Arquivo da tag: Dedicado a você

O livro dos prazeres

Postado em 18 de novembro de 2012

Tiro no pé, gota d’água, um peso e duas medidas, venha a nós e ao vosso reino nada, murro em ponta de faca, soldado morto, farda noutro, farinha pouca, meu pirão primeiro, muito barulho por nada. Águas passadas não movem moinho. Oração: Não quero bater, nem furar coisa alguma a mais. Do mundo, as voltas.

Compartilhe:

Doze

Postado em 12 de outubro de 2012

Retrato não digitalizado: Eu, minha mãe e minha tia esparramadas na cama de casal. Todo o dengo da minha infância de filha única. Daquela foto, só resta a cômoda da minha avó, que não estava na foto, mas estava. Até hoje é assim e depois do almoço sempre pode acontecer de novo. Esparramadas, eu e as três grandes mulheres da minha vida.

Compartilhe:

Para Joana Paula, que nunca existiu

Postado em 13 de setembro de 2012

Eu perdi o meu espanto. Lembrei de quando meu pai me deixou fingir que dirigia o chevette. Meu pé não alcançava os pedais, mas no colo dele, eu dirigia. Essa não era a regra dos meus dias, ele não era. Talvez por isso eu tenha saudade de muitas exceções. Ando cansada de muitas pessoas. Não com aquele olhar fatigado de quem tem certeza de que carrega o mundo nas costas e só recebe ingratidão. Meu cansaço é uma leve desvontade de lidar com problemas que já conheço. Tem uma leve pitada de desconfiança de que algumas pessoas não estão interessadas em mudar. O que pode soar arrogante e talvez seja mesmo, qual o termômetro? De todo modo, prefiro carregar água na peneira do que o mundo nas costas. É a vaidade que consinto. Não vou atribuir nada disso a nenhum personagem. Nem a mim. No fim das contas, ninguém sai vivo daqui, mas vamos com calma. O que não é regra vira lembrança. E aquele espanto nunca foi meu.

Compartilhe:

Dueto Solaz

Postado em 30 de agosto de 2012

Esse vinho aberto para mim mesma. Aquela pequena garrafa de champagne. Uma comida para comer sozinha celebrando a casa que deixei voar com os balões de gás. Deixamos, deixei. Um vestido verde, acompanha bolsa vermelha e enfeite amarelo no cabelo. Vou sem salto, sem peruca. Vou careca. Vou com Nara e Chico na cabeça. Espera, amor. Estou chegando.

Compartilhe:

What if i have never met you?

Postado em 25 de agosto de 2012

Essa pergunta fez Carrie e fez Alan. Faço eu também. Eu conheci vocês antes mesmo de determinar o que eu queria ser quando crescesse. Se eu não tivesse conhecido vocês, então, eu seria menor. Também foi por ali, que, com vocês, eu aprendi a ver beleza na desconfiança e na descrença, aquelas histórias que nos faziam rir e aquele tom que amávamos fazer em cena, então, se eu não tivesse conhecido vocês, eu nunca picharia, com prazer, o meu mundo cor de rosa. Antes de conhecer vocês, amizade tinha uma porção de outros sentidos bonitos, mas, depois da tanta história, doce e amargo bem batido, sei que, sem ter conhecido vocês, eu nunca experimentaria o amor como construímos. Cada história é lindamente singular, mas a nossa é mais bonita que a de Robinson Crusoé. É… Antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.

Compartilhe:

Temos muito ainda por fazer

Postado em 25 de agosto de 2012

Hoje mais tarde, meus amores, apenas começamos. Revi e revi agora a cena final de “Thelma e Louise”, que também é nossa agora, e, com todo o coração, pensei que podíamos dizer esse até breve mais tarde, proclamando uma morte suspensa, esse quadro final em pausa que determina o que vai acontecer, mas isso é diferente na imaginação de cada um, e que eterniza uma das histórias de amizade mais bonitas que já vi, e que também é a nossa, essa amizade cheia de amor. Vocês comigo em todas as cambalhotas! Declaro, pública e escancaradamente, minha admiração e gratidão pelo nosso tempo juntos (é sempre mais fácil) e por todos os tempos que ainda nos começarão!

Compartilhe:

Brilho Eterno III

Postado em 23 de agosto de 2012

E no meio do espetáculo, lembrei da mensagem carinhosa, da surpresa no camarim, dos intensos dias de criação, e pensei tanto no meu jardim de bem-cuidados, que de lá do Rio de Janeiro, o gato que brincava com o fio da pipa, de arroubo, sapateou “Because” como se fosse uma rocha.

Compartilhe:

Brilho Eterno II

Postado em 23 de agosto de 2012

A pipa foi preparada a seis mãos. Media muito, pesava muito e era muito colorida. Diversos tons de laranja. Uma das coisas atípicas da pipa era estar presa a um palco de teatro. Do palco, a linha enlaçava um refletor e saía pela janela até o Rio de Janeiro. Lá, o fio da pipa dava três voltas no Cristo Redentor. Depois, podia-se acompanhar o fio atravessando avenidas e tomando cafezinhos em padarias. Quem seguiu o fio até o fim, reparou que ele estacionou na  grade de uma janela de um apartamento de um prédio no Jardim Botânico. Do lado de dentro, o bichano tenta alcançar a pipa e um moço jovem, o moço bonito, toma café preto, em frente ao computador, e alcança a pipa com o coração e os olhos rasos d’água.

Compartilhe:

Brilho Eterno I

Postado em 23 de agosto de 2012

– Tá. Pode abrir.

– Tá bom assim?

– Não. Tá doendo.

– É normal. Dói um pouco. Depois sara.

– Mesmo se tirar a peteca?

– Não é peteca, é casquinha.

– Mesmo se tirar a casquinha?

– Se botar tempo, sara.

– Tá.

– E então? Posso ir?

– Entre.

E ele entrou, cozinhou as casquinhas, jogou peteca com cada um e com todos, montou uma sala de espelhos bem no meio do merthiolate, fez o vento passar pelas cortinas e pelos narizes, e, no fim, a casa respirava um cheiro bom de comida quente e bolo de chocolate, todos estão dançando até hoje e, conosco, a peteca, que não para de cruzar o céu.

Compartilhe:

Tome isto ao coração

Postado em 14 de agosto de 2012

Antes de começar, eu já quero chorar e passar tempo abraçando cada um. Já está claro esse nosso começo de outras várias coisas. Então, porque a dorzinha? Medo não é mesmo. Quando olhamos para frente, vemos as flores. E o olho alcança as fornadas de perto e de longe, sentindo cheiro que antecipa gosto. O nome é saudade mesmo. É ela que aperta o  juízo, faz chorar de lembrança, no meio das atividades burocráticas, tomando banho de sais de pêssego ou subindo as escadas do teatro para ensaiar. Eu sei que sempre teremos Tara, que posso ligar e agendar o sorvete, que vocês estarão presentes e chorosos no nascimento de todos os meus filhos, como estiveram comigo em todas as minhas grandes ocasiões, em mais de catorze anos, mas, e isso eu escrevo embargada e aguda, só os cachorros me ouvem, um palco para mim só é completamente casa, se eu estiver nele, pulsante e de mãos dadas, junto (sim, mais fácil) com vocês.

Com amor,

Poca.

Compartilhe: