Passatempo

Postado em 21 de novembro de 2014

Fonseca, subitamente lírico. Acho que foi isso aqui: “Caiu lentamente e tocou o mar, primeiro a armação de flâmulas, depois a fieira de lanternas já apagadas, depois a cangalha de fogos, até que a imensa boca de ferro pousou no oceano e o balão ficou imóvel, uma caravela fantástica na calmaria”. Transcrevo pois não tenho sono e algumas informações simultâneas tangenciam o que deveria ser um caminho sereno até a cama. Refiz os trajetos e constatei que das poucas horas mal dormidas, gastei vários minutos prolongando um devaneio. No momento em que escrevo isso, observo duas protuberâncias em meu braço direito, resultado de duas picadas de algum ou alguns insetos não identificados. Tenho medo de que esses volumes me engulam e assumam o controle sobre os movimentos do meu corpo. Viro nau, dessa maneira. Tentei adiantar o passo para o próximo conto do livro. Saudade que estava sentindo dele. O dono daquele título comprido pelo qual, eu, formiga, passeei bem muito: “E do meio do mundo prostituto, só amores guardei ao meu charuto”. Boa novela. Gustavo Flávio. E Mandrake, salvo engano. Já cavei tanta coisa da insônia, porque não essas linhas? São 03:36 da madrugada e eu já vasculhei toda a sua vida pregressa. Algumas respostas, sempre forjadas. Poucas fotos, pouca simpatia. Gosto assim. Obra quase completa e a vida. Estou em um momento de ponte. Mas não avisto o outro lado. Nem as primeiras cores. Corro parada. Fermento e alguma pressa. Amargo escolhas ruins, repenso as margens. Se for você do outro lado, não precisa nem tocar a campainha. A chave é a pequenininha, embaixo do tapete. Talvez você não me reconheça de imediato, estou usando franjinha. Pode entrar calçado. O cinzeiro fica dentro do buraco. Minha pele arde. Do buraco na parede.

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Manoel, o audaz

Postado em 17 de novembro de 2014

E entre as datas de minhas duas últimas postagens, morreu o poeta.

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Raia

Postado em 17 de novembro de 2014

É cheiro de alho. Aconteceu mais cedo. Vai passar. Isso tudo que você diz ao vento, como quem fala consigo. As pessoas não são a pessoa. Eu sei, bem oitenta a construção. Ele te diria: não há problema. Diria? Uma projeção bem cuidada de sonho. Agora, sem furacões demasiados, respiro em oito tempos. Limpo a piscina côncava do umbigo. Expando. Muita dificuldade de usar o telefone, em tempos digitais, entretanto. Quero dizer que Agualusa tem me feito bem. E aquele disco. É preciso que o ano não vire da mesma maneira. Movimento, palavra de ordem. Os médicos, as receitas, os remédios. Tudo perto das decisões difíceis. Vou envelhecer em Buenos Aires, mas até lá vou livrando os pulmões como exercício.

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Manoel: o menino que carregava água na peneira

Postado em 12 de novembro de 2014

Ontem fez notícia de que Manoel está morrendo. Lembro da garça que ele fez verbo. E que passei a querer escrever sobre o chão, aprendendo dele essa beleza. A gente vai se trançando ao que gosta. Tive vontade de chorar. Saudade, revés de um parto. Quis defender a eutanásia, para ele sofrer menos. Li uma reportagem. Pensei em sincronicidades. E no contrário disso. Estou acompanhando e pré-sentindo. Que faça uma curva brilhante, rio acima, céu abaixo, rumo a um chão mais macio.

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Dois sonos

Postado em 28 de agosto de 2014

Tão cansada, que dormir é difícil. Fatiga de trabalho. Banzo. E acúmulos brilhantes de beira de estrada. A imagem procede, mas sem beleza alguma. Já tenho data, já tenho metas. As usual. Banho, chá, aquelas águas. Vai dar certo. Não vai? Trevo embaixo do travesseiro para dar sorte.

