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No pressure over cappuccino

Postado em 8 de abril de 2013

Eu nunca quis por perto Deus que não fosse amor. Nada que aponte para o medo ou para a culpa. Não sei bem de quem estar junto agora, quando não forem suficientes as aprendizagens da bondade ou das éticas que me formaram. Quando apenas precisamos esperar e desejar que o melhor aconteça, é segundo a vontade de quem ou do quê? Algumas hipóteses me paralisam. Eu sinto falta dela, antes mesmo dela me fazer falta. E um dia seremos mais falta que presença. É nesse ponto que quem tem fé é conforto. E quem só vê azul no céu e acha lindo? Uma das coisas boas do desapego e da compreensão de que tudo passa é olhar para as grandes ocasiões com certo humor. Só que isso é trajetória, não é meta. Vou e volto nas minhas sacolas, bolsas, caixas e malas de viagem. A cada visita, me despertenço um pouco mais. E não estou sozinha, apesar de cultivar certos desejos bem solitários. Meu amores não estão guardados. Os que ficaram, vamos juntos todo o tempo. Saber antes não traz alívio. Antecipações são cólicas gratuitas. Pensei agora, mas poderia ser um recorte HG bem oitentoso. É isso aqui esse momento agora, preenchendo os espaços vazios. Raspo minha cabeça, vislumbro lugares possíveis. Sincronicidades e boas coincidências me animam à euforia. Posso ir do voyerismo invisível à defesa da vagina ácida de todas nós em cinco segundos, mas saber antes eu não vou.

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Vamos juntos, vamos de mãos dadas

Postado em 10 de março de 2013

Enquanto eu não me esforço para tomar chá, mas alimento o costume de parque, as pessoas de lá avançam nas ruas contra o bicho de mais de sete cabeças. O dia oito não é feliz, tanto que existe. Em frente ao Congresso Nacional, mulheres e faixas pela visibilidad lesbiana. No dia seguinte: trabajadoras sexuales também em frente ao congresso. Quando eu ouvi o som das panelas pela primeira vez, em um dos apagões que a cidade sofre, gente na janela e no terraço, batendo forte, gritando e cantando para quem, eu entendi uma diferença crucial entre fazer barulho e querer ser ouvido. Funciona quando os dois caminham juntos, água mole, pedra dura. Isso tudo me chegou há pouco tempo e está comigo desde sempre. Com esforço aprendi a costurar os limites da metáfora. Não é fácil e nem agora. Mas, pão, pão, queijo, queijo, por dias mais felizes e sem datas comemorativas opacas, façamos um trato: minha vida, minhas caras, tua vida, tuas caras, e, no círculo comum, a gente se abraça. E luta.

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O destino é tão randômico que parece plano

Postado em 14 de fevereiro de 2013

Depois de anos juntos, a conclusão era evidente. Nem todo amor é seu vizinho de porta.  Do outro lado do mundo, pelo falecido ICQ, naquela parada do metrô, no intervalo cotidiano do cigarro, bem na hora em que recuperava uma echarpe do coração, na praia de todo dia, na saída do estacionamento, bem na hora em que prendia o cadeado da bicicleta, na noite, no dia, a pé ou voando, na festa, na cidade, no topo de uma montanha imprevista, saindo ou não saindo de casa, amor delivery, amor de pronta entrega. Repetidas vezes e nada, uma única vez e pimba. Estou observando tudo e escrevendo os livros. E se, e se, e se. É o amor cheio de vírgulas. Algumas conexões eu não faço e continuo planejando as tatuagens.

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Esse pedaço de céu

Postado em 23 de dezembro de 2012

Dentro do tudo passa, aquela sensação de saudade, aquele pensamento torto, aquela ansiedade de novidade, tudo meio embriagado pela noite, que, levinha, foi transformando demandas em estar muito quieta, atenta e sorridente, escutando uma língua que entra, mas ainda não sai, desperta curiosidades, estimula comportamentos, traz os cultivos todos para o centro da mesa, e eu ainda nem falei do desejo.

