Arquivo da tag: Críticos e Criativos

Meu “Desastro” no espaço

Postado em 24 de agosto de 2015

Um menino, tendo sido ele ou não do Brejo da Cruz, esse menino vai desejar reter o mundo entre os dedos, e vai acumular tantas bolas de gude nãos mãos, fazendo concha perto do coração, que uma ou outra vai escapar, ele vai escutar o som que faz a pedrinha no chão, e vai pegar novamente a boneca caída, vai colorir os dedos e enfrentar monstros, sem o cansaço de quem acha que uma pedra não é um caminho, ou que a luz que se dá ao filho quando nasce não é colorida, ver uma planta crescer e um menino, uma menina, essa gente que come luz, ou vomita, que faz marcas de cadáver no chão, e morre e nasce tanto em quinze minutos, que toma as sete vidas dos gatos; em alguma medida, crescer é sair da cápsula, if you dare, o planeta é azul e não há nada que se possa fazer, mas eles sim, enquanto respirar, sempre sim.

 

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Expectación

Postado em 12 de maio de 2015

Gosto muito de assistir às plateias da minha bolhinha. Sábado, em apresentações fechadas para escola, pude observar diversos comportamentos inusitados. A descoberta do riso em ondas das crianças é um deles. Às vezes é tosse. Já vivi uma onda de canção. Mas, naquele dia, vi um menino jogando enquanto via a peça, a mãe do lado. Meu primeiro raciocínio é sempre: tempos multifocais. Atenção exclusiva talvez seja um luxo nesses dias. Ele se relacionava, olhava, ria, buscava cumplicidade com a mãe. E jogava enquanto via a peça. Na minha frente, também uma mãe e um filho assistiam à montagem. Das primeiras risadas às primeiras dúvidas de palavras, ele foi caminhando mansamente da cadeira para o colo dela. O que já não era tão audível se tornou um sussurro continuado de uma aprendizagem completamente orgânica. No sentido de ligada à vida. Ao passo que dizia o significado de algumas palavras ainda desconhecidas, lembrava ao menino de que era necessário prestar atenção. Nesses tempos isso quer dizer escuta. Mais do que garantir a compreensão da peça, aquele foi um momento bom de cumplicidade não virtualizada. E nada me garante que o momento mãe-filho-jogo-no-tablet foi menos. Ler gente é tão embotado quanto ler tempo.

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Nota-tijolo dispersa e comovida sobre desejo desembaçado

Postado em 27 de outubro de 2013

Eu fui pensar em cinema e vivi um momento Clarice. Parei, estupefata, no estacionamento, cenário de fundo burguês. Muitos minutos de silêncio preenchidos por algumas máscaras faciais. Parte desse mergulho eu iniciei há pouco mais de uma semana, parte começou quando eu nasci. Penso sobre estados corporais, pontes com a emoção que preenchem cenas inteiras. É como se meus desejos de escrever viessem já calçados pelos meus desejos de atriz. Mudo o ponto de vista, vejo de fora e de dentro. Recorto os interesses, os campos de centeio, me pergunto e tenho algumas respostas. Outro dia falei: eu gosto de infância e de transformismo e das relações que eu leio entre essas duas gavetas. Vou falar quase sempre disso, falando com a minha pequena traveca que cresce e vive comigo.

Quando eu me ponho em cena, em solo, esses desejos estão no chão junto com outros. Até aqui um inevitável apreço pela queda cega. You jump i jump. Só que estou sozinha no palco. Quando eu tinha grupo e confiava nessa ideia, estar com aquelas pessoas em cena era a casa que eu descrevia incessantemente em verso. Seguro, concentrado, impossível de não funcionar. O que dava certo, eu vejo agora, ia muito além da cena, passava pelo afeto dos nossos corpos juntos fazendo alguma coisa no tempo e dá alegria que borbulhava ao compartilhar isso. Sozinha em cena, pela terceira vez, é outro frio na barriga. E olhe que sei que sozinha em cena nunca se está. Assim como nunca se está completamente acompanhada. Estou com o público, preciso manipular esse público, em alguma medida, a meu serviço, preciso escutar quem está ali, mas antes de tudo, preciso me escutar bem. E volto ao estudo dos estados. No fim, quando não há nada e nem ninguém para se apoiar, resta um estado de concentração, um estudo de presença, algo que reverbere, que se amplie, se projete. Aquela atriz que eu vi no palco anos atrás tragando pela presença, a principal coisa no teatro, aquelas pessoas da plateia. Toda a minha emoção nunca mais repetida porque é sobre isso esse acontecimento também. Minha palavra de sorte é: irradiação. Vira e mexe esqueço essa palavra que busco sempre como corpo.

