Arquivo da tag: Crônicas Portenhas

Vamos juntos, vamos de mãos dadas

Postado em 10 de março de 2013

Enquanto eu não me esforço para tomar chá, mas alimento o costume de parque, as pessoas de lá avançam nas ruas contra o bicho de mais de sete cabeças. O dia oito não é feliz, tanto que existe. Em frente ao Congresso Nacional, mulheres e faixas pela visibilidad lesbiana. No dia seguinte: trabajadoras sexuales também em frente ao congresso. Quando eu ouvi o som das panelas pela primeira vez, em um dos apagões que a cidade sofre, gente na janela e no terraço, batendo forte, gritando e cantando para quem, eu entendi uma diferença crucial entre fazer barulho e querer ser ouvido. Funciona quando os dois caminham juntos, água mole, pedra dura. Isso tudo me chegou há pouco tempo e está comigo desde sempre. Com esforço aprendi a costurar os limites da metáfora. Não é fácil e nem agora. Mas, pão, pão, queijo, queijo, por dias mais felizes e sem datas comemorativas opacas, façamos um trato: minha vida, minhas caras, tua vida, tuas caras, e, no círculo comum, a gente se abraça. E luta.

Compartilhe:

Como onda

Postado em 2 de março de 2013

No sonho ela estava na panela, entre as carnes. Acordei sem saber se o fogo estava ligado, mas lembro do movimento das pernas e de qualquer coisa nascendo pela barriga, enquanto ela parecia morrer. Durante isso, outra pessoa enchia sua boca de macarrão com molho de tomate, e ela comia e comia, e a barriga aumentava como um balão, um esgoto, uma erupção qualquer. Dois outros pequenos estavam no chão e não causavam medo. Eu nunca sonho com gatos, nem me ocupo de lembrar dos sonhos. Esse da panela era como o gato do vizinho que às vezes nos assusta. Amanheceu muito nublado aqui, depois de uma noite chuvosa de raios intensos,  e uma aranha de desenho animado e luzes de computador parecia querer me acordar pelos pés. Gritei, acendi a luz e nada mais aconteceu. Saudade da época em que eu curava os piores pesadelos no colo da minha mãe.

Compartilhe:

La Bomba de Tiempo

Postado em 26 de fevereiro de 2013

Com o coração palpitando na mão, cheguei. Dessa vez não havia nenhuma expressão vagamente conhecida. Eu pensei em voltar, comer, ver qualquer coisa quase asfixiante e dormir vencida pelo sono. Esses dias de caminhada têm te feito bem, ouvi do gnomo. Isso e: Tara está dentro de você. Gnomo do cão. Achei graça do tom e do assunto e entrei. Peguei a mulher independente pela mão e fomos tomar cerveja. Poucas coisas me mobilizam tanto quanto percussão. Mentira. Eu sou mobilizada por muitas, muitas coisas. Mas percussão me tira do sério. Nenhuma imagem que eu plantar vai dar conta. É como se eu quisesse, na ausência da habilidade de tocar, escrever no corpo cada movimento do som. Atenta, atenta, eu quase via a vibração em cores. Montada no anonimato, muitas pequenezas do corpo em ação. É preciso mover. E só isso. Sua luta é com você mesma, não importa onde você vá. Gnomo do cão. A orquestração me trouxe até o cheiro do mar da minha cidade. Esse respeito que eu tenho pela inteligência elegante de um corpo em movimento. Ninguém mexe apenas porque nasceu em determinado lugar. Mas tem lugar que ajuda muito o corpo que deseja e é construído no/pelo movimento. Não posso ensinar esse molejo e ele me faz sorrir pensando que eu vim de lá. E lá é assim. Muito embora eu saiba que não é e nem precisa ser assim para todos. Outra luta contra minha vontade de essencialismos: gostar mais do batuque quando o músico negro assume os solos. Para mim é ver a Bahia que não é toda negra, mas é, me reconhecer como negra, não sendo, admirar com amor profundo essa associação ritmo/corpo/quebra/requebra que para mim tem cor, mas não tem. Eu estou na gringa, sendo a gringa. E se lá a gente ri um pouco do estrangeiro que dança “sem ritmo”, aqui eu posso ser exotizada pelo molejo. Vamos montados no animato eu e o gringo, eu-gringa e ele. É tanta informação dissonante estar fora. Mas eu não estou fora, eu estou dentro. E isso vai mudar muita coisa. Caminho de volta pra casa, veneno anti-monotonia, mergulho na minha saudade de sempre, em technicolor, jazz de antigamente e estampa de bolinha.

