Arquivo da tag: Dedicado a você

Rio Acima

Postado em 11 de janeiro de 2014

Nessa noite perfumosa, meu amor, de silêncio e pau de chuva, eu queria, mesmo que você não ouça, te dizer que eu vi no tarot a sua presença depois de muito tempo, e, olha que coisa, amanhã que já é hoje, abriremos a caixa onde você depositou todos os guarda-chuvas. Abriremos de levinho, uma porta e uma janela. Eu queria, mas talvez você nunca saiba, te dizer: aquele amor eu cuidei de transformar em mais amor, virou soma, virou gente e está tão bonito. Eu gosto porque ele se posiciona, com medo de errar, mas arriscando com coragem. Agradeço tanto, meu bem, o amor vivido, obrigada. E na noite anterior a essa grande emoção, prevista e imprevista, meu engasgo dura o tempo daquela música de chuva que sempre me faz chorar. Mais um tanto, vai. Me diz Paulo Mendes Campos: Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Eu queria te dizer, meu bem, obrigada por ter doído tão fundo. Amanhã, que já é hoje, será mesmo um grande dia.

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Coragem.coragem.coragem: ancoragem

Postado em 31 de dezembro de 2013

Das coisas que eu não faria antes do ano acabar: escrever. A chave disso, embora não exista nada a ser aberto, está em Adélia Prado. Aquele ex-voto que sempre me faz chorar. Olho os anos repetirem um gosto delicioso de satisfação e o mesmo desengano. Não vou negociar a mesma tecla. Ela será batida à exaustão até que voe. Muitas coisas nessa vida eu já sei fazer: andar de bicicleta, mover águas paradas e abrir o coração. Você está olhando na direção errada, você me diz. Não. Eu vejo em panorâmica, mas somente até onde a paisagem some. O que movimenta as viagens é a novidade impossível, chegar familiar ao que não se conhece. Todo mundo pode mudar de ideia. E eu também posso. Preciso ocupar certos lugares de desejo e ter ganas de me mudar para eles. Preciso de menos máquina e mais plano de pouso. Head up, young person. O que não é e não será e não está aqui irá embora como chegou, no vento que você tem nas costas. Esse ano, como tem sido, novas estreias e novas sementes. Coragem para abrir espaço e reconhecer as novidades. Ir embora levando o melhor do mundo comigo: as pessoas, antigas e novas, do coração.

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Nota-tijolo dispersa e comovida sobre desejo desembaçado

Postado em 27 de outubro de 2013

Eu fui pensar em cinema e vivi um momento Clarice. Parei, estupefata, no estacionamento, cenário de fundo burguês. Muitos minutos de silêncio preenchidos por algumas máscaras faciais. Parte desse mergulho eu iniciei há pouco mais de uma semana, parte começou quando eu nasci. Penso sobre estados corporais, pontes com a emoção que preenchem cenas inteiras. É como se meus desejos de escrever viessem já calçados pelos meus desejos de atriz. Mudo o ponto de vista, vejo de fora e de dentro. Recorto os interesses, os campos de centeio, me pergunto e tenho algumas respostas. Outro dia falei: eu gosto de infância e de transformismo e das relações que eu leio entre essas duas gavetas. Vou falar quase sempre disso, falando com a minha pequena traveca que cresce e vive comigo.

Quando eu me ponho em cena, em solo, esses desejos estão no chão junto com outros. Até aqui um inevitável apreço pela queda cega. You jump i jump. Só que estou sozinha no palco. Quando eu tinha grupo e confiava nessa ideia, estar com aquelas pessoas em cena era a casa que eu descrevia incessantemente em verso. Seguro, concentrado, impossível de não funcionar. O que dava certo, eu vejo agora, ia muito além da cena, passava pelo afeto dos nossos corpos juntos fazendo alguma coisa no tempo e dá alegria que borbulhava ao compartilhar isso. Sozinha em cena, pela terceira vez, é outro frio na barriga. E olhe que sei que sozinha em cena nunca se está. Assim como nunca se está completamente acompanhada. Estou com o público, preciso manipular esse público, em alguma medida, a meu serviço, preciso escutar quem está ali, mas antes de tudo, preciso me escutar bem. E volto ao estudo dos estados. No fim, quando não há nada e nem ninguém para se apoiar, resta um estado de concentração, um estudo de presença, algo que reverbere, que se amplie, se projete. Aquela atriz que eu vi no palco anos atrás tragando pela presença, a principal coisa no teatro, aquelas pessoas da plateia. Toda a minha emoção nunca mais repetida porque é sobre isso esse acontecimento também. Minha palavra de sorte é: irradiação. Vira e mexe esqueço essa palavra que busco sempre como corpo.

