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It keeps blinking

Postado em 25 de julho de 2013

Eu disse a ele que estava muito cansada, os cabelos em desalinho, muitas erupções cutâneas, ardência, coceira, febre alta. Ele me disse que mudasse o foco. Eu expliquei que agora não dava, muito obrigada, eu precisa terminar o volume. Ele me disse que eu estava me matando aos poucos. Eu falei drama king em voz alta e rebati argumentando sobre venenos diários e doces como o açúcar, sejamos honestos. Ele me disse para tirar umas férias, ir com as crianças para as montanhas. Eu disse que não vivo, pelo menos não todo o tempo, em enredo televisivo, e, que, mais tardar, eu iria a Santo Amaro. Ou Cachoeira. Respiro bem nesses lugares e as crianças ficam menos presas. Meu olho não para de piscar involuntariamente.  Estou no meio das veredas, das veredas. Dois dentes ao fundo doem. Esse exercício vai terminar assim que eu parar de cavar os buracos. Diálogo é difícil. Tenho medo da pantera que me assombra. Não escrevo o que deveria. Vou comendo as expectativas com as unhas. Temperando duas caixas de inércia, dez comprimidos, vinte miligramas. Faz muito não ouço dos amigos. Não posso deixar a casa e me locomover até a cidade. Não recebo visitas. Não quero mais ver ninguém.  Até o outro lado da senda. Penso sobre tom. Reduzo  o universo a uma boa investigação de tom. Isso e saber ler. Da última vez em que atravessei os paralelipípedos da rua até o outro lado, um bichinho mitológico viu na borra do café  que eu voaria pelos ares como Macabéia. Voltei pra casa e fiz um pão para as crianças. Enquanto a massa crescia, eu pensava no tempo. Fujo do sono e do filme de terror. Mas eu sou, eu sou, eu sou todos os meus filmes. Vou desligar agora. Eu disse a ele isso também. Meu corpo inteiro coça e eu deixei borracha e marcadores de texto na cômoda. Queria uma preguiça que me carregasse no colo. Mas ela só me imobiliza.  Estou bem, sempre bem, Bertha. Um pouco mais perto de conhecer o mistério da vida. Como disse antes, vou ligar todos os pontos e colorir. Sigo viva, valente e caduca. E, despetalada, me despeço.

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Pó compacto

Postado em 3 de julho de 2013

Penélope comia queixas e remédios. O prazer de enfiar agulhas embaixo das unhas ninguém lhe tirava. Um masoquismo do bem, ela pensava. Sofria de cansaço crônico, Penélope, quase não dormia. Passava as noites em claro, lendo afogada. Respirava embaixo d’água. Dava títulos engraçados às coletâneas de músicas que criava. Nunca, nem uma vez sequer, pensou em suicídio. A onda era a onda. O namorado mandava flores. A amante recitava suas receitas preferidas. Mas, e isso é inegável, Penélope conservava sua dor como um gozo. A Grande Dor, diria Caio. Que era todas ou qualquer uma. Ontem, com o balde cheio do cansaço dos dias, da repetição que ri na cara dos cuidados, Penélope precisou cantar. De repente, descer do cavalo, tirar as botas, fones no ouvido, cantar alucinadamente e rolar no chão. Rolar no chão fazendo movimentos desconexos é a única forma sincera de alívio. E escrever. Isso é tão íntimo quanto dormir ao lado de outro corpo. No alto da nota de uma canção daquele tempo, ela pensa nele e chora de saudade. Coitada de Penélope! Os falsos falam de sua melancolia. Sempre lembram da sua melancolia. Parece um remédio que Penélope agita e toma. Um gole: Todo recorte performa uma pequena ficção. E não, não devemos acreditar demais. Nem duvidar tão pouco.

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Rabisco

Postado em 15 de maio de 2013

Rosa antigo e azul fúcsia, sonhei e assim seja. De poá, de saia curta. Menina subiu no hidrante. Escorregou, perdeu um ano. Sono foi, dia passou e o sol não desenhou nada na parede. Ajeita as cortinas, é foto no espelho. Descobre que a dor nos calcanhares é provocada por um gnomo. Mata o gnomo. Enterra com os pintos de exposição. Conta em títeres, para cinco crianças, a história daquela cor. Elas perdem o interesse, você rouba os doces. Direciona com a pedra hipnótica seu próprio sono. Pantufas, chá, colar de pérolas. Escreve os nomes todos ao contrário. Ensina o papagaio a assoviar. Tenha calma, pega a menina pela mão. Dê um leite a ela. Durma. E faça pão com isso.

