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O livro dos prazeres

Postado em 18 de novembro de 2012

Tiro no pé, gota d’água, um peso e duas medidas, venha a nós e ao vosso reino nada, murro em ponta de faca, soldado morto, farda noutro, farinha pouca, meu pirão primeiro, muito barulho por nada. Águas passadas não movem moinho. Oração: Não quero bater, nem furar coisa alguma a mais. Do mundo, as voltas.

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Doze

Postado em 12 de outubro de 2012

Retrato não digitalizado: Eu, minha mãe e minha tia esparramadas na cama de casal. Todo o dengo da minha infância de filha única. Daquela foto, só resta a cômoda da minha avó, que não estava na foto, mas estava. Até hoje é assim e depois do almoço sempre pode acontecer de novo. Esparramadas, eu e as três grandes mulheres da minha vida.

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Batom vermelho para dormir

Postado em 4 de outubro de 2012

Crio, projeto, cumpro. Agora mesmo, perdi a ideia. Gaiola de elásticos vermelhos e saquinhos com água dentro. Parece literatura, mas é peça. Essa ordem toda de antever é um prefácio. Penso sobre intuição e fermento. Está chegando a hora. Estou chegando.

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Recuerdos

Postado em 17 de setembro de 2012

A palavra vinha e era balbuciada. O se eu não uso, dou, não vale para as coisas escritas. Passo as folhas, passo os anos, algumas frases ativam até o cheiro do momento, outras nada, nada. Rasgo algumas páginas, dois ou três cadernos, fecho novamente a caixa, apenas um pouco mais limpa e organizada. Minha mãe que dizia que era um bom hábito escrever diário. Fui pegando gosto, pegando gosto e, agora, esse lá atrás aponta miradas plenas de futuro.

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Para Joana Paula, que nunca existiu

Postado em 13 de setembro de 2012

Eu perdi o meu espanto. Lembrei de quando meu pai me deixou fingir que dirigia o chevette. Meu pé não alcançava os pedais, mas no colo dele, eu dirigia. Essa não era a regra dos meus dias, ele não era. Talvez por isso eu tenha saudade de muitas exceções. Ando cansada de muitas pessoas. Não com aquele olhar fatigado de quem tem certeza de que carrega o mundo nas costas e só recebe ingratidão. Meu cansaço é uma leve desvontade de lidar com problemas que já conheço. Tem uma leve pitada de desconfiança de que algumas pessoas não estão interessadas em mudar. O que pode soar arrogante e talvez seja mesmo, qual o termômetro? De todo modo, prefiro carregar água na peneira do que o mundo nas costas. É a vaidade que consinto. Não vou atribuir nada disso a nenhum personagem. Nem a mim. No fim das contas, ninguém sai vivo daqui, mas vamos com calma. O que não é regra vira lembrança. E aquele espanto nunca foi meu.

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Aquele azul do céu é que nos engana

Postado em 12 de setembro de 2012

– Vó, quem vai comer tanto arroz?

– Tava congelado, tem que descongelar.

– Por que não botou no microondas, vó?

– Não. No fogo é mais rápido.

Esse tempo dela, de gostar de esquentar tudo no fogo, me faz achar bonito o arroz que, sem enxergar direito, ela vai jogando no chão, como quem espalha os anos e os limites da idade, tudo pacientemente, no temperamento que ela foi aprendendo a ter. Ser mais velho como ser criança não é nunca uma coisa só. E é isso que me encanta no tempo.

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Café da manhã

Postado em 12 de setembro de 2012

O padre contava que uma vez Maria e José perderam Jesus, retornando de uma viagem. Eu nem sei que lição Jesus ensinou a seus pais quando eles o encontraram em desespero. Mas minha avó em gargalhada aberta exclamou na sala: Jesus era teimoso! E ficou sendo.

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As janelinhas da minha avó

Postado em 12 de setembro de 2012

Criança de dente mole aproveita qualquer desculpa pra remexer o danado com a língua. Dona Maria dizia que tirava dente de criança amarrando uma corda do dente até a maçaneta de uma porta. Era bater a porta e o dente saía. Todas as minhas janelinhas foram recebidas como diversão pelos parentes. Cadê a janelinha? Aqui ó. Minha avó, que quase não tem mais dente, padece do contrário. Próteses, sorrisos no copinho, soluções mirabolantes para não enfrentar o inevitável. O tempo passa, o corpo sente, muda. Se o dente ameaça cair, tira o dente para não engolir e engasgar. Mas e a mastigação? E o comprometimento do sorriso dentado? Depois dos noventa anos, o incômodo da prótese não compensa uma comida molinha que se possa comer saboreando sem pressa e sem aços. Ainda mais com o apetite manso e voraz da minha avó. Hoje de manhã ela me mostrou tão contente o sorriso banguela, dizendo, ói, só tem pouquinho agora, mas esse aqui faz é coisa. É no meio da gargalhada que damos juntas que eu, de olhar já fico lacrimosa, da beleza que é a risada-liberdade da minha avó.

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A pequena fome

Postado em 31 de agosto de 2012

Enquanto dirigia, respirava. O bolo de agulhas revirando dentro, as paredes do esôfago. Comichão, barulho, borboletas. Nem era outubro, e eu já temia. Lembrei que quando chega e é certo, é também tranquilo. Foi esse bater de asas que, muito antes de apressar as curvas, encheu meu corpo de ar, vento correndo nas veias, e de fôlego o meu tratar o caminho.

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Dueto Solaz

Postado em 30 de agosto de 2012

Esse vinho aberto para mim mesma. Aquela pequena garrafa de champagne. Uma comida para comer sozinha celebrando a casa que deixei voar com os balões de gás. Deixamos, deixei. Um vestido verde, acompanha bolsa vermelha e enfeite amarelo no cabelo. Vou sem salto, sem peruca. Vou careca. Vou com Nara e Chico na cabeça. Espera, amor. Estou chegando.

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