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Criando coragem

Postado em 9 de dezembro de 2012

Coragem sentada no banco do carona. Eu vinha, em baixa velocidade, e ela ali, do meu lado, quieta. Dirigindo de uma mão só, braço esquerdo na janela, mão apoiada na cabeça. Cara de tédio. Preguiça de trânsito. As pessoas não sinalizam. E isso pode ser encarado literal ou metaforicamente. O ouvido em chamas, queixas pálidas por dentro. E ela ali, a coragem. Um pensamento haribô me ocorre e é imediatamente levado pela fumaça e pelo barulho. As pessoas, e eu, falam muito alto. Aquele quarto branco e limpo e sem ruídos. Monk feelings. Planejo o banho, a comida e dormir cedo. Eu nunca durmo cedo. Eu nem durmo. Você está adiando a sua vida. Eu? Mas eu faço tanto. Você está adiando a sua vida. Certo. Lembro do livro e da última prateleira. De repente nem quero mais esse fluxo, contar qualquer coisa. Fim de ano, olhar pra trás, rever coisas e pessoas que se foram, que chegaram, que foram lançadas ao vento, same old, same old, pãos e pães, assim é se lhe parece. Globo FM, vá com carinho no que vai dizer, Vanessa da Mata. Zapping. Vastas emoções, pensamentos imperfeitos. Coragem ali sentada, é sábado à noite, grilos convictos desejam deixar minha cabeça pelos ouvidos e pelo nariz. Passagem dói, crescer não menos. O problema de crescer é que não acaba. A solução também. Minha coragem é pequena ainda, eu nem deveria deixá-la andar no banco do carona. Mas ela me pede com jeito e jeito é tudo. Com jeito tudo se negocia a não ser que não tenha jeito. Ressentimento é uma junção que não duplica, corrói e mobiliza esferas. Existe um jeito de abrir mão do ressentimento sem abrir mão da causa? Desconheço. Minha coragem usa cinto de segurança e não joga lixo pela janela do carro. É uma coragem educada mas não colonizada. Quando eu chegar em casa, vamos, eu e ela, de mãos dadas, subir as escadas, crescer mais um pouquinho e olhar adiante e ao redor, que é sempre mais divertido.

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Minha maior ficção de amor

Postado em 30 de novembro de 2012

Pensando bem, meu pai tinha morado muitos anos no Japão, trocava de Chevette para ninguém saber que ele voava, era amigo do dono de todos os bares e por isso eu sempre podia comer amendoins, era dono de todas as fábricas de camisa Polo e bermudas de vovô, era compadre do inventor das sandálias-navio e Leoni quer que eu recrie ele só pro meu prazer.

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Ainda que você não diga

Postado em 30 de novembro de 2012

Há dez anos atrás, na virada do dia  trinta para o dia primeiro de dezembro, eu não sabia que era muito nova para perder um pai. Você vai dizer, e existe idade certa? Não. E é por isso que eu não sabia. Daqui dos trinta e dois, meu pai morreu quando eu ainda não tinha conhecido um dos grandes namorados que tive, nem sonhava em ter qualquer coisa tatuada no corpo, vivia e acreditava na ideia grupo, roía as unhas sem pudor algum, achava que tinha que perder só mais cinco quilos, pensava no amor como um projeto distante, lia Vinicius de Moraes com devoção e nenhum discernimento crítico, exercia as curiosidades ilícitas da vida, pensava em escolher linguística em vez de literatura e seguir pela vida espirrando Chomsky, já havia feito papai Noel como a atração de Natal da escola onde eu estagiava contando histórias para crianças, tinha certeza que cantar não era para mim, atuar talvez fosse e escrever só para as gavetas, acreditava piamente nos cabelos compridos e tinha sonhos bem diferentes dos que tenho hoje. Ainda não aconteceu, mas é daqui a pouco. Meu pai fará dez anos de morto, e eu pensarei em coisas que fiz durante esse tempo. Das que me lembro, das que me orgulho e das que me desprendo. É muito estranho pensar que mal compartilhei com meu pai apenas vinte e dois anos de existência nesse tempo-espaço em que nos cruzamos. Mais ainda, pensar que daqui a doze anos terei passado por mais uma metade da minha vida sem ele. Como eu não posso dizer que o conheci bem, só me resta a saudade invisível e a inabalável convicção dos abraços muito apertados. Não, eu nunca mais deixo de abraçar por falta de coragem. Subo de volta o elevador, acho que deixei o ventilador ligado, confiro se as lâmpadas estão apagadas, bebo meio copo de água, e finalmente abraço e beijo muito a minha avó, bença vó, e a minha mãe, que está e sempre estará em tudo, em todos os tempos.

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Feito tatuagem

Postado em 29 de novembro de 2012

Não é sobre a imagem perfeita, não é sobre a escolha da dor, é sobre adorno, desejo e arbítrio, e não se esgota, fotografa um tempo, assinala futuros, formas de revisão e novidade, rema para sentidos possíveis, íntimos como masturbação, movimento circular dentroforaforadentro, acabo de fazer e já planejo as sequências, acabo de fazer e já planejo as reformas, acabo de fazer e já quero mudar tudo, acabo de fazer e admiro as pequenas coragens diárias, um esmalte de mostarda atômica, amor de amigo, despedidas solares e outros desenhos fundos que eu não conto. Viver não é da conta de ninguém, meu baralho, meu patuá. E as chaves estão em cima da mesa.

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Amor é crença II

Postado em 18 de novembro de 2012

E no meio do pensamento: tudo que é sólido se t-r-a-n-s-f-o-r-m-a, se r-e-i-n-v-e-n-t-a e se m-o-v-e no ar.

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Amor é crença

Postado em 18 de novembro de 2012

Então, após intensa reflexão sobre a ficção do dinheiro no banco e outras ficções da contemporaneidade, concluo que amor, mão e contramão, é via dupla feita da mesma matéria de que são feitos os sonhos. É tudo que já foi dito sobre isso. E tudo o que ainda se dirá. Aquela ficção de gaveta, aberta. É chama, fé e filme.

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