Estou muito confusa, coração. Muito cheia de ideias. Mais cedo pensei: é surto. Estou surtando. Então, lembrei que isso é Vivien Leigh enchendo o peito de Blanche. Eu não, eu aprendi primeiro a fazer tudo de forma distanciada. E quando se aponta o dedo antes de sentir na carne parece que se funda um terreno um pouco mais protegido. Vem da magia da ironia e do sarcasmo. Só que eu decidi raspar o cabelo e fazer a cabeça. Muitas cabeças. Decidi que quero sentir muito todas as coisas que formarem rede comigo numa opção clara pelo abismo que não nega tudo o que eu aprendi mas avança na certeza de que demorei muito para enxergar com clareza e brilho essa palavra: desejo. É meta honesta, águia, um motor, fica no meio das pontas e avança em proporções diferentes para todos os lados, em diferentes tempos. Um anti-Apolo-Onze que não tinha vontade de nada. Todas as músicas que eu ouvi e os livros. E toda a telenovela que me formou. Heart, eu não costumo negar nada que ficou na carne. E meu corpo é como aquele saco de bolas de programa de televisão. Ganha quem pocar mais bolas mais rápido. Mentira. Ganha quem soltar os balões, a casa e seguir só com o corpo.

Fazendo a defesa do caramujo, meus exercícios diários incluem respirar mais, acumular menos e fazer paradas incríveis, cênicas, demoradas, melodramáticas para prestar atenção em mim e amar isso. Esse corpo é só o que eu tenho, é dele que vem o verso, o projeto, a possibilidade de cena. O disparador disso tudo, eu que quase nunca acho que sou tão explícita, viva a vontade de criar imagem para respirar melhor, foi ter chegado tão perto e, logo, tão longe, de um baú. Talvez a imagem não seja essa e isso não dê conta de nada, esse baú. Esse baú. Esse barril. Queria fazer um trocadilho entre projeto, projétil e o fato de que fui projetada para fora da órbita. Mas vou me contentar com a agudeza do retrato do meu caos visto através da orelha. Acabo de matar três formigas simultâneas. You jump i jump.  Mas não. Eu aprendi a não ter medo me expor em grupo e isso fazia da minha experiência de estar não só em cena mas no mundo uma pisada às vezes até mais firme do que o passo de fato dado.

Faz pouco tempo eu aprendi uma coisa muito bonita com um encontro recente e cheio de amor pela experiência de estar junto compartilhando algo em um tempo: qualidade de vínculo. Isso faz da queda um espaço coletivo possível. Se você vem junto, eu sou essa companhia. Se você não vem, eu não pulo sozinha. Eu refaço a casa, sirvo café fresquinho, abro as janelas, vejo chegar fantasmas, gente colorida e em preto e branco, os erês, aqueles bichinhos da mata, os personagens do coração e danço jogando corações no ar como os balões no vento. É pela possibilidade de novos vínculos que penso cada vez mais em preencher com qualidade o tempo, o meu e o dos outros. Aquela mulher no carro, que sempre sou eu e nunca sou eu, pensou alto: viver é preencher o tempo. Acrescento: e os espaços vazios, agora eu sei. Quando acabar, desafogo. O quê? Uma sardinha.

