Arquivo da tag: Dona Lourdes

Nosso amor matinal

Postado em 10 de junho de 2014

Missa no café da manhã na televisão, com minha avó.

– Voinha tá esperando Cristo ressuscitar há noventa e três anos.
– Da outra vez ele foi crucificado, agora iam cortar ele todo miudinho. 
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O azul dela

Postado em 3 de agosto de 2013

Às vezes ela acorda para dentro, mas sempre que me vê abre um sorriso. Esses dias ela pegou uma gripe que diminuiu a barriguinha e tudo. Ver minha vó mais murcha sempre me deixa com vontade de chorar. Se eu pudesse imobilizava o tempo com ela. É uma parte muito dolorosa essa de saber que nada dura para sempre. Ela está bem e hoje vimos Cauby juntas, quando ela me chamou para tomar café com ela. Minha vó sempre dispara alguma coisa que eu acho linda. E acho porque em seguida ela ri com som e quase nenhum dente. Os extremos da vida me encantam e entre minha vó e meu começo temos um mundo. Quando um amigo meu terminou um relacionamento e pediu colo, ela me perguntou se ele ainda estava com aquele rapaz. Eu lembro disso e fico emocionada. Sei que o que ela não entende mas respeita porque vê amor, a mim e ao amigo, é a coisa mais bonita que eu aprendo nos silêncios serenos dela.

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Sete violinistas pelados

Postado em 6 de julho de 2013

– Vó, cadê a banda?

– A bunda?

Aniversário bom é abraçar minha vó de touca no banheiro e celebrar outro ano na companhia dela.

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Chuva barulha bom

Postado em 15 de maio de 2013

Pelo ruído nas plantas, pensei no meu avô Fernando. Esse eu conheci nunca. Vi em foto, calvo, sisudo. Três pessoas de luz me disseram que junto a mim vem um homem bom que é feito ele. No meu pensamento. Vô Fernando virou nome do primeiro bisneto que ele nem sonhou em conhecer. Do lado do meu pai conheci menos ainda, sei por história das irmãs de vó Alice e vô Lídio. Acho que é assim que escreve. Já sou tia-avó e mais que isso não sei se chego a ser. Acho bonito a pessoa ter filho, ter neto. Ver o tempo passando pelas pessoas crescendo. Quando eu nasci, minha vó tinha quase sessenta anos e à medida em que fui crescendo, atravessei com ela a perda de quase todos os que nasceram na época dela. Ela já nem liga. Tem uma boa cabeça a minha avó. Toda branca. Eu tenho certeza de que o nosso encontro, o meu e o da minha avó, é bonito como pedras no espaço antes do planeta nascer, todo infinito. E quando ela sorri, eu amo a gengiva aparente dela; e rio, e acho lindo, ela ali, tão sem dente como os meus recém nascidinhos sobrinhos-netos. Minha vó é meu amor e meu alívio. Um pouso embaixo da minha pele.

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Doze

Postado em 12 de outubro de 2012

Retrato não digitalizado: Eu, minha mãe e minha tia esparramadas na cama de casal. Todo o dengo da minha infância de filha única. Daquela foto, só resta a cômoda da minha avó, que não estava na foto, mas estava. Até hoje é assim e depois do almoço sempre pode acontecer de novo. Esparramadas, eu e as três grandes mulheres da minha vida.

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Aquele azul do céu é que nos engana

Postado em 12 de setembro de 2012

– Vó, quem vai comer tanto arroz?

– Tava congelado, tem que descongelar.

– Por que não botou no microondas, vó?

– Não. No fogo é mais rápido.

Esse tempo dela, de gostar de esquentar tudo no fogo, me faz achar bonito o arroz que, sem enxergar direito, ela vai jogando no chão, como quem espalha os anos e os limites da idade, tudo pacientemente, no temperamento que ela foi aprendendo a ter. Ser mais velho como ser criança não é nunca uma coisa só. E é isso que me encanta no tempo.

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Café da manhã

Postado em 12 de setembro de 2012

O padre contava que uma vez Maria e José perderam Jesus, retornando de uma viagem. Eu nem sei que lição Jesus ensinou a seus pais quando eles o encontraram em desespero. Mas minha avó em gargalhada aberta exclamou na sala: Jesus era teimoso! E ficou sendo.

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As janelinhas da minha avó

Postado em 12 de setembro de 2012

Criança de dente mole aproveita qualquer desculpa pra remexer o danado com a língua. Dona Maria dizia que tirava dente de criança amarrando uma corda do dente até a maçaneta de uma porta. Era bater a porta e o dente saía. Todas as minhas janelinhas foram recebidas como diversão pelos parentes. Cadê a janelinha? Aqui ó. Minha avó, que quase não tem mais dente, padece do contrário. Próteses, sorrisos no copinho, soluções mirabolantes para não enfrentar o inevitável. O tempo passa, o corpo sente, muda. Se o dente ameaça cair, tira o dente para não engolir e engasgar. Mas e a mastigação? E o comprometimento do sorriso dentado? Depois dos noventa anos, o incômodo da prótese não compensa uma comida molinha que se possa comer saboreando sem pressa e sem aços. Ainda mais com o apetite manso e voraz da minha avó. Hoje de manhã ela me mostrou tão contente o sorriso banguela, dizendo, ói, só tem pouquinho agora, mas esse aqui faz é coisa. É no meio da gargalhada que damos juntas que eu, de olhar já fico lacrimosa, da beleza que é a risada-liberdade da minha avó.

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A renda da cabaça

Postado em 18 de julho de 2012

Estou dirigindo. Minha avó vai ao meu lado, no banco da frente. No quinto buraco em que caímos, ela me diz, essa cidade está precisando asfaltar toda. E eu nunca vou saber reproduzir aquela doçura.

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Lindeza

Postado em 17 de novembro de 2011

– Vó, e a unha?

– Vai tirar.

– E a senhora tá com medo?

– Eu não. Eu nunca tive medo de nada. Nem de boi.

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