Meu pai, o sol

Postado em 10 de agosto de 2014

Pensei agora em ouvir uma música que produzisse alegria. Jorge Ben Jor, quase sempre. Bem era como algumas pessoas chamavam o meu pai. Bem ou Bau. Depende da facção. Os dias dos pais dos últimos doze anos são assim. Em verdade, os meus dias dos pais sempre foram assim. Vou me lembrando um pouco melhor dele, enquanto leio as manifestações calorosas de outras pessoas sobre seus pais, vivos ou mortos, tendo sido eles pais presentes ou não, em vida. Sempre lamento, com certa estranheza, que minha referência paterna principal tenha sido mesmo a minha mãe e a minha avó. Elas são incríveis,  mas, já não posso negar, isso criou lacunas já perdoadas e descrenças insuperáveis. E me formou. Peguei o mundo em plena mudança de paradigmas familiares. São trinta e quatro anos apreciando todas elas. Filha de mãe solteira era um estigma na década de oitenta, tão veementemente presente em mim como a ausência de meu pai. Assim como filha bastarda, outro assombro. Eu fui um pouco das duas coisas. O que mudou de lá para cá foi o espelho, que diariamente altera a maneira como me vejo. Minto. Eu mesma altero a maneira como me vejo no espelho, para o bem, para o mal e para o meio das coisas, que é sempre mais interessante. O que mudou também foi a minha maneira de me relacionar com tudo o que me veio, com alegria, da parte de meu pai, durante e depois que ele morreu. Estabelecer vínculos de confiança, amizade e cumplicidade, enfrentando um histórico difícil e a minha pouca idade/experiência de vida, quando as histórias todas foram escritas. Coisas são irrecuperáveis e coisas podem ser construídas, a partir de demolições macias. Os nomes, como o tempo, vão me ensinando. Escrevo com certa sobriedade, de um eu em recuperação. E só noto como ainda importa, em momentos em que um novo pai se apresenta. E as figuras maternas e paternas são de cruze eterno na vida de muitos. Meu pai escolheu a parte ventania da alegria. Não sei muito disso, mas, já me disseram, que ele era de Omolú e que havia assentado Iansã. Me sinto acolhida pelos dois, no abraço de Carlos. Ele passando de branco naquela rua escura. Aquele dia nos búzios. Meu processo de auto-conhecimento e aproximação com as energias que eram do meu pai. Com tudo o que eu, tão racional, não posso compreender completamente. Depois de tanto tempo não sendo filha de um pai, preciso respeitar esses buracos e as minhas lágrimas, muito emocionadas, ao abraçar Carlos, me recebendo como filha de Xangô.    

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