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Casablanca

Postado em 23 de junho de 2016

Eu não sei como fazer isso. Avançar três casas, voltar uma. E, ao mesmo tempo, tão simples o baile. Tão leve. You jump, i jump, right? O aprendizado continua porque nunca acaba. Festiva e exaustivamente. Vou saltar os barcos de não dormir, agora que tenho um cachorro para aquecer os pés, as mãos e o coração. Ana C.: Te acalma, minha loucura. Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!

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Expectación

Postado em 12 de maio de 2015

Gosto muito de assistir às plateias da minha bolhinha. Sábado, em apresentações fechadas para escola, pude observar diversos comportamentos inusitados. A descoberta do riso em ondas das crianças é um deles. Às vezes é tosse. Já vivi uma onda de canção. Mas, naquele dia, vi um menino jogando enquanto via a peça, a mãe do lado. Meu primeiro raciocínio é sempre: tempos multifocais. Atenção exclusiva talvez seja um luxo nesses dias. Ele se relacionava, olhava, ria, buscava cumplicidade com a mãe. E jogava enquanto via a peça. Na minha frente, também uma mãe e um filho assistiam à montagem. Das primeiras risadas às primeiras dúvidas de palavras, ele foi caminhando mansamente da cadeira para o colo dela. O que já não era tão audível se tornou um sussurro continuado de uma aprendizagem completamente orgânica. No sentido de ligada à vida. Ao passo que dizia o significado de algumas palavras ainda desconhecidas, lembrava ao menino de que era necessário prestar atenção. Nesses tempos isso quer dizer escuta. Mais do que garantir a compreensão da peça, aquele foi um momento bom de cumplicidade não virtualizada. E nada me garante que o momento mãe-filho-jogo-no-tablet foi menos. Ler gente é tão embotado quanto ler tempo.

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Bicho nu

Postado em 12 de maio de 2015

Eu estava ali e ele girava em círculos. Um freio inesperado, uma coisa. Não era um tatu. Não havia casco. Um rato-gato, um gato-ratazana. Com bico de tamanduá. E muitos círculos. Me esgueirei para não atrapalhar seu movimento reflexivo. Naquele momento minha cabeça se expandiu e eu me conectei com um sentimento inexplicável de estranheza. Estávamos juntos, eu e o bicho, naquele sistema. O carro atrás de mim ignorou meu curto e exasperado drama existencial. Quase mata o meu espelho. Subi inflamada de acontecimentos moribundos. Tomei água. Engoli. Tem sido assim. Só sai nos poros o meu espanto.

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Passatempo

Postado em 21 de novembro de 2014

Fonseca, subitamente lírico. Acho que foi isso aqui: “Caiu lentamente e tocou o mar, primeiro a armação de flâmulas, depois a fieira de lanternas já apagadas, depois a cangalha de fogos, até que a imensa boca de ferro pousou no oceano e o balão ficou imóvel, uma caravela fantástica na calmaria”. Transcrevo pois não tenho sono e algumas informações simultâneas tangenciam o que deveria ser um caminho sereno até a cama. Refiz os trajetos e constatei que das poucas horas mal dormidas, gastei vários minutos prolongando um devaneio. No momento em que escrevo isso, observo duas protuberâncias em meu braço direito, resultado de duas picadas de algum ou alguns insetos não identificados. Tenho medo de que esses volumes me engulam e assumam o controle sobre os movimentos do meu corpo. Viro nau, dessa maneira. Tentei adiantar o passo para o próximo conto do livro. Saudade que estava sentindo dele. O dono daquele título comprido pelo qual, eu, formiga, passeei bem muito: “E do meio do mundo prostituto, só amores guardei ao meu charuto”. Boa novela. Gustavo Flávio. E Mandrake, salvo engano. Já cavei tanta coisa da insônia, porque não essas linhas? São 03:36 da madrugada e eu já vasculhei toda a sua vida pregressa. Algumas respostas, sempre forjadas. Poucas fotos, pouca simpatia. Gosto assim. Obra quase completa e a vida. Estou em um momento de ponte. Mas não avisto o outro lado. Nem as primeiras cores. Corro parada. Fermento e alguma pressa. Amargo escolhas ruins, repenso as margens. Se for você do outro lado, não precisa nem tocar a campainha. A chave é a pequenininha, embaixo do tapete. Talvez você não me reconheça de imediato, estou usando franjinha. Pode entrar calçado. O cinzeiro fica dentro do buraco. Minha pele arde. Do buraco na parede.

