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Lições de Pierre Menard

Postado em 18 de agosto de 2012

A moça que não virou colibri, sorriu amarelo depois que a peça acabou, pegou a bolsa, saiu sozinha, sentou no bar, pediu cerveja, checou duas ou três redes sociais pelo celular, recebeu a primeira cantada masculina, puxou um livro da bolsa para se proteger, Perto do coração selvagem, pensou novamente na peça, é, não houve conexão, retrucou baixinho duas ou três palavras amargas, leu o primeiro parágrafo da página dobrada, soluçou, pensou novamente na peça, e, súbito, bebeu o que faltava da cerveja, engoliu o livro, a bolsa inteira, todas as redes sociais e voou.

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Três episódios de inverno

Postado em 3 de julho de 2012

Enquanto escovava os dentes, vi o pequeno homem subir na teia, feito uma aranha. Um centímetro completo de homem. Ágil, quase volátil. Disparou uma corrida atroz em busca de lugar mais alto à menor ameaça de sopro da minha boca. Durmo. Durante a noite, sinto uma chuva da areia sobre o lençol azul. Cuidadosamente sonâmbula, afasto o cobertor do corpo, sacudo, me cubro, volto a dormir. Mais avançado na noite, o duende de pernas longuíssimas passeia pelo telhado. Vejo sua cabeça invertida pela janelinha da parede. Limpo sua testa suada e ele volta a caminhar pelo telhado. Amanhece. E volto a ler sobre a dimensão do fantástico na literatura como catalisador do inimaginável imaginável que tanto enternece as crianças.

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A sopa de abóbora

Postado em 1 de julho de 2012

Francisca chegou na janela e lembrou de quando decidiu assumir esse nome. Depois preparou a panela que receberia cebola, sal, coentro, abóbora e batata para uma sopa. Com frequentes dores estomacais, a sopa era pra Francisca um perfume, um refresco. Orgulhosa, sonhando com muitas mudanças de paradigma, preparou o caldo e foi ao parque de diversões. Meia dúzia de amigas depois e muitas voltas nos brinquedos circulares, consumiu dois litros de água de coco e quis urinar. Dieta líquida. Na saída do banheiro, uma mulher aprendia a soltar fogo pela boca. Francisca pensou: daqui a um país, gostaria de fazer isso. De volta ao colo das amigas, falaram sobre os dias, os trabalhos, as doenças, os amores. À noite, como em qualquer outra, repôs a água da moringa, leu qualquer coisa doce, tomou os remédios, beijou seu marido, dormiu. É pelo barulho de asas molhadas que se sabe quando a chuva cortou alguma coisa importante no céu. Fez faísca na madrugada, aquele som. No enterro de Francisca, o marido, inconsolável, chorava abóboras por ela. Foi uma fatalidade, todos repetiam. Foi uma fatalidade. E logo agora que ele, digo, ela estava disposta a voltar para a Universidade. Saudades eternas de seu marido e amigos, estava escrito na lápide. Em casa, depois do mais longo trajeto de dez minutos de sua vida, tomou um banho e tomou a sopa. De abóbora, dieta líquida. Fez calor e, da janela, como uma rajada de vento, o marido sentiu o fogo que, do país mais distante, Francisca soltava pela boca do céu.

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