Arquivo da tag: Crônicas Portenhas

Compelling Characters

Postado em 2 de agosto de 2013

Bianca odeia que lhe ajudem às 07h da manhã. Essa é a sua hora sonâmbula preferida. Seu sono, reserva para as 15h da tarde. Pontualmente. Dorme três horas e acorda como quem dormiu oito. Não acredita que inverteu certas lógicas já que nunca se sentiu parte das convenções mais corriqueiras. Como se alimenta de sol e de vento, também não precisa ir ao supermercado. Veste sempre a mesma camisola de seda. Só muda de chapéu. Lembra de quando leu Aura pela primeira vez e goza pensando no nome dele. Acha que Carlos Fuentes, se a tivesse conhecido, reconheceria que ela era aquela mulher de futuro. Foi ali que aprendeu sobre atmosfera. Bianca diz que está enfrentando um momento muito difícil.  Diz e pinta as paredes. Futuca um sinal que só cresce em suas costas e não diz a palavra câncer, escreve. Passa por entre as frestas do portão e some. Amanhece de novo e ela ri das tatuagens que fez no corpo, do leiteiro lá fora e de todas as cansativas portas daquele corredor extenso. Notívaga, diurna, coisa alguma que se pegue. Um gosto rarefeito pelas diferenças muito alarmadas. Alto, baixo, tudo construção. Mas, atenção à nota, Bianca deixou de relativizar certas coisas, numa manhã de domingo, quando caminhava sozinha, invisível e inevitável, pelas ruas de Buenos Aires. Minto, era terça e à tarde, em Colonia. É nessa onda e flutuante como um fantasma que ela vai dar vazão, vazão, vazão a tudo que é legitimamente ar. Sem terço, sem trégua, sem truque, ar.

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It keeps blinking

Postado em 25 de julho de 2013

Eu disse a ele que estava muito cansada, os cabelos em desalinho, muitas erupções cutâneas, ardência, coceira, febre alta. Ele me disse que mudasse o foco. Eu expliquei que agora não dava, muito obrigada, eu precisa terminar o volume. Ele me disse que eu estava me matando aos poucos. Eu falei drama king em voz alta e rebati argumentando sobre venenos diários e doces como o açúcar, sejamos honestos. Ele me disse para tirar umas férias, ir com as crianças para as montanhas. Eu disse que não vivo, pelo menos não todo o tempo, em enredo televisivo, e, que, mais tardar, eu iria a Santo Amaro. Ou Cachoeira. Respiro bem nesses lugares e as crianças ficam menos presas. Meu olho não para de piscar involuntariamente.  Estou no meio das veredas, das veredas. Dois dentes ao fundo doem. Esse exercício vai terminar assim que eu parar de cavar os buracos. Diálogo é difícil. Tenho medo da pantera que me assombra. Não escrevo o que deveria. Vou comendo as expectativas com as unhas. Temperando duas caixas de inércia, dez comprimidos, vinte miligramas. Faz muito não ouço dos amigos. Não posso deixar a casa e me locomover até a cidade. Não recebo visitas. Não quero mais ver ninguém.  Até o outro lado da senda. Penso sobre tom. Reduzo  o universo a uma boa investigação de tom. Isso e saber ler. Da última vez em que atravessei os paralelipípedos da rua até o outro lado, um bichinho mitológico viu na borra do café  que eu voaria pelos ares como Macabéia. Voltei pra casa e fiz um pão para as crianças. Enquanto a massa crescia, eu pensava no tempo. Fujo do sono e do filme de terror. Mas eu sou, eu sou, eu sou todos os meus filmes. Vou desligar agora. Eu disse a ele isso também. Meu corpo inteiro coça e eu deixei borracha e marcadores de texto na cômoda. Queria uma preguiça que me carregasse no colo. Mas ela só me imobiliza.  Estou bem, sempre bem, Bertha. Um pouco mais perto de conhecer o mistério da vida. Como disse antes, vou ligar todos os pontos e colorir. Sigo viva, valente e caduca. E, despetalada, me despeço.

