Trinta de novembro desde 2002

Postado em 1 de dezembro de 2015

Passei o dia pensando em frases. Tudo que ia vivendo, com a morte tão próxima, me lembrava uma frase. Como se alguma sentença fosse dar conta das coincidências. Ainda não sabemos quando ela chegará e se chegará mesmo. Mas tem um cheiro. Uma sombra. Alguém que sonhou com a história do fio de prata. Outro que disse: amanhã é o dia em que seu pai morreu. Vai ser amanhã. Amanhã era hoje. E eu estava ali, na escola onde eu estudei a vida inteira, em uma posição que eu nunca imaginei estar, num prédio que não era mais a minha escola. Alguém falou de deformação, de um corpo que já não cabe em si, está imenso. Viver uma vida inteira é algo tão enorme. Uma vida inteira cabe em tantos anos, às vezes em muito poucos. Dirigi olhando para trás, revendo as pegadas, os cheiros. E não sei bem como cheguei até aqui. Nem que horas daqui eu parto. Agora nada faz muito sentido, pois estou borrada e de férias da lucidez. Tem o oco, o eco e não existe outra palavra mais sonora do que vácuo. Abraço o espanto. Amanhã é outro dia de nascer e morrer gente.

Compartilhe:

Gestão

Postado em 10 de setembro de 2015

Nessa ideia de escrever de novo, dormi abraçada com Grande Sertão: Veredas. Nunca finalizei a leitura. Tenho medo de acabar a história. Demorei dois anos lendo Kundera. E morro de saudade de Teresa. No Dicionário de Guimarães, artista vem imediatamente antes de árvore. A minha, nas costas, está desbotando. É o que sinto. Não vejo, sinto. Eu que sofro de anestesia congênita desde aquele dia. Enfrentar a odisséia da linguagem: coragem, ele disse. Comprei mais livros do que me disponho a ler. E isso diz sobre como penso o tempo comigo. O livro te impõe isso. E eu abraço essa pergunta.

Tags:
Compartilhe:

O vulcão

Postado em 24 de agosto de 2015

Daqui de baixo, de onde ainda não posso escalar, vejo a neblina que não é fumaça, um sinal de lava, daquele calorzinho lá de dentro, altos índices de poluição natural, dizem, mas não para mim, que antecipo a carta que encerrará tudo, vejo três letras desenhadas pelo efeito do fogo, não são suas, são minhas, e piscam, de onde estou, sentada, fazendo leitura, a fumaça acima da sua cabeça tem som e tem rima, e não é neblina, uma garrafa foi aberta, vou ajeitar a alça do vestido e as taças, para a demora.

Compartilhe:

Meu “Desastro” no espaço

Postado em 24 de agosto de 2015

Um menino, tendo sido ele ou não do Brejo da Cruz, esse menino vai desejar reter o mundo entre os dedos, e vai acumular tantas bolas de gude nãos mãos, fazendo concha perto do coração, que uma ou outra vai escapar, ele vai escutar o som que faz a pedrinha no chão, e vai pegar novamente a boneca caída, vai colorir os dedos e enfrentar monstros, sem o cansaço de quem acha que uma pedra não é um caminho, ou que a luz que se dá ao filho quando nasce não é colorida, ver uma planta crescer e um menino, uma menina, essa gente que come luz, ou vomita, que faz marcas de cadáver no chão, e morre e nasce tanto em quinze minutos, que toma as sete vidas dos gatos; em alguma medida, crescer é sair da cápsula, if you dare, o planeta é azul e não há nada que se possa fazer, mas eles sim, enquanto respirar, sempre sim.

 

Compartilhe:

Ventosa

Postado em 26 de maio de 2015

Uma coisa fora do trabalho: carbúnculo. Não ainda. Estou pedindo permissão para soar dramática. É atualíssimo a melancia como pingente. Viver deve ser bem outra coisa. Parece que voltei. Baby, i’m back. Mas não nos dispersemos ainda. Reservo agora um momento de nada, para quando acabar a lista. Vontade de comer sonho.

