Arquivo da tag: Palavra no divã

Escorpião

Postado em 29 de junho de 2016

Estudando a resiliência, ardendo em febre, a pontada, a carcaça, esse jeito de quem se importa sem presença, sou do tipo que se magoa fácil, faz beicinho, fala direto, de um cateter a outro, aparentemente tudo errado, anormativa funcional, vejo o trem vindo no fim do túnel em trilhos separados, aquela metáfora, você indo, melancólico e vertical, esse sou eu quando acordo, uma paulada, o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas acesas, olha, acesas, ainda, acesas.

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Três pontinhos

Postado em 4 de janeiro de 2016

Um pensamento que me seguiu, ainda na avaliação das entranhas sobre o ano passado, foi sobre a enorme diferença entre estar a serviço da criação sob encomenda e estar a serviço da criação autoral, aquela do umbigo. Não há conclusão, há desejo de umbigo. Aquele buraco que sempre me leva para a barriga do meu pai, muito embora a minha concha tenha sido sempre materna. Estou no começo de um abismo. Vejo isso sublinhado em dourado, com cola e purpurina. No meio do ano solar, aos 35. Não é só um ano que virou, a cabeça vibra. Cheguei naquele ponto de fêmea independente. Só que, vejo agora, não existe topo da montanha, nem local sagrado o suficiente para assentar e descansar. Vou ali, morrer de querer mais.

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Sobre anteontem

Postado em 2 de janeiro de 2016

Dois mil e quinze foi tão infinito que nem conseguir escrever antes do ano acabar, aqui nesse consultório a céu aberto. Aliás, escrevi pouco de modo geral. Pensando retrospectivamente, cumpri uma lista de coisas imprevistas que aconteceram e me tomaram, sem que eu tenha cavado objetivamente, mas a gente sempre cava, para o bem e para todas as outras coisas.

Perdi dois amigos fisicamente, a mãe das minhas irmãs também se foi. Desliguei o interruptor outra vez, para pessoas, situações, lugares, essa metáfora que ainda segue comigo, não sei ainda se para o bem ou se para todas as outras coisas, mas segue. Não fiz rituais, como no ano passado, fui para a rua, pouco mentalizei, resolvi começar recomeçando e agindo. Pensei em uma nova metodologia de foco, de foca. Estou cumprindo. Só por hoje, mais um dia, tudo isso é bastante sério. Revisitando, para não ser completamente injusta e focada in the dark side of the moon, comecei o ano viajando para Conquista, com Masturbatório, peça de 2014, estreei “O mundo de dentro”, a convite de Mariana Moreno, com texto de Luciana Comin e com as meninas e Leo Villa e Marconi Araponga no elenco; inaugurei o Inspiratório, proposta de Fabiana Pimentel, que encontrou minha total animação, comecei a produzir o projeto Tripa – Trilogia do Patrocínio, a convite de Rafael Rebouças, passei como professora substituta no IHAC/UFBA, pro BI de Artes, e, meses depois, passei como professora efetiva para a cadeira de Design do Espetáculo, no CECULT/UFRB, isso, inacreditavelmente para mim, foi o primeiro semestre.

No segundo, produzi o projeto do livro “Caminho”, de Mariana David, produzi também o show “Vulcanidades”, de Lívia Nery, mudei de casa cruzando a Contorno, Santo Antônio-Canela, estreei “Floresta debaixo do mar”, a convite de Leonel Henckes e Christina kyriazidi, minha primeira direção de peça adulta, processo que me fez conhecer pessoas incríveis; voltei em cartaz com “Parece Bolero”, com nova escritura e novas parcerias, com Gildon Oliveira no texto comigo, Juliana Molla, repeteco na assistência de direção, e os parceiros de sempre, Márcio, René e Estevam; escrevi/colaborei com, seguramente, mais de dez projetos para editais diversos, bem mais, nos quais dois foram aprovados, um de circulação de “Para o menino-bolha”, em parceria com a Giro Produções, outro grande encontro do ano, e, um do Nariz de Cogumelo, cuja peça de celebração de dez anos de grupo irei escrever e dirigir, daqui a pouquinho. Antes do ano se encerrar, finalizei a produção do Tripa, fiz a primeira parte da preparação de elenco da série “A professora de piano”, a convite de Henrique Filho e Edson Bastos e tomei posse na UFRB.

Foi um ano farto de atravessamentos, cavados e conquistados. No fim das contas, dormi pouco, mas cresci muito. No Natal, quando levei minha mãe e minha avó para passar dois dias num hotel fazenda, nossa comemoração a três, pelo aniversário de 94 anos da vó, minha posse no concurso e o fato de estarmos vivas e saudáveis nesse mundo louco e imprevisível, desejei profundamente o luxo do tempo, para elas, para o nada, para mim, o enorme benefício de poder continuar gerindo e decidindo sobre o uso do meu tempo aqui neste planeta. Voltei de viagem e fiz um pão, com minhas mãos e com tempo, tempo de fermento. Esperei muito esse ano, esperei, esperei, aprendi a ter muitas paciências. Ainda estou engatinhando nisso, o trânsito que o diga. Saber esperar é meu grande desafio, selecionando melhor os temperos, as paciências. Para o bem e para todas as outras coisas, com ação e emoção.

Saravá!

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Trinta de novembro desde 2002

Postado em 1 de dezembro de 2015

Passei o dia pensando em frases. Tudo que ia vivendo, com a morte tão próxima, me lembrava uma frase. Como se alguma sentença fosse dar conta das coincidências. Ainda não sabemos quando ela chegará e se chegará mesmo. Mas tem um cheiro. Uma sombra. Alguém que sonhou com a história do fio de prata. Outro que disse: amanhã é o dia em que seu pai morreu. Vai ser amanhã. Amanhã era hoje. E eu estava ali, na escola onde eu estudei a vida inteira, em uma posição que eu nunca imaginei estar, num prédio que não era mais a minha escola. Alguém falou de deformação, de um corpo que já não cabe em si, está imenso. Viver uma vida inteira é algo tão enorme. Uma vida inteira cabe em tantos anos, às vezes em muito poucos. Dirigi olhando para trás, revendo as pegadas, os cheiros. E não sei bem como cheguei até aqui. Nem que horas daqui eu parto. Agora nada faz muito sentido, pois estou borrada e de férias da lucidez. Tem o oco, o eco e não existe outra palavra mais sonora do que vácuo. Abraço o espanto. Amanhã é outro dia de nascer e morrer gente.

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Ventosa

Postado em 26 de maio de 2015

Uma coisa fora do trabalho: carbúnculo. Não ainda. Estou pedindo permissão para soar dramática. É atualíssimo a melancia como pingente. Viver deve ser bem outra coisa. Parece que voltei. Baby, i’m back. Mas não nos dispersemos ainda. Reservo agora um momento de nada, para quando acabar a lista. Vontade de comer sonho.

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Curando

Postado em 21 de maio de 2015

Uma bolinha na altura do coração. Muitas compressas de água quente depois, bolinha ameaça desinchar e volta. Nada visível. Contato com o celular? Aquele coração desejoso de comunicação, é isso? Algum chakra inominado que não aprecia centralização precisa? Um ponto escuro guarda o vulcão. Quando explodir, eu sei, não espocarão coisas prateadas. Anteontem achei que me ia dessa. Coisa que sempre me ocorre, posto que iremos todos algum dia. Drama queen, você diz. Batizada como Jéssica.  A menor mulher do mundo, tivesse uma bolinha com a minha, seria toda ela um imenso coração enfermo-flamejante.

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Rainha de espadas

Postado em 31 de dezembro de 2014

Eu só queria terminar o ano sem poeira. Então, vesti vermelho e ritualizei uma limpeza, com vermelho, verde e laranja. Cheiro bom na casa. Comecei pela sala, os pés no pano sujo, azul, aquela importância que dou ao chão e às suas coisas. Esfreguei os pés no chão como quem deseja firme. Quando estava no céu com meu amigo, ontem, ergui as mãos e pensei, cósmica, que gostaria muito de deixar a preguiça de mim sossegada em outro canto. Como só posso começar pelo texto do meu próprio corpo, única coisa que me carrega, caramuja, eu decidi suar. Expeli os brilhos, as ilusões. Os sonhos não, esses estão comigo, na gaveta do casulo. Fui respirando, entradas e saídas das belezas todas. Para a frente e avante: maior conexão comigo, com o outro, nisso a que chamam universo. Ando onde há espaço. Ação: abrir-espaço-para-receber. Um ano de inspirações nos poros, com amor. