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Novelinho

Postado em 6 de março de 2014

Tem um novelinho bem aqui. Deixa de conversa fiada, menina. Sério, um novelinho. É fome. Vai comer. Vai cortar esse cabelo. Vai se mover um pouco. Eu gosto de ficar parada. Mas seus pés não se movem há dias. Câimbras. Tem que mover. Mas dói. Quando mexe? Sim. Mau agouro. Eu sei. Então, você vai virar uma pedra? É, uma pedra. Certo. Termina quando as câimbras chegarem no pescoço. Estou agustiada por você. Fica não, tia, é o novelinho. Menina maluca que fala difícil. É nada, eu só falo o que eu sinto. Vou pegar um pouco de água para você beber e jogar nos pés. Bota aqui na minha cabeça, tia. Por causa de quê? Se molhar os pensamentos, novelinho fica quieto.

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Estudando o bolero

Postado em 8 de outubro de 2013

Aos poucos, Perla, a cachorra companheira de Alice, foi desistindo, coração, de querer saber. Sem adivinhação, sem jogo. No mesmo dia, virou a noite batendo pedras contra uma mesa apoiada em quatro pernas. Lasquinê preso, riu sozinha. Já não interessa saber antes, nem depois. Algumas coisas, cachorras nunca saberão. Nem ninguém. Buzina na porta. Alice, focinho empinado, maquiada, fita verde nos cabelos. Logo atrás, sua dona, nunca antes mencionada aqui: Martha Brum. Aproximadamente seis anos aprendendo e inventando um tipo qualquer de escrita. Diz que um dia vira um romance, uma novela, qualquer coisa editada e quente que nunca condensará o processo de expurgação criativa. Aquele drama, mão nos cabelos, passe-me as batatas, você não sabe do que eu sou capaz. Buzina na porta. Martha Brum, cigarro na mão, whisky com guaraná, tudo portátil, não pronunciou palavra. Meneou a cabeça e eu entendi: caminho da padaria, o amor. Deixei que Perla saísse em bolero de três. O amor pode gostar disso. Filha, espero, tabuleiro nas pernas? Não, mãe. Disse a cachorra. Entro e acendo um abajur, cor de carne, é claro. Cheguei perto do coração de Perla para conhecer o amor. Só depois veio o sovaco seguro dele. Isso é uma chama rarefeita e oscilante há anos acesa e que não se apaga nunca. Perdi o apetite, acompanha o movimento de lançar o guardanapo de pano do colo no prato brevemente sujo. Chego longe, meu bem, para poder amar de novo.

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Penteando os cabelos da minha ansiedade

Postado em 7 de outubro de 2013

Naquele dia de febre e compressa de água quente, estar morto era a única condição do meu corpo. O formigamento nas pernas indicava a falta absoluta de movimento. Tanto que se um pássaro ouvisse de longe o ruído do meu sangue na veia e voasse, pena alguma me provocaria cócegas. Dentro seiva muda. Em cima do joelho, esquina de uma dobra com uma veia, duas formigas conversavam serelepes. Falavam sobre uma onda que vinha calma depois de uma onda meio furacão. Da sabedoria das formigas, fica evidente que: uma trilha-objetivo é mais importante que um desejo vago, metas coletivas são mais prazerosas que metas solitárias e, enquanto se caminha, é melhor cantar. No centro da febre, eu escutei a voz mansa e o sossego do tempo. Ele como uma onda. Uma das formigas mordiscou minha pele e eu, ao sentir inflamado o lugar, fiz jorrar, um hidrante vermelho-aberto, todo o sangue meu que era ruim. Nisso, efeito sanguessuga, novos espaços internos foram abertos para a respiração. Um pensamento que adoece a gente é todo barquinho de papel que eu soltei ao vento. Aqueles olhos arregalados do menino na capa do livro, com os barcos. Eu já estou longe e continuo muito perto. Vai chegar o dia em que você vai olhar para o lado e eu não estarei mais lá. Viro fada, viro enguiço, sumo. Estarei dentro daquela outra história. E daquela outra também. Hoje, amor, ardo em febre e descanso. Durante a madrugada vou criar escamas, pele de zebra, oncinha. Ninguém lembrará de nada. Nem as minha formigas. Pausa. Água, pão integral, receita de sono em pílulas. Ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam. Foi assim que eu aprendi duas palavras e é assim que eu ligo os pontos: o-por-tu-ni-da-de. Escrevo para me perder, escrevo para encontrar, que escrever é alegria.