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Náusea

Postado em 22 de agosto de 2014

Enjoei de comer. Acordei tonta. Primeiro pensamento: falta de café. Depois me ocorreu que eu gostaria de ser lida por uma girafa. Mas é bicho, não lê e nem faz conta. É fato que eu preciso parar de receber a luz do meu computador ao dormir. Mas é difícil me apartar da ficção. Eu sei, é outra coisa. Mas faz de conta que não. Minha casa nova é uma delícia. Estou refém desse prazer. E da rede. E de intermináveis horas com Agualusa. Eu sei. Eu sei. Faz de conta. Muitas demandas de escrever. Os braços doem. Quero ir embora. Não quero ir embora. E isso aqui não é nada não.

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Meu pai, o sol

Postado em 10 de agosto de 2014

Pensei agora em ouvir uma música que produzisse alegria. Jorge Ben Jor, quase sempre. Bem era como algumas pessoas chamavam o meu pai. Bem ou Bau. Depende da facção. Os dias dos pais dos últimos doze anos são assim. Em verdade, os meus dias dos pais sempre foram assim. Vou me lembrando um pouco melhor dele, enquanto leio as manifestações calorosas de outras pessoas sobre seus pais, vivos ou mortos, tendo sido eles pais presentes ou não, em vida. Sempre lamento, com certa estranheza, que minha referência paterna principal tenha sido mesmo a minha mãe e a minha avó. Elas são incríveis,  mas, já não posso negar, isso criou lacunas já perdoadas e descrenças insuperáveis. E me formou. Peguei o mundo em plena mudança de paradigmas familiares. São trinta e quatro anos apreciando todas elas. Filha de mãe solteira era um estigma na década de oitenta, tão veementemente presente em mim como a ausência de meu pai. Assim como filha bastarda, outro assombro. Eu fui um pouco das duas coisas. O que mudou de lá para cá foi o espelho, que diariamente altera a maneira como me vejo. Minto. Eu mesma altero a maneira como me vejo no espelho, para o bem, para o mal e para o meio das coisas, que é sempre mais interessante. O que mudou também foi a minha maneira de me relacionar com tudo o que me veio, com alegria, da parte de meu pai, durante e depois que ele morreu. Estabelecer vínculos de confiança, amizade e cumplicidade, enfrentando um histórico difícil e a minha pouca idade/experiência de vida, quando as histórias todas foram escritas. Coisas são irrecuperáveis e coisas podem ser construídas, a partir de demolições macias. Os nomes, como o tempo, vão me ensinando. Escrevo com certa sobriedade, de um eu em recuperação. E só noto como ainda importa, em momentos em que um novo pai se apresenta. E as figuras maternas e paternas são de cruze eterno na vida de muitos. Meu pai escolheu a parte ventania da alegria. Não sei muito disso, mas, já me disseram, que ele era de Omolú e que havia assentado Iansã. Me sinto acolhida pelos dois, no abraço de Carlos. Ele passando de branco naquela rua escura. Aquele dia nos búzios. Meu processo de auto-conhecimento e aproximação com as energias que eram do meu pai. Com tudo o que eu, tão racional, não posso compreender completamente. Depois de tanto tempo não sendo filha de um pai, preciso respeitar esses buracos e as minhas lágrimas, muito emocionadas, ao abraçar Carlos, me recebendo como filha de Xangô.    

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Vermelha

Postado em 6 de agosto de 2014

Fazer todas as outras coisas antes de fazer a coisa devida, eis a máxima. Tempo de plantio, em meio a pouca colheita. No meio do espirro, um sossego. Penso no primeiro semestre mais intergalático da minha pequena paróquia. Pisei em tantos lugares diferentes e voltei ainda neles. Vou expandindo e fazendo concha. Agora, nas montanhas. Ouço Jorge Ben, o baluarte da alegria e passo bem. Para ansiedade: chás. Uma onda viver de criação. Fica bem, fica mal. Emenda e não paga tudo. Filho não sei mais pra quando. Tudo caro. Essa semana, projeto. Semana que vem, não sei. Tem uma rede no fundo da minha caverna e, nela, as muriçocas mordem até por cima da roupa.

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Nota de receita

Postado em 21 de julho de 2014

A palavra que segue cansaço precisa ser renovação.

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Mantra

Postado em 10 de julho de 2014

O fim está no começo e o começo está no fim.

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