Compartilhe:

My little book of practical cats

Postado em 14 de fevereiro de 2013

Salvador dorme esparramado na minha cama. Um gato cinza que carrega o nome da minha cidade e que foi chegando, quase nunca de mansinho, e conquistou um lugar perto de mim. Nunca tive animal de estimação. Pedi um cachorro para minha mãe a vida toda quando era criança e um dia ganhei um cágado. Caguinho, que depois descobri que era fêmea. Caguinho não corria, não pegava as bolas que eu lançava e nem nadava na bacia como eu planejava.  Eu dizia vem Caguinho e ele só colocava para fora a cabeça repetidas vezes, fora, dentro, fora, dentro. Concluí: um cágado é uma pedra que anda. Fiquei com muito nojo quando ele fez cocô no ar quando eu olhava para ele soltando sons agudos da mesma forma que alguns adultos usam para conversar com bebês e crianças em geral. Ele cagou de medo. Eu não entendi e morri de nojo ali mesmo. Ele foi morar em Oliveira dos Campinhos, para crescer em quintal e viver mil anos. E eu continuei sem cachorro. Quando eu cheguei aqui, fui logo avisada de que haviam dois gatos na casa. Temi o pior. É claro que eu não vou me acostumar. Logo vi que Lorenzo, o gato mais velho, era um Buda e Salvador, o mais novo, a velocidade da luz encarnada. E, como em todo bom clichê, Salvador agora dorme no meu colo, interrompe minhas leituras pedindo cafuné exclusivo, sobe em todas as minhas coisas, corre pelo quarto e me arranca boas risadas. Já consigo compreender melhor os miados de Lorenzo, o mais difícil é distinguir fome pura de fome com dengo. Sede eu já sei. E a dele exige plateia paciente e aplauso em cena aberta. Nem tudo eu acho fofo, ainda tomo muitos sustos e ainda outro dia achei que o ruído de prazer que eles emitem era um anúncio de dor de barriga. De todo modo, abri a porta do meu quarto para que entrem os gatos. Entrem, fiquem, saiam. Qualquer dia deixo um deles dormir nos meus cabelos. Mas vamos com calma, calma felina. É um aprendizado mesmo gostoso esse dos bichos.

Compartilhe:

Respirando o corpo-mala

Postado em 21 de janeiro de 2013

Dei para escrever frases no meu corpo. E grafar desenhos poéticos. Estou morando fora pela primeira vez. Não sei se a cidade me acolhe, mas as pessoas que encontrei com certeza. Eu gosto da minha companhia, mas sou irremediavelmente de gente. Gosto de gente tanto quanto gosto de estar sozinha, acho gente muito bom, acho gente um exercício de fé, acho gente uma coisa muito difícil. Fácil, fácil, quase nada é. E dos prazeres que já experimentei na vida e que a minha memória editou, lembro sempre da alegria das boas companhias. Quando não me lembro tanto da viagem é sinal de que a companhia ou o contexto não funcionaram. Ninguém é obrigado a conviver e poder escolher quem está ao seu lado é das grandes aprendizagens de crescer. Estou desenvolvendo habilidades anti-vampirismo e pró-patuá cruciais que representam mais um desejo de paciência tecida com limite, do que a famigerada intolerância à primeira vista. Eu gosto de carregar bolsa grande conforme o peso do meu desejo. Viajo amanhã e ainda não tenho certeza do destino. Isso já seleciona a companhia. Ou já é o começo da minha adaptação a ela. Temos três possibilidades em vista, Salta, Jujuy e Mendoza. A dúvida talvez dure até a estação e vai ser lindo se lá mesmo a gente resolver escolher uma quarta. Diz que viajar é que é mais. Gente é mais também, Lôzim. Eu falo com as mãos, me movo muito. Já gosto de pensamento de areia, água enfrentando pedra, tudo coladinho com a ideia-cerca. Pode ser baixa e adornada, um grande muro de plantas trepadeiras ou qualquer fio invisível aos olhos. É um mundo aprender a conhecer gente. Alguém está se programando para viajar, alguém já está viajando soltinho, alguém está atento aos mapas, alguém se localiza melhor marcando as ruas pelos estabelecimentos comercias ou o chão com pedrinhas. Bonito mesmo é associar algumas rugas que já vejo no meu rosto a gargalhadas bem dadas e bem compartilhadas. É tudo paisagem, parte da vida acontecendo. Estou morando longe agora e continuo na minha cidade, vivendo problemas e alegrias de lá, porque lá tenho gente minha. Já começo a criar gente e alegria por aqui também. E não é assim que vamos nos tatuando no mundo?