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Phyllis Hyman

Postado em 17 de setembro de 2013

Essa é uma história amarela feito pêssego. Fui bordando, fui fazendo em máquina de coser. Nela um caramujo levou nove horas para atravessar um rio depois que uma fenda se abriu de um lado a outro.  Na régua o rio media cinquenta centímetros e cinco cores, mas, para o caramujo, aquela travessia era o sertão, uma floresta, o lugar para onde vão os amores perdidos e os guarda-chuvas. No radinho de pilha do caramujo cantava uma mulher de voz poderosa. Com preguiça, caramujo não cantou. Mas continuou atravessando. Antes de chegar na avenida, parou para respirar e uma pedra atingiu uma lesma à sua frente. Vivo, caramujo contornou com dificuldade a cena acidental e seguiu viagem. Para trás de seu corpo lento, caramujo deixou rastro. Mala, bagagem, lembranças de âncora. Durante a suspensão das águas, caramujo só pensava em chegar. Às vezes nem lembrava onde. Mas ia. No fim da fenda, caramujo viu um poço. Era como se depois do poço não tivesse mais nada. Mas, depois do poço tinha um sol que era também uma lâmpada, que caramujo acendeu e ficou embaixo. Bronzeado, sonequinha dengosa, acordou com a sombra da lesma morta cantando a canção do radinho. Depois de olhar para frente, que era onde estava a estrada e o rastro, todo o rastro, caramujo fumou a lesma em seu cachimbo de prata. Sorriu lento, sem pressa, com a satisfação de voo dos equilibristas.

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Como um desabraço

Postado em 31 de agosto de 2013

A menina parada na beira da cerca. A menina parada com a mão no queixo. A menina parada e não via o rio. Não era Nininha, carregava uma trouxa que não era trouxa. Quando falou, minha mãe, eu vou embora, a mãe disse: se tiver que voltar, volte. Estou me afogando, pensei. Mãe, acordei assustada com a alma fora do corpo.

– Se você respirar três vezes eu volto e você se acalma.

– Como?

– Encontre uma muleta qualquer.

– Eu desacreditei das coisas profundas.

– Eu sei. Mas eu também sou a sua pele.

Parada na beira do rio e o rio não existe. Não era para narrar, a menina. Foi tanta coisa, mainha. Foi tanta coisa que não sei se paro e descanso no corpo dele ou se sigo pedalando. Botei a marmita na cestinha e as flores, já. Minha mala vira um anel que vira uma ponte. Quando eu acabar isso aqui, vou sentir alívio como depois que se mija. Ou se come. Ou. Me deixe, mãe. Hoje vou chorar até mais tarde. E não ficar bonita. Um dia de férias, sem cultivo de nada. Então, eu li na carta dele algo como ter cuidado com gente que te desvitaliza. E pensei: mas eu rio tanto. Estou tonta de azul e de coisas. Foi o susto no quarto do hotel, acordar e não ter ninguém, porque sempre tem e nunca tem, é assim que somos feitos.

Estou parada, baby, com a mão no queixo, cheia de vermelho espanto, chove tanto, aquele colibri molhado, desenho um círculo quente e apenas sento e desmancho.

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Meu pequeno poder de bolso

Postado em 10 de agosto de 2013

Entramos. Eu e ele, festa cheia, aquele coração palpitando na gaveta da bolsa, nome algum importava, noite para a música, muita luz e flash mudo, cheiro de cigarro, cerveja, ambiente inóspito, sem janelas, ameaça de acidente, duas meninas rasgando declarações de amor ao vento, papéis queimados, fogo, fogo alto, cabelo em chamas, tapete cinza, duas meninas e o brinco de pérola, dentro, eu e ele, aquele pequeno poder de nada, nem um sopro de alívio, vejo a fumaça, estou no centro do mundo, pessoas escorrem pelas laterais do lugar, esmaeço, não me sinto muito bem, caio, eu e ele, as meninas, outside, conversam sobre rendas amarelas, ouço som de ambulância, mais uma música, outra cerveja, palpitações frenéticas desencadeiam memórias em série, passo carvão nas maçãs do rosto, canto sozinha na pista, on my own, pretendindg he’s beside me, luzes estroboscópicas adicionam humor à cena, o enquadramento provoca movimentos enjoativos, sinto que vou morrer, mais uma dose, é claro que eu tô a fim, ele me vê, eu nem reajo, aquele poder que não cresce, estou sentada no mastro do disco de vinil, sim, no mastro, ele me acompanha, ele me arrodeia, ele canta comigo, sinto que estou mudando de estado, de repente, líquida, vou escorrer e escorro, fujo pela fresta da porta, saída, escorro pelo bueiro, agora sou má e corroo o chão de cimento, uma cratera se forma onde passei, estou sólida nesse buraco, e inflamável, e turbinada, vejo os raios que se formam no horizonte da avenida.

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Personagem

Postado em 6 de agosto de 2013

Gostava de falar como adulto desde muito cedo, Personagem. Usava malestar junto pra falar de gripe. Dizia: corpo moído. Aos três. Personagem um dia atirou um hipócrita na merendeira da coleguinha e foi chamado ao serviço de orientação para esclarecimentos. Chocava os desacostumados com citações bíblicas, parte verídicas, parte não verídicas, todas verossimilhantes. Resumia o mundo a uma ficção de amor e mau gosto. Tinha mau hálito ao acordar e seu humor oscilava sempre que chovia. Cuspiu tanta palavra de dicionário que um dia percebeu uma diferença considerável no tamanho de sua cabeça. De bode, de vento, de boa, fechou os olhos bem fundo e desejou que não doesse mais. Com fé em tudo que há de mais sagrado, e isso ele disse ao sol, Personagem pegou uma borracha e um chinelo. Comeu o primeiro item todinho e depois, preciso feito lâmina, apagou-se de giz na calçada.