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Dylan

Postado em 27 de maio de 2013

Queria, não posso, ajeitar esse frio numa gaveta cheia de cobertores azuis. Dia manso, escuro, sem ideia. Todas as listas viram desenhos em P&B. Ouvi na rua: uma bolha é qualquer coisa que te envolva de maneira insólita e, aparentemente, sem saída. Tenho visto como trégua, um descanso da rotina. Só é assim agora, depois que encontrei o caminho dos alfinetes. Esses discos que eu baixei são de uma tristeza tão linda. Faz tempo não me aproximo disso. Três músicas no repeat. We were goin’ to meet again and wait. Fui ver quem era, era ele. Certas coisas não sei pôr em convivência harmônica. Meu veneno anti-dicotomia é a terceira margem do rio.

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Home

Postado em 26 de maio de 2013

Atrás de um sossego para a pena. Eu nem sabia quando vim parar aqui. Chegar nesse lugar que não é meu e sentir intimidade, carinho, conforto. Já reconheço lugares e sinto falta de pessoas que conheci aqui. Coisa de se deixar e levar consigo. Preciso apontar minha pressa, escrever não tem a ver com isso. Coração anti-escala-industrial, um pêssego, o sumo. Eu vou viver disso, minha mãe. Está na frente e é certo. Essa energia de degrau, essa vontade de pico: tudo vento. Um dia eu sento na varanda, finco os pés na terra e espero os morangos nascerem. Até lá, vou me embriagando de perfumes.

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Descochilo

Postado em 13 de maio de 2013

Hoje, espanto, vi o balãozinho que tenho atrás da orelha esquerda. Antes dele virar vermelho, pensei em: aprender a gostar de cozinhar, parar novamente de roer as unhas, deixar os cabelos crescerem até a cintura. Minto só sobre o cabelo. Há coisas que, acaso acaso, só desamarram nós depois de um tempo. Então, sem saber como, vi hoje a consequência de um pedaço de passado, em um futuro próximo a viver. Ouvi todos os barulhos. Lembrei de mães queridas que já morreram. Achei importante menstruar. Lembrei da imagem do suicida cortando o círculo em linha reta final. Chorei pelo frio. Ouvi na rua: tatuagem como controle sobre o próprio corpo. Pensei em você, imaginei errado. Eu sei. Esse facão, o estilingue e as gotas. Lamento cada amor que não tive antes de não acontecer. Nos próximos dias, tatuo meu equilibrista feito uma âncora no braço esquerdo. Por que essa é minha única ciência, minha fábula dourada sobre as pedras.

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Agora cresce nos gestos

Postado em 7 de maio de 2013

– Então.

– Isso não é jeito de começar.

– Você não usa contemporaneidade como adjetivo?

– Qualifica. É.

– Então?

– Foi a melhor junção música + cena ao vivo que eu já vi na vida.

– Eles são ótimos.

– Espetaculares.

– Eu também gostei.

– Só isso?

– Eu não gosto de advérbio.

– Nem de pulgas.

– A questà é o artista não se perder do que é importante para ele.

– Hoje em dia?

– Sim.

– Assim, sem contexto?

– Não. Descontextualizar é crime.

– Dale.

– As condições, as condições.

– Amarelas.

– Simbó?

– Sempre.

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Versos íntimos

Postado em 5 de maio de 2013

Li, reli e ouvi as canções. Morri, pra fora e pra dentro, voltei. Repensei a biblioteca, encurtei os hábitos. E não fiz nada. Olho o rio passar. Embaixo e por entre as minhas pernas. De tantas cores e aquela margem. Nada me impede tanto. O tempo não me pede nada. Nem o rio. Poema é espaçamento, é sonho. Sigo delirando, em febre, em pranto. Milagre era você chegar sem que eu te ligasse. Mover é lindo, mas hoje não. Botei a alma para fora, as costas doem. Era pra ser Vinícius, mas é Augusto dos Anjos.