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Meu pai, o sol

Postado em 10 de agosto de 2014

Pensei agora em ouvir uma música que produzisse alegria. Jorge Ben Jor, quase sempre. Bem era como algumas pessoas chamavam o meu pai. Bem ou Bau. Depende da facção. Os dias dos pais dos últimos doze anos são assim. Em verdade, os meus dias dos pais sempre foram assim. Vou me lembrando um pouco melhor dele, enquanto leio as manifestações calorosas de outras pessoas sobre seus pais, vivos ou mortos, tendo sido eles pais presentes ou não, em vida. Sempre lamento, com certa estranheza, que minha referência paterna principal tenha sido mesmo a minha mãe e a minha avó. Elas são incríveis,  mas, já não posso negar, isso criou lacunas já perdoadas e descrenças insuperáveis. E me formou. Peguei o mundo em plena mudança de paradigmas familiares. São trinta e quatro anos apreciando todas elas. Filha de mãe solteira era um estigma na década de oitenta, tão veementemente presente em mim como a ausência de meu pai. Assim como filha bastarda, outro assombro. Eu fui um pouco das duas coisas. O que mudou de lá para cá foi o espelho, que diariamente altera a maneira como me vejo. Minto. Eu mesma altero a maneira como me vejo no espelho, para o bem, para o mal e para o meio das coisas, que é sempre mais interessante. O que mudou também foi a minha maneira de me relacionar com tudo o que me veio, com alegria, da parte de meu pai, durante e depois que ele morreu. Estabelecer vínculos de confiança, amizade e cumplicidade, enfrentando um histórico difícil e a minha pouca idade/experiência de vida, quando as histórias todas foram escritas. Coisas são irrecuperáveis e coisas podem ser construídas, a partir de demolições macias. Os nomes, como o tempo, vão me ensinando. Escrevo com certa sobriedade, de um eu em recuperação. E só noto como ainda importa, em momentos em que um novo pai se apresenta. E as figuras maternas e paternas são de cruze eterno na vida de muitos. Meu pai escolheu a parte ventania da alegria. Não sei muito disso, mas, já me disseram, que ele era de Omolú e que havia assentado Iansã. Me sinto acolhida pelos dois, no abraço de Carlos. Ele passando de branco naquela rua escura. Aquele dia nos búzios. Meu processo de auto-conhecimento e aproximação com as energias que eram do meu pai. Com tudo o que eu, tão racional, não posso compreender completamente. Depois de tanto tempo não sendo filha de um pai, preciso respeitar esses buracos e as minhas lágrimas, muito emocionadas, ao abraçar Carlos, me recebendo como filha de Xangô.    

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Vermelha

Postado em 6 de agosto de 2014

Fazer todas as outras coisas antes de fazer a coisa devida, eis a máxima. Tempo de plantio, em meio a pouca colheita. No meio do espirro, um sossego. Penso no primeiro semestre mais intergalático da minha pequena paróquia. Pisei em tantos lugares diferentes e voltei ainda neles. Vou expandindo e fazendo concha. Agora, nas montanhas. Ouço Jorge Ben, o baluarte da alegria e passo bem. Para ansiedade: chás. Uma onda viver de criação. Fica bem, fica mal. Emenda e não paga tudo. Filho não sei mais pra quando. Tudo caro. Essa semana, projeto. Semana que vem, não sei. Tem uma rede no fundo da minha caverna e, nela, as muriçocas mordem até por cima da roupa.

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Saúde

Postado em 24 de junho de 2014

Precisando de um momento de arejamento mental, correu ao blog, como quem corre à salvação, ponderou sobre a potência dramática da frase, mas não corrigiu, pois está trabalhando o desejo e a auto-censura, seguiu, em seu desabafo cósmico-colorido, pensando que entre o ser humano, olha que linda generalização, e a felicidade, só existe o como você diagnostica e lida com o problemas que te imobilizam, depois de recuperar a fé da humanidade nesse sentimento tão almejado, voltou ao trabalho canino de limpar a tese de doutorado, para a qual ela criou estratégias de sobrevivência para escrita e gozo, escrita é artimanha, ela também pensou mais cedo, muito embora não tenha postado no facebook, no processo da escrita e leitura solitárias, há muito desejo de postar frases e músicas no facebook, funciona como um respiro e, pode ser que ninguém deseje interferir nessa dinâmica pública-pessoal, a cada dia, ela tenta descobrir novas músicas, discos, sim, ela fala discos, artistas, para tomar com vinho, mas a azia provocada pelo açúcar do desejo, cita, a impede de continuar, é culpa, para e volta ao alinhavo que não acaba nunca, mas tem data para acabar, pensa em como podem ser infinitos os segundos que se passa chorando ou gozando, tem saudades do amor, mas seu senso prático a impede de se concentrar nisso, o tempo das caravelas passou, faz nova lista de tarefas a curto, médio e longo prazo e a principal delas, que está endereçada à julho, e a principal delas, a mais adiada delas, sem a qual nada mais pode existir, vai aos poucos tomando corpo, tomando corpo, o corpo, só existe o corpo.

