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Quero que você me leve

Postado em 20 de agosto de 2012

Hoje voltei à minha cidade que não é minha e nem chega a ser uma cidade. Fui lá pensar e aterrei: Cazuza é que tinha razão. Eu cresci, minha mãe. Papinha e muitas pessoas depois. E de todas as minhas saudades, olhando para a névoa colorida à minha frente, a que mais dói, é a que ainda não aconteceu, mas breve.

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Mais firme, mais macio

Postado em 16 de julho de 2012

O tecladinho da década de oitenta em algumas músicas traz de volta bala soft, tubaína e muito neon com xadrez. Pequena, eu pensava por trama de novela. E a cada complicação da minha narrativa pessoal de filha única, um novo movimento de câmera sublinhava um olho, gesto ou lágrima furtiva. Jéssica recebia flores no escritório, Karen, minha Barbie ciclista sem pernas, ficava com o moço mais bonito e desejado por todas, e, invariavelmente, a irmã que havia sofrido uma grande perda, normalmente a de um filho, partia para Suíça, a fim de respirar novos ares. Eu armei barracas de lençóis em todos os cômodos da casa, vesti as roupas da minha mãe e comi todos os seus batons. Faltava aula para ver desenho com a minha vó. Risquei os livros, colori as paredes e desenhei vestidos de época – que para criança não há diferença possível entre vida, brincadeira e folha em branco.

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Para ela, com humor

Postado em 4 de julho de 2012

Mainha não era minha mãe, era minha vó da Barra. Lembro dos almoços, do dengo e de uma ligação que eu já esperava no dia do meu aniversário. Vó da Barra acumulou muitos anos, alguns problemas de saúde, uma saudade que ninguém supria, uma orda de familiares mortos, muitos esquecimentos de quem estava vivo. Faz três anos que eu não falo com seu tio, minha filha. Mas, Mainha, meu tio foi na sua casa ontem, não lembra? Não, minha filha, faz três anos. Por que ninguém mais daí me liga? Eu vou falar com minha mãe para te ligar de novo, tá bem, Mainha? Tá bem, minha filha. Na última vez em que a vi, ela era uma trouxinha, um senhorzinho, uma empanada de cheiro muito forte. Apertava a mão da gente ou assim a gente queria. Abria e fechava os olhos, respirava por tubos, tinha um escuro fatal em uma das pernas. Eu botei colírio nos olhos dela, e afaguei a testa, beijei de longe, depois de um espirro. Saí. Melhor não facilitar, melhor resguardá-la dos gripados. Ninguém consegue proteger alguém da morte. Quando ela chega, é sem aviso. Mesmo para quem já sabe e espera por ela há tanto tempo, por tantas pequenas ameaças. Dias depois, recebi a notícia e cumpri os rituais. De levar, de ver, de acolher. Minha vó da Barra fechou um ciclo de muitas mortes doídas. E esse será meu primeiro aniversário sem uma ligação dela. No fim da manhã, eu vou escrever para mim mesma, ouvindo do jeito que você dizia. Minha filha, nunca perca a sua alegria.

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Epifania

Postado em 11 de abril de 2012

Apoiou todos os instrumentos, esquentou a água, pôs o pó. Não gosto desse tempo. Nem do modo.

– Queimei minha mão.

– No fogo?

– Na água quente.

Depois de aspirar o pó, coletei todos os dejetos, quebrei vinte e cinco copos, apoiei os cotovelos no corrimão, girei os discos da vitrola, limpei o café e escrevi um livro.

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Piedade

Postado em 15 de novembro de 2011

Verifica-se pressão arterial. A moça vestia jaleco e usava uma sandália alta, salto Anabela. Cumprimentou um homem que lhe mostrava um cartaz com uma impressão de uma nossasenhora. Verifica-se glicemia. Ao lado, um senhor empunhava uma lata de cerveja e dançava ao som do carro de cafezinho. Enquanto isso, uma moça de blusa laranja começa a dançar, menciona atravessar a rua, esquece, balança o corpo, corre, abraça um senhor e segue, braços dados com ele. Eu, encostada no poste, esperando a carona, me divirto ao som da praça.

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A sala é de estar

Postado em 4 de novembro de 2011

Na época se usava muito conjunto de duas peças. O meu, nesse dia, era cor de rosa. Tinha um dizer em inglês do qual jamais me lembrarei. Mas era azul. Na foto, meus cabelos voam e meu sorriso conta o exato momento em que meu pai tirou as rodinhas dela. Na minha memória, mas não posso afirmar se foi assim de fato, ele segurou no banco, eu disse não solta, ele andou comigo um pouquinho e, depois disso, eu nunca mais parei de andar de bicicleta sem rodinha.

A porta está aberta!

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