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Dedo de moça

Postado em 23 de abril de 2013

Sempre gostei de pôr o dedinho lá, como quem fura um bolo. Depois lambia a calda doce, dedo por dedo. Então, era a vez de Maria Cecília. Ela é a minha sombra. Tenho pânico de ficar sozinha. E Maria Cecília não me deixa ir a canto algum sozinha. Quando eu era mocinha, gostava de passar tônico capilar na careca do meu tio, irmão da minha mãe, casado com a Tia Ruth. Ia espalhando o líquido inconsistente e fazendo voltas circulares, lentas e precisas, que lembravam a movimentação dos meus dedos dentro do bolo. Depois sentava no colinho dele para receber todo o agradecimento rígido que ele tentava, a custo, não me fazer perceber. Mas ele me apertava forte, dizendo que era aquela a intensidade do seu amor de tio, e eu adorava o tamanho daquele afeto. Quando já havia aquecido o suficiente o forro da minha saia, eu saía espevitada, dizia que ia brincar com a minha sombra. Ele cruzava as pernas, gemia, dava uma desculpa, ia para o banheiro. Era a vez da minha sombra. Maria Cecília abria, como que sem querer, a porta do banheiro, e lá estava meu tio, vivendo aquele domingo na frente do espelho. “Você gosta de se olhar fazendo isso?”, Maria Cecília pensava. Depois passava lenta, ignorando a presença do titio, deixava a toalha cair e tomava banho, como se fosse natural ficar nua na frente de parentes. Dizia: “Nada mais inocente do que o sangue”. Titio, intumescido, gravava cada linha do corpo de Maria Cecília, para poder imaginar no quarto com Tia Ruth. Cada domingo era aguardado com ansiedade por nós duas, já acostumadas à firmeza do colo do titio. Até o dia em que Maria Cecília me propôs o trato. Pela idéia de sombra dela nós deveríamos eliminar a única coisa que se interpunha entre nós três: a Tia Ruth. “Mamãe, não vai nem perceber, sua boba”, ela me dizia. “Tia Ruth é só a cunhada dela, velha e feia”. Como ela era mesmo uma velha feia, e havia, uma vez, me botado de castigo ajoelhada no milho por três horas inteiras, para “marcar minhas belas pernas”, eu achei que estava muito certo matá-la. Planejamos tudo para o domingo seguinte. Maria Cecília colocaria veneno em uma das xícaras de café, depois do almoço, na xícara exata, a de bolinhas brancas no fundo azul. O titio ia ficar tão feliz, mal podíamos esperar para ver sua careca brilhando, cada vez mais limpa, cheia de tônico capilar. Acontece que o titio inventou de tomar banho antes do almoço, coisa que nunca fazia. E morreu eletrocutado, com uma mão na torneira e a outra mão no pau, cena deplorável. Tia Ruth chorava lágrimas largas e sem consolo. Falei para Maria Cecília, “Tia Ruth está sozinha agora”. Como mamãe havia saído para providenciar o enterro de titio, Maria Cecília foi até a cozinha e preparou um chá para acalmar Tia Ruth. O certo era café, mas não era bom excitar uma pessoa num momento como este. Minha sombra trouxe uma bandeja com um bolinho pequeno de chocolate e a xícara de bolinhas brancas no fundo azul e disse, “mexe”. Enfiei o dedinho até o fundo do chá e mexi em voltas circulares, rápidas e precisas. Maria Cecília deu o chá a Tia Ruth, enquanto eu metia o dedo inteiro no bolinho para atenuar a quentura do chá. Tia Ruth morreu sentindo dor, coitada! Enquanto eu lambia o dedo doce. Mas foi para o seu próprio bem. Nós a privamos do meu pânico mais íntimo. Eu e Maria Cecília, que não me deixa ir a canto algum sozinha.

 (Texto criado para o espetáculo Batata!, inspirado no universo de Nelson Rodrigues, do Grupo Dimenti/2008)

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Primeira lição de japonês

Postado em 3 de agosto de 2012

Meu pai e eu tínhamos intimidade com o silêncio. Cozinhamos uma estranha sintonia de ausência, criamos costume de falta. É um mistério aprender a exata língua das palavras que nunca mais vão ser ditas, porque pai também morre, e o meu morreu primeiro. De um câncer na garganta, por ironia do destino. Eu não choro quando escrevo, conseqüência certa do desenlace.

Meu pai era uma montanha encarnada de silêncios retumbantes, muito embora fosse muito falastrão. Tinha uma mão pesada de contar dinheiro e trabalhar em fábrica. Eu gostava de mexer o meu cuspe dentro do umbigo dele. E mais eu não sabia. Na minha lembrança vêm os elásticos de dinheiro, o chinelo que era o barco dos meus brinquedos de nadar, o relógio que me ficou como herança, o anel, o riso farto e o japonês que ele dizia falar comigo.

Saudade eu não sei se sinto. Não havia tanto tempero no nosso cozinhado. É seco o meu lembrar dele. Mas tem a minha própria falastronice e a rotina do meu humor que me mostram que é dele que eu vim. Estranha comunicação do silêncio. Meu pai vinha de Chevett e falava comigo algo sempre incompreensível e muito bom. Eu respondia, seguindo a mesma lógica. Um dia, depois de setenta e duas ausências, eu disse a ele que não falava mais aquela língua. E até hoje é só disso que eu me arrependo.

(Escrito originalmente em 2009, como texto incidental para o espetáculo A Canoa, de Jacyan Castilho e Cláudio Machado)

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