Compartilhe:

O sono é uma queda para dentro

Postado em 29 de dezembro de 2012

Aqui se deseja muito felicidade e sorte na despedida. Acho que é como o vá com Deus de algumas mães. Sinto sempre uma certa surpresa quando me deparo com a simpatia gratuita dos estranhos. Hoje três me abordaram de formas muito diferentes e, creio, esperando um castellano que eu ainda não falo. Simpatia é jogo para quem, como eu, depende, em terra estrangeira, da bondade de estranhos. Mansidão e sorriso são recursos inesgotáveis até que tudo flua melhor na comunicação. É tanto caso curioso por minuto que fico imaginando até quando vou conseguir controlar uma crise fenomenal de riso em público. Felizmente, aqui, até agora, só meu travesseiro chorou de rir comigo. Sinto falta de rir descomedidamente. Riso alivia, humor salva. É particular, íntimo e junto. Conheci Carlos Fos, presidente da associação que estou pesquisando, e, quando ele me falou que tinha sido aluno do grande mestre Paulo Freire, meu olho encheu de água e eu abri um sorriso que era a exata ponte entre todo o conhecimento que vim construir aqui e tudo o que aprendi a conhecer com o coração. Íamos pinçando sentimentos estrangeiros, identificações variadas entre países tão múltiplos. Esse negócio de que nosso corpo é nossa casa e que levamos com ele tudo o que é necessário para se sentir ao mesmo tempo dentro e fora de qualquer lugar é uma presença encarnada na experiência da de cá. Ainda mais quando se faz escolhas menos consensuais na vida. Tá, mas, e o que isso tudo tem a ver com o título? Fiz essa nota no meio de um tombo de minha cabeça sobre o caderno de anotações pós-almoço sem soninho nessa terra de meu Deus. O sono é um queda para dentro. E eu já fiquei acordada, enquanto dormia, para apreciar, rindo, os estágios dessa queda.

Compartilhe:

Cada dia, um dia

Postado em 24 de dezembro de 2012

Olha, eu gosto de gente. Como ainda estou formando meus pares aqui, tenho experimentado andar só. Veja, sempre fui uma mocinha excessivamente independente. Só que muito bem acompanhada. Mas construir relações à base de mímica é muito difícil e meu parco espanhol sempre me coloca um balão de revista em quadrinho na cabeça com a imagem de um funil. Muito pensamento para pouca noção da língua. Você chegou há uma semana, isso vai melhorar, menina. Eu sei. Mas ainda assim é muito pensamento. Haja dedinho nervoso, haja exercício de desansiedade. Mas sei que tenho tempo. E isso é até uma novidade que estou me dando de presente. Hoje, novamente, andei bastante, tentei me comunicar, esqueci tudo que aprendi e decidi que, como meu vocabulário em espanhol é o de uma criança de uns cinco anos, eu iria ao cinema ver “El origen de los guardianes”. A motivação é mentira, eu iria de qualquer jeito. Desenho animado é vida. Mas, sim, meu vocabulário é ainda muito restrito e, digamos, inventivo.

Antes de entrar na sala de cinema, temendo errar a sala, a fila, o acento, malditos-benditos lugares marcados, e ser xingada em espanhol, eu sentei no café e consegui pedir empanadas, duas, uma de jamón y queso e uma de calabreza. Bora almoçar empanada que é mais barato e faz crescer. E como, no meu caso. Depois de um tempo, a garçonete simpática articulou uma melodia castelhana que eu compreendi como: O moço lá da cozinha disse que não tem como sair empanada agora não, porque o recheio demora muito de fazer e ainda tá muito cedo agora pra preparar. Como estou acostumada com atendimento íntimo, uma máxima de vários lugares do Brasil e do mundo, me conformei e pedi uma medialuna, um hit portenho, que na França e na Bahia é croissant mesmo. Pensei em pizza individual, mas achei muito grande e de grande já basta minha barriga. Dieta, pensei. Dieta da medialuna solista, com coca-cola, é claro.