Estou muito confusa, coração. Muito cheia de ideias. Mais cedo pensei: é surto. Estou surtando. Então, lembrei que isso é Vivien Leigh enchendo o peito de Blanche. Eu não, eu aprendi primeiro a fazer tudo de forma distanciada. E quando se aponta o dedo antes de sentir na carne parece que se funda um terreno um pouco mais protegido. Vem da magia da ironia e do sarcasmo. Só que eu decidi raspar o cabelo e fazer a cabeça. Muitas cabeças. Decidi que quero sentir muito todas as coisas que formarem rede comigo numa opção clara pelo abismo que não nega tudo o que eu aprendi mas avança na certeza de que demorei muito para enxergar com clareza e brilho essa palavra: desejo. É meta honesta, águia, um motor, fica no meio das pontas e avança em proporções diferentes para todos os lados, em diferentes tempos. Um anti-Apolo-Onze que não tinha vontade de nada. Todas as músicas que eu ouvi e os livros. E toda a telenovela que me formou. Heart, eu não costumo negar nada que ficou na carne. E meu corpo é como aquele saco de bolas de programa de televisão. Ganha quem pocar mais bolas mais rápido. Mentira. Ganha quem soltar os balões, a casa e seguir só com o corpo.

Fazendo a defesa do caramujo, meus exercícios diários incluem respirar mais, acumular menos e fazer paradas incríveis, cênicas, demoradas, melodramáticas para prestar atenção em mim e amar isso. Esse corpo é só o que eu tenho, é dele que vem o verso, o projeto, a possibilidade de cena. O disparador disso tudo, eu que quase nunca acho que sou tão explícita, viva a vontade de criar imagem para respirar melhor, foi ter chegado tão perto e, logo, tão longe, de um baú. Talvez a imagem não seja essa e isso não dê conta de nada, esse baú. Esse baú. Esse barril. Queria fazer um trocadilho entre projeto, projétil e o fato de que fui projetada para fora da órbita. Mas vou me contentar com a agudeza do retrato do meu caos visto através da orelha. Acabo de matar três formigas simultâneas. You jump i jump.  Mas não. Eu aprendi a não ter medo me expor em grupo e isso fazia da minha experiência de estar não só em cena mas no mundo uma pisada às vezes até mais firme do que o passo de fato dado.

Faz pouco tempo eu aprendi uma coisa muito bonita com um encontro recente e cheio de amor pela experiência de estar junto compartilhando algo em um tempo: qualidade de vínculo. Isso faz da queda um espaço coletivo possível. Se você vem junto, eu sou essa companhia. Se você não vem, eu não pulo sozinha. Eu refaço a casa, sirvo café fresquinho, abro as janelas, vejo chegar fantasmas, gente colorida e em preto e branco, os erês, aqueles bichinhos da mata, os personagens do coração e danço jogando corações no ar como os balões no vento. É pela possibilidade de novos vínculos que penso cada vez mais em preencher com qualidade o tempo, o meu e o dos outros. Aquela mulher no carro, que sempre sou eu e nunca sou eu, pensou alto: viver é preencher o tempo. Acrescento: e os espaços vazios, agora eu sei. Quando acabar, desafogo. O quê? Uma sardinha.

Depois que a terceira formiga morreu, e isso ela viu do carro, a moça acendeu um cigarro invisível, que fumou inteiro, sem jogar cinza no chão, ensaiou um choro, ainda estupefata com o que vira dentro do baú, repare, ela usa vira, e, de sobressalto, elevou os olhos à esquerda, como quem contempla uma memória vaga de franzir a testa, ao seu lado, um carro simples que em sua cabeça era um mini trio elétrico parou tocando rumba, a música alta não dispersou sua ideias e, em contraste, paralelismo clássico, seguiram conversando, para quem via, em estados de corpos absolutamente distintos. Quando essa onda acabar, ela vai ligar para a amiga, vai precisar ouvir uma voz que faça sentido, a bateria do celular vai acabar, ela vai subir, sem sequer saber como chegou à casa da mãe, vai tomar café, vai dizer olha como fiquei diferente com essa nova cor de cabelo, vai perceber que parte de ficar adulto é saber, sem peso, que nem sempre dormir na casa da mãe resolve, apesar de atenuar algumas angústias, vai voltar ao carro, perceber ao seu lado um carro diferente, bem amarelo, vai dirigir pensando na alta concentração de carros que acumula o Rio Vermelho, até nos domingos à noite, vai chegar em casa, se sentir provisória, se sentir comovida, se sentir mais tranquila, conversar com as coisas sólidas que importam e mover mais uma parede de vento.

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Criança nonsense

Postado em 12 de agosto de 2013

No chevette, voltando de Periperi, depois de contar todas as luzes dos postes, deitada no banco de trás, chupando dedo e cheirando o paninho. Vamos atravessar o túnel Américo Simas, minha mãe anuncia:

– Filha, olha o túnel.

– ÊÊÊ! O túnel do pau! Parabéns pra você! Todo mundo!

(Família moribunda)

– Parabéns pra você, nessa data querida!

E todo túnel era assim.