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Saúde

Postado em 8 de maio de 2013

É tão difícil cuidar da vida. Não se queixe, Maria. Escreve sua literatura de mulherzinha. Aliás, não diga que é literatura. Esses nomes,  você já entendeu para que servem. Pense em tudo que ouviu naquela mesa. E sopre com dentes. Está tudo acontecendo, você sente. Umas partes mais que outras. As pressões previstas. Quase tudo. Como não acreditar? Como continuar sendo a mesma? Não veja tão além, vá na padaria. Não há poeira embaixo do tapete. O que não é, não é. Solte todos os balões. Grite o nome coelho se preciso for. Saia do circulo. O mundo é quadrado, Maria. Mas você, minha filha. Você é co-lo-ri-da.

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Sobretudo

Postado em 2 de maio de 2013

Bianca notou que sentia medo à mais leve impressão de loucura. É mais confortável chamar Bianca desse nome. É bom perceber que ela está em casa e me ouve e me vê. Bianca tem medo de tudo, a mocinha. Espanta besouros e espanta-se com monstros noturnos e canções de amor. Sua mãe acusa os livros que ela leu na infância. Seu psicólogo pondera que nada disso é verdade. E Bianca sabe que nada disso é ver-da-de. Uma vez assistiu a um filme e teve seu pinto decepado. Ela gosta de rouge no rosto, mas não diz que isso é saúde, joga flores no mar, todo dois de fevereiro, acredita na lua e no horóscopo chinês. É uma tonta, Bianca. Do coração selvagem e dourado. De noite, alimenta movimentos redondos, tomba a cabeça para traz. Escreve na língua do cão. Faz listas e frequenta blogs proibidos. Planeja casar com um homem de barba, lê tudo que ele escreve sobre sua própria solidão. Pensa em dizer para ele:  A vida só se dá pra quem se deu. Mas ele sabe disso. E ela também.

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O elefante infinito

Postado em 25 de abril de 2013

Ela tocou o ombro dele e pediu a xícara para pôr café. Não era possível acessar nenhuma das duas coisas. Ela olhou para o outro lado e também a moça morena, de onde estava, não alcançava, nem via. Do outro lado, um homem assoviava na rua, na chuva, na fazenda. Episódios lancinantes do final da década de 1990 atiraram balas de efeito moral contra as costas da mulher. Os 30 são realmente uma boa época da vida. Olhou para frente, tudo era aquele elefante pardo. E quando você me envolver nos seus braços serenos, eu vou me render. Mas seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol. Outra canção. Na sala, todos cantam em silencio uma música diferente. Quatro delas são de Chico. Um uníssono: Vai passar. Até que alguém errou a letra.

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(…) Apenas

Postado em 26 de setembro de 2012

A Formiga que criava uma árvore em vez de uma expectativa tropeçou no galho que resistiu à sua última poda. Caiu do alto e fez dodói na cabeça. A enfermaria estava fechada, Formiga chorou alto e pediu seiva. A  Árvore, consternada, espirrou três vezes, enlaçando de seiva a formiga que, petrificada, fez nó no galho, com as pernas para cima, parou de respirar e morreu para a vida. Quem olha de perto, vê que os olhinhos da Formiga vez ou outra se mexem. Depois que virou árvore, é por ali que ela espia.

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Brilho Eterno III

Postado em 23 de agosto de 2012

E no meio do espetáculo, lembrei da mensagem carinhosa, da surpresa no camarim, dos intensos dias de criação, e pensei tanto no meu jardim de bem-cuidados, que de lá do Rio de Janeiro, o gato que brincava com o fio da pipa, de arroubo, sapateou “Because” como se fosse uma rocha.

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Brilho Eterno II

Postado em 23 de agosto de 2012

A pipa foi preparada a seis mãos. Media muito, pesava muito e era muito colorida. Diversos tons de laranja. Uma das coisas atípicas da pipa era estar presa a um palco de teatro. Do palco, a linha enlaçava um refletor e saía pela janela até o Rio de Janeiro. Lá, o fio da pipa dava três voltas no Cristo Redentor. Depois, podia-se acompanhar o fio atravessando avenidas e tomando cafezinhos em padarias. Quem seguiu o fio até o fim, reparou que ele estacionou na  grade de uma janela de um apartamento de um prédio no Jardim Botânico. Do lado de dentro, o bichano tenta alcançar a pipa e um moço jovem, o moço bonito, toma café preto, em frente ao computador, e alcança a pipa com o coração e os olhos rasos d’água.

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Brilho Eterno I

Postado em 23 de agosto de 2012

– Tá. Pode abrir.

– Tá bom assim?

– Não. Tá doendo.

– É normal. Dói um pouco. Depois sara.

– Mesmo se tirar a peteca?

– Não é peteca, é casquinha.

– Mesmo se tirar a casquinha?

– Se botar tempo, sara.

– Tá.

– E então? Posso ir?

– Entre.

E ele entrou, cozinhou as casquinhas, jogou peteca com cada um e com todos, montou uma sala de espelhos bem no meio do merthiolate, fez o vento passar pelas cortinas e pelos narizes, e, no fim, a casa respirava um cheiro bom de comida quente e bolo de chocolate, todos estão dançando até hoje e, conosco, a peteca, que não para de cruzar o céu.

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