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O azul dela

Postado em 3 de agosto de 2013

Às vezes ela acorda para dentro, mas sempre que me vê abre um sorriso. Esses dias ela pegou uma gripe que diminuiu a barriguinha e tudo. Ver minha vó mais murcha sempre me deixa com vontade de chorar. Se eu pudesse imobilizava o tempo com ela. É uma parte muito dolorosa essa de saber que nada dura para sempre. Ela está bem e hoje vimos Cauby juntas, quando ela me chamou para tomar café com ela. Minha vó sempre dispara alguma coisa que eu acho linda. E acho porque em seguida ela ri com som e quase nenhum dente. Os extremos da vida me encantam e entre minha vó e meu começo temos um mundo. Quando um amigo meu terminou um relacionamento e pediu colo, ela me perguntou se ele ainda estava com aquele rapaz. Eu lembro disso e fico emocionada. Sei que o que ela não entende mas respeita porque vê amor, a mim e ao amigo, é a coisa mais bonita que eu aprendo nos silêncios serenos dela.

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It keeps blinking

Postado em 25 de julho de 2013

Eu disse a ele que estava muito cansada, os cabelos em desalinho, muitas erupções cutâneas, ardência, coceira, febre alta. Ele me disse que mudasse o foco. Eu expliquei que agora não dava, muito obrigada, eu precisa terminar o volume. Ele me disse que eu estava me matando aos poucos. Eu falei drama king em voz alta e rebati argumentando sobre venenos diários e doces como o açúcar, sejamos honestos. Ele me disse para tirar umas férias, ir com as crianças para as montanhas. Eu disse que não vivo, pelo menos não todo o tempo, em enredo televisivo, e, que, mais tardar, eu iria a Santo Amaro. Ou Cachoeira. Respiro bem nesses lugares e as crianças ficam menos presas. Meu olho não para de piscar involuntariamente.  Estou no meio das veredas, das veredas. Dois dentes ao fundo doem. Esse exercício vai terminar assim que eu parar de cavar os buracos. Diálogo é difícil. Tenho medo da pantera que me assombra. Não escrevo o que deveria. Vou comendo as expectativas com as unhas. Temperando duas caixas de inércia, dez comprimidos, vinte miligramas. Faz muito não ouço dos amigos. Não posso deixar a casa e me locomover até a cidade. Não recebo visitas. Não quero mais ver ninguém.  Até o outro lado da senda. Penso sobre tom. Reduzo  o universo a uma boa investigação de tom. Isso e saber ler. Da última vez em que atravessei os paralelipípedos da rua até o outro lado, um bichinho mitológico viu na borra do café  que eu voaria pelos ares como Macabéia. Voltei pra casa e fiz um pão para as crianças. Enquanto a massa crescia, eu pensava no tempo. Fujo do sono e do filme de terror. Mas eu sou, eu sou, eu sou todos os meus filmes. Vou desligar agora. Eu disse a ele isso também. Meu corpo inteiro coça e eu deixei borracha e marcadores de texto na cômoda. Queria uma preguiça que me carregasse no colo. Mas ela só me imobiliza.  Estou bem, sempre bem, Bertha. Um pouco mais perto de conhecer o mistério da vida. Como disse antes, vou ligar todos os pontos e colorir. Sigo viva, valente e caduca. E, despetalada, me despeço.

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Como um projétil balístico

Postado em 18 de julho de 2013

Esse tipo de projeção talvez só possa ser compreendida em verso, em imagem. Nervos mobilizados, todos os músculos do rosto. Horas de dedicação à apreciação de universos que não existem, mas estão ali. Imagino aquela mesa imensa, todos os colaboradores reunidos discutindo ficção. Não há nada além disso, a gente é que se engana. Há vidas um pouco menos editadas. Só isso. Aprendi sobre manipulação com alguns amigos e com os autores. Eu posso recriar o que já existe, mas inventar é amor. Os manejos contemporâneos fragmentam até o que já é partido. Diz que é espaço de co-criação do leitor/espectador. Talvez eu não seja mesmo tão contemporânea. Alguns aprendizados já são carne. O que é corpo fica. Corpo move. Mover é lindo. Continuo acreditando na possibilidade de um gosto não somente balizado pelo que funciona. Admiro a potência do acidente. Mas sei e gozo com o arrepio inescapável daquilo que me mobiliza. E que varia. Retomo a vontade de atriz, de viver personagem. Eu quero conhecer até virar. É sequência e consequência, esse delírio. Projeto, projétil e projeção. Como ver pela primeira vez e nadar no ineditismo. Brinco de saber mais do que quem criou. Agora eu já sei o que quero ser quando crescer. A diferença é que eu cresci sendo.

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Meet me in Montauk

Postado em 4 de julho de 2013

Estamos eu e você sobre a pedra. Nós todos. E todo mundo que a gente conhece. Horas eu quero abraçar o mundo, horas eu quero que você me abrace. De todo modo, criei apreço semântico pelo ceticismo nosso de cada dia. É difícil olhar agora sem ser reto. E o amor é todo curva. Sigo, profética, em caldas, quente e vibrante, mas menos histérica. E como tornei corpo todas as lições russas, deixarei os gnomos na prateleira. Distância segura do chão. Um segredo, professora: Eu já sei sentir. E terminar de ajeitar os azulejos. O que dói a vista é a clareza. Escreve: memória como mosaico. Todo mundo sabe. Eu não acredito em concentração como valor, só como pose. O mundo vai ao mesmo tempo agora. Quem quiser desça do bonde. Eu estou no fundo e na janela, de onde vejo em panorâmica um pássaro, a minha girafa, um enorme fio de novelo, flores, flores, flores, uma correntinha com pingente de cruz que  eu tive nessa data e o imenso campo de trigo em verniz, que era o cabelo dele.