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Compelling Characters

Postado em 2 de agosto de 2013

Bianca odeia que lhe ajudem às 07h da manhã. Essa é a sua hora sonâmbula preferida. Seu sono, reserva para as 15h da tarde. Pontualmente. Dorme três horas e acorda como quem dormiu oito. Não acredita que inverteu certas lógicas já que nunca se sentiu parte das convenções mais corriqueiras. Como se alimenta de sol e de vento, também não precisa ir ao supermercado. Veste sempre a mesma camisola de seda. Só muda de chapéu. Lembra de quando leu Aura pela primeira vez e goza pensando no nome dele. Acha que Carlos Fuentes, se a tivesse conhecido, reconheceria que ela era aquela mulher de futuro. Foi ali que aprendeu sobre atmosfera. Bianca diz que está enfrentando um momento muito difícil.  Diz e pinta as paredes. Futuca um sinal que só cresce em suas costas e não diz a palavra câncer, escreve. Passa por entre as frestas do portão e some. Amanhece de novo e ela ri das tatuagens que fez no corpo, do leiteiro lá fora e de todas as cansativas portas daquele corredor extenso. Notívaga, diurna, coisa alguma que se pegue. Um gosto rarefeito pelas diferenças muito alarmadas. Alto, baixo, tudo construção. Mas, atenção à nota, Bianca deixou de relativizar certas coisas, numa manhã de domingo, quando caminhava sozinha, invisível e inevitável, pelas ruas de Buenos Aires. Minto, era terça e à tarde, em Colonia. É nessa onda e flutuante como um fantasma que ela vai dar vazão, vazão, vazão a tudo que é legitimamente ar. Sem terço, sem trégua, sem truque, ar.

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Com fio e ruído

Postado em 2 de agosto de 2013

Eu já sei que você prefere o olhar da criança; essa generalização do bem. Mas, perceba, ainda que ele tenha feito o dever de casa, pareça atento, calce confortavelmente os seus pés, por motivos que somente a astrologia explica, vocês não vão se conhecer. Não. Não acredito que uma coisa anule a outra. Você nunca deixou de fazer essas coisas, enquanto estava com. Eu sei, dá cansaço mesmo. E de repente você se vê presa em uma foto antiga que alguém fez de você e não te representa mais. Tão esquisito quanto ver uma foto recente e também não reconhecer nela aquilo que você foi antigamente. Sim, tem arbítrio e esforço. E pouca escuta com o coração. Eu sei, minha amiga, até a bondade pode ser nociva.

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Medo de altura

Postado em 31 de julho de 2013

De que ele subiria, ninguém duvidava. O equilibrista na perna direita atestava a intimidade com as coisas do vento. O problema é que depois de subir os primeiros lances da escada, ele resolveu que não valia a pena voltar. Assim, depois de duas ou três piadas sem jeito, os três amigos foram ao terraço. Lá em cima, todos os vaga-lumes da cidade falavam de gente na sala, no quarto, na cozinha, cumprindo, sendo, ocupando. Uma preguiça enorme dos gerúndios, pensou. E decidiu pausar. No começo ninguém levou muito a sério aquela decisão. Traziam água, comida, coberta. E riam um pouco da decisão. Mas se não é medo de altura, é o quê? É uma pausa. Mas isso é uma loucura. Você não vê? E seu trabalho, os estudos, as satisfações sociais, o futebol no domingo? Todas as coisas podem continuar sem mim. Buda feelings? Não.  Falta de interesse. Os dias de pausa foram se alongando. Os amigos aos poucos foram desistindo de acompanhar. Lá  em cima, faltava comida, mas não faltava água. Foi assim que ele decidiu virar planta. Sem computador, sem máquinas, sem energia, só lhe sobrava ar e chão e sol e noite e tempo. Excessos abundantes de fermento. Depois de trinta dias no terraço e muitas ramificações, ele sentiu falta pela primeira vez de ouvir o barulho do gelo quando quebra dentro da boca. Tentou voltar, não conseguiu. Andou três passos, parou. Chegou na beira do alçapão e nem mais um passo deu. Estava só um pouco mais sozinho. Tentou alcançar a escada com algum receio e foi tomado pela espinha de um frio assombroso. Não podia mais descer. Nem falar nada. A seta havia mudado de rumo. Voltou, sentou e tomou vento. E foi ali, bem no meio do sol morno de uma quinta-feira de inverno, que a primeira folha surgiu.

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