Depois que a terceira formiga morreu, e isso ela viu do carro, a moça acendeu um cigarro invisível, que fumou inteiro, sem jogar cinza no chão, ensaiou um choro, ainda estupefata com o que vira dentro do baú, repare, ela usa vira, e, de sobressalto, elevou os olhos à esquerda, como quem contempla uma memória vaga de franzir a testa, ao seu lado, um carro simples que em sua cabeça era um mini trio elétrico parou tocando rumba, a música alta não dispersou sua ideias e, em contraste, paralelismo clássico, seguiram conversando, para quem via, em estados de corpos absolutamente distintos. Quando essa onda acabar, ela vai ligar para a amiga, vai precisar ouvir uma voz que faça sentido, a bateria do celular vai acabar, ela vai subir, sem sequer saber como chegou à casa da mãe, vai tomar café, vai dizer olha como fiquei diferente com essa nova cor de cabelo, vai perceber que parte de ficar adulto é saber, sem peso, que nem sempre dormir na casa da mãe resolve, apesar de atenuar algumas angústias, vai voltar ao carro, perceber ao seu lado um carro diferente, bem amarelo, vai dirigir pensando na alta concentração de carros que acumula o Rio Vermelho, até nos domingos à noite, vai chegar em casa, se sentir provisória, se sentir comovida, se sentir mais tranquila, conversar com as coisas sólidas que importam e mover mais uma parede de vento.

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Turning Maria da Graça

Postado em 19 de outubro de 2013

E se levanta antes da casa, bobs no cabelo, para fazer o café. Uma tristeza que não passa com açúcar. Faz broas e pensa que talvez seja mesmo aquela personagem que cresceu. Ou aquela outra. Pensa mais que tudo em Clarice e suas mulheres sempre insatisfeitas. Seguir os dias com um sentimento de inadequação que pão com manteiga nenhum conserta. Um casamento trágico, filhos tragicamente não tidos. O bom das roupas violetas é que de alguma maneira elas chamam atenção para um céu que só se vê depois das cinco e bem de perto.

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I now walk into the wild

Postado em 21 de setembro de 2013

Hoje eu conheci um homem com uma dor falando de outras pessoas. Ele me disse que a felicidade só é real quando compartilhada. Isso depois de morrer só antes de morrer. No filme, o excesso de literariedade, músicas-legenda, aquela velha necessidade de justificar grandes decisões com grandes traumas e o apelo à beleza, aquele rosto easy to look at, como se aquele mundo já não fosse o suficiente para me manter lá, into the wild, me deixaram um pouco entediada. Mas, como quase sempre, a presença de bons atores vem e me emociona. É que tem uma hora que excede o truque e os olhos ficam vermelhos de uma emoção sentida naquele momento e que o cinema eterniza como o teatro nunca fará. A emoção no teatro vem do calor do ao vivo e isso muda todo dia e garante que eu continue querendo ver e querendo estar lá, o único lugar que me tem inteira. Todo o resto é minha dispersão consentida. Tem outra coisa muito linda que o filme detona: a paixão incalculável pelos encontros casuais que vão se perder no mundo e dos quais não levamos retratos. Eles todos seguem na pele. Vão escrevendo o que vamos sendo. I’d take you all the way to Alaska but i have an eight o’clock mass. E meu horóscopo diz que é tempo de brilhar.

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Vazado de bolinhas na minha quarta parede

Postado em 5 de setembro de 2013

Agora que eu peguei as malas e tatuei, sempre penso em repensar. Vou transformando algumas angústias em biscoito de vento e como. Olho para a nuvem e sopro. A nuvem era a bolha, que nunca foi cega. Mas nublava. A verdade é: Eu só quero fazer teatro para quem o teatro abra uma janela. E isso é, como tudo, várias coisas. Eu tenho repetido muito: metade do caminho de quase tudo é tom. A equação é um pouco mais complexa, eu sei. Mas, certas convenções têm me dado alergia crônica. E isso inclui as construções contemporâneas. O que cada vez mais me emociona é muito simples. O jogado fora, o acidente, o que é tão coloquial que representa um convite porque é um afago. Eu não te prendo, não te conduzo, não te digo o que fazer. Deite e veja os passarinhos. Pode fazer barulho. Ma-ru-lho. Quando esse tipo de conexão acontece entre quem está em cena e quem está em cena também, e isso pode levar anos para acontecer ou não acontecer nunca, fadas existem e dinossauros flutuam. Eu me arrisco a dizer pela emoção de ter visto isso hoje. De lembrar, olho enche d’água. Gente que está vendo, dentro: é das coisas que me fazem não ir embora de vez e continuar perdidamente apaixonada por tudo que acontece, acontece, acontece ao vivo, é intenso, não se repete e vai embora. Minha concentração eu quero dispersa. Foco de caquinho. Mas ali, no palco, que pode ser chão, qualquer espaço, cada vez mais perto e sem reverência, sem o embaçado dos fetiches, estou centrada e nada me assusta, estou solta, estou voando. Sento no furacão e firmo o olhar naquele ponto vago de fundo de cena. Você me olha, me ilha, não me vê. Agora vente. Dê cá a mão e sonhe. Não há nada para ser descoberto, eu não sou um enigma. Eu não estou acima e nem abaixo de você. Estamos lado a lado. Eu sou a sua companhia. E isso já é, baby, mais da metade do caminho.