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Invertida sobre cabeça

Postado em 13 de junho de 2013

Sono que não cansa. Todo dia amanhã vai ser diferente. Tempo é gerúndio. Para escrever com o mar, eu penso em sal. E em estradas. Arquitetei mundos que não sobreviveram. Fui apagada da calçada. Era um risco de pedra de tijolo, um giz. Veio um pé e esfumaçou. Isso aqui que é vida e corre está desenhado a faca, pena e peteca. Descompasso bom. Aponto o salto alto, lustro as havaianas. Acerto, erro, tudo meu. Inclusive o que falta. Esse cantinho move. Só vê quem tira a careta. Credito a alegria, pego fermento no silêncio. Quando eu for embora, ninguém vai saber ao certo. Quando eu for aquilo tudo também não. Ouvi na perna: It’s all happening. Oui. Yes, it is. Dale. Se tudo fosse escrito de outra forma, eu teria um poema. Mas acontece que eu tenho um balão.

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Aquele assunto

Postado em 15 de maio de 2013

Na pescaria contemporânea, isca é metáfora. Mais não digo, deixo aos pássaros. Não como, não tenho sono, não sei o que quero dizer. Volto pra casa amanhã em círculos. Trabalhar me dá ânimo e a preguiça dos nomes. Vou pra lá, vou pra cá. Vida de colher ao mesmo tempo em que planta. Antes de deitar, escreve no papelzinho: Ói, vida, não me dê pá, me dê a mão, me dê espaço. E ele.

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Chuva barulha bom

Postado em 15 de maio de 2013

Pelo ruído nas plantas, pensei no meu avô Fernando. Esse eu conheci nunca. Vi em foto, calvo, sisudo. Três pessoas de luz me disseram que junto a mim vem um homem bom que é feito ele. No meu pensamento. Vô Fernando virou nome do primeiro bisneto que ele nem sonhou em conhecer. Do lado do meu pai conheci menos ainda, sei por história das irmãs de vó Alice e vô Lídio. Acho que é assim que escreve. Já sou tia-avó e mais que isso não sei se chego a ser. Acho bonito a pessoa ter filho, ter neto. Ver o tempo passando pelas pessoas crescendo. Quando eu nasci, minha vó tinha quase sessenta anos e à medida em que fui crescendo, atravessei com ela a perda de quase todos os que nasceram na época dela. Ela já nem liga. Tem uma boa cabeça a minha avó. Toda branca. Eu tenho certeza de que o nosso encontro, o meu e o da minha avó, é bonito como pedras no espaço antes do planeta nascer, todo infinito. E quando ela sorri, eu amo a gengiva aparente dela; e rio, e acho lindo, ela ali, tão sem dente como os meus recém nascidinhos sobrinhos-netos. Minha vó é meu amor e meu alívio. Um pouso embaixo da minha pele.

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Descochilo

Postado em 13 de maio de 2013

Hoje, espanto, vi o balãozinho que tenho atrás da orelha esquerda. Antes dele virar vermelho, pensei em: aprender a gostar de cozinhar, parar novamente de roer as unhas, deixar os cabelos crescerem até a cintura. Minto só sobre o cabelo. Há coisas que, acaso acaso, só desamarram nós depois de um tempo. Então, sem saber como, vi hoje a consequência de um pedaço de passado, em um futuro próximo a viver. Ouvi todos os barulhos. Lembrei de mães queridas que já morreram. Achei importante menstruar. Lembrei da imagem do suicida cortando o círculo em linha reta final. Chorei pelo frio. Ouvi na rua: tatuagem como controle sobre o próprio corpo. Pensei em você, imaginei errado. Eu sei. Esse facão, o estilingue e as gotas. Lamento cada amor que não tive antes de não acontecer. Nos próximos dias, tatuo meu equilibrista feito uma âncora no braço esquerdo. Por que essa é minha única ciência, minha fábula dourada sobre as pedras.

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Versos íntimos

Postado em 5 de maio de 2013

Li, reli e ouvi as canções. Morri, pra fora e pra dentro, voltei. Repensei a biblioteca, encurtei os hábitos. E não fiz nada. Olho o rio passar. Embaixo e por entre as minhas pernas. De tantas cores e aquela margem. Nada me impede tanto. O tempo não me pede nada. Nem o rio. Poema é espaçamento, é sonho. Sigo delirando, em febre, em pranto. Milagre era você chegar sem que eu te ligasse. Mover é lindo, mas hoje não. Botei a alma para fora, as costas doem. Era pra ser Vinícius, mas é Augusto dos Anjos.

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Wuthering Heights

Postado em 3 de maio de 2013

Eu tenho saudade de tudo o que eu senti lá. O barulho das montanhas, os ruídos da casa imensa. Era como acordar de madrugada e ter medo de atravessar todos os anos até chegar no banheiro. Todas as casas antigas serão sempre a casa da minha bisavó. A espreguiçadeira onde ela descansava depois do almoço. Eu correndo pela casa, inventando os romances. Heathcliff me deixou um óbvio amor pelos lobisomens e Catherine muita preguiça de mulher que desmaia. Não me lembro de outra história de amor cujo silêncio fosse tão retumbante. Por isso o vento soprava tão forte e cada porta aberta libertava  elefantes. Eu estou aqui e naquela pedra. E andei aquilo tudo. Se eu fechar bem os olhos, vejo a roseira do quintal e ouço a voz da minha bisa me chamando de menina. Li esse romance duas vezes, não leio mais. Tenho medo de perder a saudade e sentir, finalmente, um desejo incontrolável de desmaiar.

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