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Invertida sobre cabeça

Postado em 13 de junho de 2013

Sono que não cansa. Todo dia amanhã vai ser diferente. Tempo é gerúndio. Para escrever com o mar, eu penso em sal. E em estradas. Arquitetei mundos que não sobreviveram. Fui apagada da calçada. Era um risco de pedra de tijolo, um giz. Veio um pé e esfumaçou. Isso aqui que é vida e corre está desenhado a faca, pena e peteca. Descompasso bom. Aponto o salto alto, lustro as havaianas. Acerto, erro, tudo meu. Inclusive o que falta. Esse cantinho move. Só vê quem tira a careta. Credito a alegria, pego fermento no silêncio. Quando eu for embora, ninguém vai saber ao certo. Quando eu for aquilo tudo também não. Ouvi na perna: It’s all happening. Oui. Yes, it is. Dale. Se tudo fosse escrito de outra forma, eu teria um poema. Mas acontece que eu tenho um balão.

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Chuva barulha bom

Postado em 15 de maio de 2013

Pelo ruído nas plantas, pensei no meu avô Fernando. Esse eu conheci nunca. Vi em foto, calvo, sisudo. Três pessoas de luz me disseram que junto a mim vem um homem bom que é feito ele. No meu pensamento. Vô Fernando virou nome do primeiro bisneto que ele nem sonhou em conhecer. Do lado do meu pai conheci menos ainda, sei por história das irmãs de vó Alice e vô Lídio. Acho que é assim que escreve. Já sou tia-avó e mais que isso não sei se chego a ser. Acho bonito a pessoa ter filho, ter neto. Ver o tempo passando pelas pessoas crescendo. Quando eu nasci, minha vó tinha quase sessenta anos e à medida em que fui crescendo, atravessei com ela a perda de quase todos os que nasceram na época dela. Ela já nem liga. Tem uma boa cabeça a minha avó. Toda branca. Eu tenho certeza de que o nosso encontro, o meu e o da minha avó, é bonito como pedras no espaço antes do planeta nascer, todo infinito. E quando ela sorri, eu amo a gengiva aparente dela; e rio, e acho lindo, ela ali, tão sem dente como os meus recém nascidinhos sobrinhos-netos. Minha vó é meu amor e meu alívio. Um pouso embaixo da minha pele.

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Versos íntimos

Postado em 5 de maio de 2013

Li, reli e ouvi as canções. Morri, pra fora e pra dentro, voltei. Repensei a biblioteca, encurtei os hábitos. E não fiz nada. Olho o rio passar. Embaixo e por entre as minhas pernas. De tantas cores e aquela margem. Nada me impede tanto. O tempo não me pede nada. Nem o rio. Poema é espaçamento, é sonho. Sigo delirando, em febre, em pranto. Milagre era você chegar sem que eu te ligasse. Mover é lindo, mas hoje não. Botei a alma para fora, as costas doem. Era pra ser Vinícius, mas é Augusto dos Anjos.

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A straight line down through the heart

Postado em 27 de abril de 2013

Enquanto eu te espero chegar, tomo esse vinho, bebo aquela música de novo, só por conta das cartas, dos búzios e do meu sono pontual. Duzentos mosquitos me mordem e esse sorriso. Mão nenhuma apara nem coça. Ouço a mesma música repetidamente toda suja de love e de vinho. Vem aquela parte. Vem aquela parte. Ressignificar é gostar de novo. Preste alguma atenção, senão eu perco a cedilha, eu voo. Quando eu acordar amanhã vou me cansar de novo. Mas vai passar assim como um retrato em branco e preto. You have blood on your face. I have blood in my eyes. Let’s fall in love.

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O elefante infinito

Postado em 25 de abril de 2013

Ela tocou o ombro dele e pediu a xícara para pôr café. Não era possível acessar nenhuma das duas coisas. Ela olhou para o outro lado e também a moça morena, de onde estava, não alcançava, nem via. Do outro lado, um homem assoviava na rua, na chuva, na fazenda. Episódios lancinantes do final da década de 1990 atiraram balas de efeito moral contra as costas da mulher. Os 30 são realmente uma boa época da vida. Olhou para frente, tudo era aquele elefante pardo. E quando você me envolver nos seus braços serenos, eu vou me render. Mas seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol. Outra canção. Na sala, todos cantam em silencio uma música diferente. Quatro delas são de Chico. Um uníssono: Vai passar. Até que alguém errou a letra.

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Bolo de rolo, escada em caracol e flash

Postado em 13 de março de 2013

Congelei um sorriso seu agora que você virou flor. Quando eu não te conhecia, você já era. E brilhava. Mas eu só olhava como quem olha um mito. É tanto brilho que não dá para ver muita coisa além do brilho. Eu conheci um pouquinho só além disso. E foi o bastante para chorar algumas vezes e refazer o dia ao redor do meu quarteirão. Meu corpo aponta em labirinto para dentro e eu caramujo reta e ontem nesse dia blue.

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