Penteando os cabelos da minha ansiedade

Postado em 7 de outubro de 2013

Naquele dia de febre e compressa de água quente, estar morto era a única condição do meu corpo. O formigamento nas pernas indicava a falta absoluta de movimento. Tanto que se um pássaro ouvisse de longe o ruído do meu sangue na veia e voasse, pena alguma me provocaria cócegas. Dentro seiva muda. Em cima do joelho, esquina de uma dobra com uma veia, duas formigas conversavam serelepes. Falavam sobre uma onda que vinha calma depois de uma onda meio furacão. Da sabedoria das formigas, fica evidente que: uma trilha-objetivo é mais importante que um desejo vago, metas coletivas são mais prazerosas que metas solitárias e, enquanto se caminha, é melhor cantar. No centro da febre, eu escutei a voz mansa e o sossego do tempo. Ele como uma onda. Uma das formigas mordiscou minha pele e eu, ao sentir inflamado o lugar, fiz jorrar, um hidrante vermelho-aberto, todo o sangue meu que era ruim. Nisso, efeito sanguessuga, novos espaços internos foram abertos para a respiração. Um pensamento que adoece a gente é todo barquinho de papel que eu soltei ao vento. Aqueles olhos arregalados do menino na capa do livro, com os barcos. Eu já estou longe e continuo muito perto. Vai chegar o dia em que você vai olhar para o lado e eu não estarei mais lá. Viro fada, viro enguiço, sumo. Estarei dentro daquela outra história. E daquela outra também. Hoje, amor, ardo em febre e descanso. Durante a madrugada vou criar escamas, pele de zebra, oncinha. Ninguém lembrará de nada. Nem as minha formigas. Pausa. Água, pão integral, receita de sono em pílulas. Ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam. Foi assim que eu aprendi duas palavras e é assim que eu ligo os pontos: o-por-tu-ni-da-de. Escrevo para me perder, escrevo para encontrar, que escrever é alegria.

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