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Nossos versos são banais

Postado em 25 de abril de 2013

Eu penso em Maria, em todas as que eu conheci, por literatura ou pela vida. É um novo começo criativo. Bem como ouvir uma música sem letra. Não procuro entender buscando o conforto da história. Vou correndo na canção. Demorei para chegar aqui, tanto que as frases foram todas embora. Mas não tem problema. Mudo o caminho. Tomo solução. Ela contornou o a pedra em cima do papel com um círculo vermelho. Nas bordas colou papel crepom. O que sobrou passou no cabelo. Ela agora é ruiva e dirige uma motocicleta em Buenos Aires. Combina jantares, caminhadas no parque e felação em lugares públicos. Falação. Louvemos do mundo, o simultâneo. O homem barbudo quer desatar um nó sem usar as mãos. Mentira ele não quer. Ela quer. Chama por Celia Cruz três vezes e acha que ela é bem melhor que aquela cantora de Jazz famosa. Temos muito de Cuba para dar ao coração. Resolvi sentar para acalmar o esôfago. Quando olhei. Vi plumas nos meus pés. Ele deixou de carinho. Todas as pulgas que eu recolhi para o circo viajaram, mas voltaram. Fizeram sauna e trouxeram duendes de jardim de lembranças. Quando eu falo assim, tudo parece meio de época, meio saído de uma música ruim. Perdoe. Fui em muito lugares essa noite, inclusive aqui. Não espere do mundo a linearidade que você encontra nos resumos que faz depois que saiu do filme. O mundo não é uma sinopse bem resolvida. E viva tudo o que você não conseguiu entender. Viva.

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No pressure over cappuccino

Postado em 8 de abril de 2013

Eu nunca quis por perto Deus que não fosse amor. Nada que aponte para o medo ou para a culpa. Não sei bem de quem estar junto agora, quando não forem suficientes as aprendizagens da bondade ou das éticas que me formaram. Quando apenas precisamos esperar e desejar que o melhor aconteça, é segundo a vontade de quem ou do quê? Algumas hipóteses me paralisam. Eu sinto falta dela, antes mesmo dela me fazer falta. E um dia seremos mais falta que presença. É nesse ponto que quem tem fé é conforto. E quem só vê azul no céu e acha lindo? Uma das coisas boas do desapego e da compreensão de que tudo passa é olhar para as grandes ocasiões com certo humor. Só que isso é trajetória, não é meta. Vou e volto nas minhas sacolas, bolsas, caixas e malas de viagem. A cada visita, me despertenço um pouco mais. E não estou sozinha, apesar de cultivar certos desejos bem solitários. Meu amores não estão guardados. Os que ficaram, vamos juntos todo o tempo. Saber antes não traz alívio. Antecipações são cólicas gratuitas. Pensei agora, mas poderia ser um recorte HG bem oitentoso. É isso aqui esse momento agora, preenchendo os espaços vazios. Raspo minha cabeça, vislumbro lugares possíveis. Sincronicidades e boas coincidências me animam à euforia. Posso ir do voyerismo invisível à defesa da vagina ácida de todas nós em cinco segundos, mas saber antes eu não vou.

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A dama das camélias

Postado em 19 de março de 2013

Não estou acostumada ao frio. Aqui tem feito. Quando sai o sol, não se pode sair nu na rua. É sol com frio. Só beleza e beleza já é tanta coisa. Bota faz sentido, cachecol também. E é uma aprendizagem montar o figurino. Outras possibilidades de combinações e cores. Já abri mão da farinha, de cor nunca. Vou andando devagar, já que aqui minha pressa é outra. Olho com paciência para todos os homens que me atravessam. Homem de casaco é um convite. Homem confortável. Ainda preciso ajustar o sono e fazer a gripe ir embora. Vou aprendendo com o chão que ando, a não alimentar hipóteses que eu não possa verificar com o corpo. Mover é lindo, com ou sem farinha.

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