Estou no meio da diabólica e acarajérica medialuna, quando a comparsa da garçonete simpática me aparece com três, eu disse três empanadas, em minha frente, me dizendo que elas finalmente haviam ficado prontas. Eu tinha que ter respondido: Cuma? Mas, seguindo o mesmo princípio da história do caldo de sururu da muito amada Fernanda Paquelet, que pediu um Carlton e voltou conformada com seu Caldo de sururu, envergonhada de corrigir o moço da barraca, aceitei as empanadas, olhei para a coca-cola já no fim e meu desejo de economizar alguns pesos (purum, pum, pish!), pensei no refluxo que já marca sua presença nesta noite de domingo, aceitei aquela gordura amiga e, acho que bem intencionada, paguei quase chorando mais do que havia pensado e fui ver o novo filme da Dreamworks. Entendi bastante até, mas não me peça para falar rápido o enredo em espanhol. Vim treinando em voz alta pela rua, aproveitando que ninguém me conhece e posso fazer da estrangeira tímida à maluca da dicção com tranquilidade, mas, cá entre nós, meu castelhano não está pra peixe não.

Compartilhe:

Buenos Aires

Postado em 21 de dezembro de 2012

Muitas horas depois de deixar a minha terra, um menino, no banco detrás do avião disse, olhando pela janela:

– Mãe, o ar! Eu nunca vi o ar.

Eu não conseguia ouvir as respostas da mãe, mas as falas do menino mereciam que eu fizesse um esforço qualquer com os ouvidos. Iléus, IlHHHéus, Iléus, IlHHHéus, ia o menino tentando internalizar os sons e as diferenças sutis de pronúncia que toda língua tem. Meu pescoço pedia cama, depois de todas as pestanas mau tiradas das viagens de avião. Cheguei e guardei da viagem, o menino, meu porta-cabeça inflável, o amparo previsto e essa sorte que me acompanha. Não acho a sorte uma coisa insondável. Acredito na sorte como um estado de espírito. Quando alguém me diz “joga pro universo”, eu sempre penso que quem pega essa peteca é a sorte. Já estive aqui, mas desta vez cheguei para ficar mais tempo. Sem drama, mais tempo. Continuo trabalhando nas coisas abertas que deixei em Salvador e por aqui abro mais portas. Já fiz camaradagem, adoro camaradagem, camaradagem é ri-que-za. Já encontrei gente que conhecia e já conheci novas gentes. Chego sem muita histeria, querendo caminhar e respeitando as dores dos meus pés. Sinto vontade de contas no pescoço e de chegar muito perto de outras realidades. Não lembro mais quem me disse que Machadão, glorioso Machadão, se orgulhava de não deixar seu país por nada, que tudo o que precisava conhecer, conhecia através dos livros. Mas Machado disse isso mesmo? Nem interessa. Não quero aprender mais línguas que não possam virar carne e experiência. Parada no botequim, acompanha uma cerveja gelada: conjunto só é bom pelas interseções, não pelo limite. Desci as escadas do porão, cheiro de mofo, jazz e boa companhia, estava ao mesmo tempo na Nova Iorque que eu inventei, comigo e com Gene Kelly. A felicidade meio triste de achar incrível poder andar de madrugada pelas ruas de uma cidade sem a sensação de um perigo iminente. E ando, ando, ando. Para ir a algum lugar ou para ir a lugar algum. Voltas em torno do meu quadrante, retas e novos ângulos. Nem lá, nem aqui é meu. Não estamos todos de passagem pelo mundo? Escrevo aqui pela primeira vez daqui. Do ponto em que estou, peço ao Papai Noel, aquele que morava em cima do meu armário, uma porção de novas primeiras vezes, sono para acordar disposta para o meu dia de amanhã que pode ser cheio ou pode ser outra coisa completamente diferente, que eu me lembre de usar protetor solar e cuidar dos meus pés, e, principalmente, que nada nunca faça mal às pessoas que eu amo. Pessoa com amor não passa, se assenta e vai conosco se equilibrando pelos poros do corpo. Peço ainda que eu não coma camarão por engano longe de casa, não faça a alcoólatra do poste na cidade alheia e lembre que eu não vim a esse mundo à passeio.  Ou pelo menos não apenas. Pronto. Acho que é isso. Ah! E que eu também possa, um dia, como o menino que agora mora no décimo-terceiro poro do meu ombro esquerdo, ver o ar.

Compartilhe:
12