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Merenda é uma palavra com sabor de infância

Postado em 4 de março de 2014
Na minha escola tinha a “hora da merenda” e a “moça da cantina” trazia sonho e banana real pra comer com refrigerante. Tinha suco também, mas era década de oitenta. Merenda não era tão policiada. Lembro do cheiro que saía da vasilha até hoje. Aquele momento também era pausa e alegria para brincar fora da sala de aula. Naquele tempo eu só corria derrubando coisas e suando a farda do colégio. Tinha também as brincadeiras que gostávamos de repetir. O trepa-trepa (sim, isso mesmo) era o castelo de Ravengar, areia era farinha para bolos incríveis e meia hora contava um infinito.  
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Penteando os cabelos da minha ansiedade

Postado em 7 de outubro de 2013

Naquele dia de febre e compressa de água quente, estar morto era a única condição do meu corpo. O formigamento nas pernas indicava a falta absoluta de movimento. Tanto que se um pássaro ouvisse de longe o ruído do meu sangue na veia e voasse, pena alguma me provocaria cócegas. Dentro seiva muda. Em cima do joelho, esquina de uma dobra com uma veia, duas formigas conversavam serelepes. Falavam sobre uma onda que vinha calma depois de uma onda meio furacão. Da sabedoria das formigas, fica evidente que: uma trilha-objetivo é mais importante que um desejo vago, metas coletivas são mais prazerosas que metas solitárias e, enquanto se caminha, é melhor cantar. No centro da febre, eu escutei a voz mansa e o sossego do tempo. Ele como uma onda. Uma das formigas mordiscou minha pele e eu, ao sentir inflamado o lugar, fiz jorrar, um hidrante vermelho-aberto, todo o sangue meu que era ruim. Nisso, efeito sanguessuga, novos espaços internos foram abertos para a respiração. Um pensamento que adoece a gente é todo barquinho de papel que eu soltei ao vento. Aqueles olhos arregalados do menino na capa do livro, com os barcos. Eu já estou longe e continuo muito perto. Vai chegar o dia em que você vai olhar para o lado e eu não estarei mais lá. Viro fada, viro enguiço, sumo. Estarei dentro daquela outra história. E daquela outra também. Hoje, amor, ardo em febre e descanso. Durante a madrugada vou criar escamas, pele de zebra, oncinha. Ninguém lembrará de nada. Nem as minha formigas. Pausa. Água, pão integral, receita de sono em pílulas. Ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam. Foi assim que eu aprendi duas palavras e é assim que eu ligo os pontos: o-por-tu-ni-da-de. Escrevo para me perder, escrevo para encontrar, que escrever é alegria.

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“Palavras como se elas fossem mãos”

Postado em 18 de agosto de 2013

Em meio à concentração dispersa das palavras de hoje, pensei sobre algumas novas metas pessoais e, sempre, políticas. Minimizar os ímpetos de poder e as vontades de verdade. A culpa não é do outro. A culpa nem existe. Talvez o outro também. Até os santos de barro que eu admiro são santos de barro. Que eu admiro. Alter ego é uma ideia que pode ser bonita, um outro de mim que sou eu mesma. Mas, atenção, não há vozes outside your head, Mark. No meu agora: sempre lembrar que não existe uma única história. Mesmo que doa. Eu apenas não exerço aquilo com que não concordo, mas eu não alimento desprezo por conta disso. Não sustento mais relações oportunistas, nem de um lado nem dos outros. Eu não preciso me relacionar com todo mundo, tampouco ser amada por essa generalização abstrata. Vaidades são lugares perigosos de poder. Na minha terceira margem do rio só existirá a calma que eu li no livro e a amizade, que é um tipo de amor. Nenhuma menção a vampiros. O troco já está dado. O troco nem existe. Falo para me ouvir melhor, à ação. Não existem assuntos melhores e piores. Oposições binárias aniquilam lindas complexidades. Você não me diz o quê, você ouve se quiser. Tudo ideia. O amor, a melhor e mais bonita. O amor é todas as margens, sem centro, sem hiato, amor.

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