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Como um projétil balístico

Postado em 18 de julho de 2013

Esse tipo de projeção talvez só possa ser compreendida em verso, em imagem. Nervos mobilizados, todos os músculos do rosto. Horas de dedicação à apreciação de universos que não existem, mas estão ali. Imagino aquela mesa imensa, todos os colaboradores reunidos discutindo ficção. Não há nada além disso, a gente é que se engana. Há vidas um pouco menos editadas. Só isso. Aprendi sobre manipulação com alguns amigos e com os autores. Eu posso recriar o que já existe, mas inventar é amor. Os manejos contemporâneos fragmentam até o que já é partido. Diz que é espaço de co-criação do leitor/espectador. Talvez eu não seja mesmo tão contemporânea. Alguns aprendizados já são carne. O que é corpo fica. Corpo move. Mover é lindo. Continuo acreditando na possibilidade de um gosto não somente balizado pelo que funciona. Admiro a potência do acidente. Mas sei e gozo com o arrepio inescapável daquilo que me mobiliza. E que varia. Retomo a vontade de atriz, de viver personagem. Eu quero conhecer até virar. É sequência e consequência, esse delírio. Projeto, projétil e projeção. Como ver pela primeira vez e nadar no ineditismo. Brinco de saber mais do que quem criou. Agora eu já sei o que quero ser quando crescer. A diferença é que eu cresci sendo.

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Agora cresce nos gestos

Postado em 7 de maio de 2013

– Então.

– Isso não é jeito de começar.

– Você não usa contemporaneidade como adjetivo?

– Qualifica. É.

– Então?

– Foi a melhor junção música + cena ao vivo que eu já vi na vida.

– Eles são ótimos.

– Espetaculares.

– Eu também gostei.

– Só isso?

– Eu não gosto de advérbio.

– Nem de pulgas.

– A questà é o artista não se perder do que é importante para ele.

– Hoje em dia?

– Sim.

– Assim, sem contexto?

– Não. Descontextualizar é crime.

– Dale.

– As condições, as condições.

– Amarelas.

– Simbó?

– Sempre.

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Nossos versos são banais

Postado em 25 de abril de 2013

Eu penso em Maria, em todas as que eu conheci, por literatura ou pela vida. É um novo começo criativo. Bem como ouvir uma música sem letra. Não procuro entender buscando o conforto da história. Vou correndo na canção. Demorei para chegar aqui, tanto que as frases foram todas embora. Mas não tem problema. Mudo o caminho. Tomo solução. Ela contornou o a pedra em cima do papel com um círculo vermelho. Nas bordas colou papel crepom. O que sobrou passou no cabelo. Ela agora é ruiva e dirige uma motocicleta em Buenos Aires. Combina jantares, caminhadas no parque e felação em lugares públicos. Falação. Louvemos do mundo, o simultâneo. O homem barbudo quer desatar um nó sem usar as mãos. Mentira ele não quer. Ela quer. Chama por Celia Cruz três vezes e acha que ela é bem melhor que aquela cantora de Jazz famosa. Temos muito de Cuba para dar ao coração. Resolvi sentar para acalmar o esôfago. Quando olhei. Vi plumas nos meus pés. Ele deixou de carinho. Todas as pulgas que eu recolhi para o circo viajaram, mas voltaram. Fizeram sauna e trouxeram duendes de jardim de lembranças. Quando eu falo assim, tudo parece meio de época, meio saído de uma música ruim. Perdoe. Fui em muito lugares essa noite, inclusive aqui. Não espere do mundo a linearidade que você encontra nos resumos que faz depois que saiu do filme. O mundo não é uma sinopse bem resolvida. E viva tudo o que você não conseguiu entender. Viva.

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