Compartilhe:

Curando

Postado em 21 de maio de 2015

Uma bolinha na altura do coração. Muitas compressas de água quente depois, bolinha ameaça desinchar e volta. Nada visível. Contato com o celular? Aquele coração desejoso de comunicação, é isso? Algum chakra inominado que não aprecia centralização precisa? Um ponto escuro guarda o vulcão. Quando explodir, eu sei, não espocarão coisas prateadas. Anteontem achei que me ia dessa. Coisa que sempre me ocorre, posto que iremos todos algum dia. Drama queen, você diz. Batizada como Jéssica.  A menor mulher do mundo, tivesse uma bolinha com a minha, seria toda ela um imenso coração enfermo-flamejante.

Compartilhe:

Expectación

Postado em 12 de maio de 2015

Gosto muito de assistir às plateias da minha bolhinha. Sábado, em apresentações fechadas para escola, pude observar diversos comportamentos inusitados. A descoberta do riso em ondas das crianças é um deles. Às vezes é tosse. Já vivi uma onda de canção. Mas, naquele dia, vi um menino jogando enquanto via a peça, a mãe do lado. Meu primeiro raciocínio é sempre: tempos multifocais. Atenção exclusiva talvez seja um luxo nesses dias. Ele se relacionava, olhava, ria, buscava cumplicidade com a mãe. E jogava enquanto via a peça. Na minha frente, também uma mãe e um filho assistiam à montagem. Das primeiras risadas às primeiras dúvidas de palavras, ele foi caminhando mansamente da cadeira para o colo dela. O que já não era tão audível se tornou um sussurro continuado de uma aprendizagem completamente orgânica. No sentido de ligada à vida. Ao passo que dizia o significado de algumas palavras ainda desconhecidas, lembrava ao menino de que era necessário prestar atenção. Nesses tempos isso quer dizer escuta. Mais do que garantir a compreensão da peça, aquele foi um momento bom de cumplicidade não virtualizada. E nada me garante que o momento mãe-filho-jogo-no-tablet foi menos. Ler gente é tão embotado quanto ler tempo.

Compartilhe:

Bicho nu

Postado em 12 de maio de 2015

Eu estava ali e ele girava em círculos. Um freio inesperado, uma coisa. Não era um tatu. Não havia casco. Um rato-gato, um gato-ratazana. Com bico de tamanduá. E muitos círculos. Me esgueirei para não atrapalhar seu movimento reflexivo. Naquele momento minha cabeça se expandiu e eu me conectei com um sentimento inexplicável de estranheza. Estávamos juntos, eu e o bicho, naquele sistema. O carro atrás de mim ignorou meu curto e exasperado drama existencial. Quase mata o meu espelho. Subi inflamada de acontecimentos moribundos. Tomei água. Engoli. Tem sido assim. Só sai nos poros o meu espanto.

Compartilhe:

Rainha de espadas

Postado em 31 de dezembro de 2014

Eu só queria terminar o ano sem poeira. Então, vesti vermelho e ritualizei uma limpeza, com vermelho, verde e laranja. Cheiro bom na casa. Comecei pela sala, os pés no pano sujo, azul, aquela importância que dou ao chão e às suas coisas. Esfreguei os pés no chão como quem deseja firme. Quando estava no céu com meu amigo, ontem, ergui as mãos e pensei, cósmica, que gostaria muito de deixar a preguiça de mim sossegada em outro canto. Como só posso começar pelo texto do meu próprio corpo, única coisa que me carrega, caramuja, eu decidi suar. Expeli os brilhos, as ilusões. Os sonhos não, esses estão comigo, na gaveta do casulo. Fui respirando, entradas e saídas das belezas todas. Para a frente e avante: maior conexão comigo, com o outro, nisso a que chamam universo. Ando onde há espaço. Ação: abrir-espaço-para-receber. Um ano de inspirações nos poros, com amor. Que tem rima. Luz!

Compartilhe:

O ponto do soro caseiro é o gosto de lágrima

Postado em 1 de dezembro de 2014

Todos os anos, há doze anos, entre novembro e dezembro, depois de ler algum poema da lembrança de minha irmã dessa data, eu pondero. Há doze anos daquele corte. Eu nem sei se já contei do sobrinho, da revista displicente na sala ao lado, do olhar dele, sorrindo, pelo encontro que aquele fim também proporcionava. Eu não sinto muita coisa. E vejo que nem a construção de afetos posterior à morte dele é sólida. Não há reciprocidade nessa parte da história. E sem isso não há relação. Mas, hoje, ponderando, senti isso: nunca mais uma foto ao lado dele. Meu pai não me viu crescer e não me viu adulta. E nunca teremos uma foto juntos.

Compartilhe: