outra canção. Na sala, todos cantam em silencio uma música diferente. Quatro delas são de Chico. Um uníssono: Vai passar. Até que alguém errou a letra.

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No pressure over cappuccino

Postado em 8 de abril de 2013

Eu nunca quis por perto Deus que não fosse amor. Nada que aponte para o medo ou para a culpa. Não sei bem de quem estar junto agora, quando não forem suficientes as aprendizagens da bondade ou das éticas que me formaram. Quando apenas precisamos esperar e desejar que o melhor aconteça, é segundo a vontade de quem ou do quê? Algumas hipóteses me paralisam. Eu sinto falta dela, antes mesmo dela me fazer falta. E um dia seremos mais falta que presença. É nesse ponto que quem tem fé é conforto. E quem só vê azul no céu e acha lindo? Uma das coisas boas do desapego e da compreensão de que tudo passa é olhar para as grandes ocasiões com certo humor. Só que isso é trajetória, não é meta. Vou e volto nas minhas sacolas, bolsas, caixas e malas de viagem. A cada visita, me despertenço um pouco mais. E não estou sozinha, apesar de cultivar certos desejos bem solitários. Meu amores não estão guardados. Os que ficaram, vamos juntos todo o tempo. Saber antes não traz alívio. Antecipações são cólicas gratuitas. Pensei agora, mas poderia ser um recorte HG bem oitentoso. É isso aqui esse momento agora, preenchendo os espaços vazios. Raspo minha cabeça, vislumbro lugares possíveis. Sincronicidades e boas coincidências me animam à euforia. Posso ir do voyerismo invisível à defesa da vagina ácida de todas nós em cinco segundos, mas saber antes eu não vou.

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Going home

Postado em 1 de abril de 2013

Tão cansada das mesmas coisas, você diz, ainda que saiba que, a cada ano, todos os seus planos mudam. Esse ranço azul que te acompanha desde a época do carneirinho na caixa azul é poeira. Não gaste as imagens de vento, voe mais um pouco. Chegue lá, que é aqui também. Derrame leite nas cortinas, deflore os novos espaços. Tem partes muito duras, a vida. Mas é bom quando as crianças nascem.

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Tempo é vontade

Postado em 23 de março de 2013

Hoje de manhã, meu filho, no colo, olhou para mim e perguntou: das coisas que você não sabe qual a que te faz correr? Respirei e achei que era melhor cortar as cenouras da sopa. Qualquer comida quente chega no coração. E, certas horas, se é morno e faz bem, apenas descanse.

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No meio

Postado em 13 de março de 2013

Ataque de pânico. Fui respirar dentro de um saco de papel e encontrei três melancolias paradas no canto me olhando com cara de eu sei, estou nua, e daí. Uma delas avançou sobre o meu pânico e me disse para eu rever o meu problema com gente que come papel. A outra me ofereceu um jogo de pernas de pau. A terceira me disse: vamos nadar nuas no pântano. Sorri simpática e tomei mais um gole. Eu sei, já fiz isso várias vezes. Mas dessa vez. Dessa vez. Estou sentada no banco giratório da inquisição, rodeada de fogo, dramática, fazendo a dança da chuva, nua, arranhando o joelho em superfícies ásperas, louca, esquecendo a fórmula do feitiço, sóbria e arquitetada para alguma coisa imprevisível.

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Nota trêmula

Postado em 13 de março de 2013

É frio, José. O papa não é pop. Há algo de podre no Brasil de Feliciano. Agora mesmo está rolando uma tensão-pré-estreia-sem-acento. O vinho não me aquece e minha meia não combina com o resto da minha roupa.

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Vamos juntos, vamos de mãos dadas

Postado em 10 de março de 2013

Enquanto eu não me esforço para tomar chá, mas alimento o costume de parque, as pessoas de lá avançam nas ruas contra o bicho de mais de sete cabeças. O dia oito não é feliz, tanto que existe. Em frente ao Congresso Nacional, mulheres e faixas pela visibilidad lesbiana. No dia seguinte: trabajadoras sexuales também em frente ao congresso. Quando eu ouvi o som das panelas pela primeira vez, em um dos apagões que a cidade sofre, gente na janela e no terraço, batendo forte, gritando e cantando para quem, eu entendi uma diferença crucial entre fazer barulho e querer ser ouvido. Funciona quando os dois caminham juntos, água mole, pedra dura. Isso tudo me chegou há pouco tempo e está comigo desde sempre. Com esforço aprendi a costurar os limites da metáfora. Não é fácil e nem agora. Mas, pão, pão, queijo, queijo, por dias mais felizes e sem datas comemorativas opacas, façamos um trato: minha vida, minhas caras, tua vida, tuas caras, e, no círculo comum, a gente se abraça. E luta.

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Nada, nada mesmo

Postado em 6 de março de 2013

Eu estou dormindo antes de dormir. Faço isso todas as noites. Cortei algumas fatias, penso em outras escolhas. Quando chegar o momento, não quero nem olhar para o lado. Vou direta e em curvas. Na rua: uma senhora que caminhava para frente olhando a cada cinco minutos para trás. Quando eu acordar das tripas, na cabeceira quero sal e pimenta.

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Como onda

Postado em 2 de março de 2013

No sonho ela estava na panela, entre as carnes. Acordei sem saber se o fogo estava ligado, mas lembro do movimento das pernas e de qualquer coisa nascendo pela barriga, enquanto ela parecia morrer. Durante isso, outra pessoa enchia sua boca de macarrão com molho de tomate, e ela comia e comia, e a barriga aumentava como um balão, um esgoto, uma erupção qualquer. Dois outros pequenos estavam no chão e não causavam medo. Eu nunca sonho com gatos, nem me ocupo de lembrar dos sonhos. Esse da panela era como o gato do vizinho que às vezes nos assusta. Amanheceu muito nublado aqui, depois de uma noite chuvosa de raios intensos,  e uma aranha de desenho animado e luzes de computador parecia querer me acordar pelos pés. Gritei, acendi a luz e nada mais aconteceu. Saudade da época em que eu curava os piores pesadelos no colo da minha mãe.

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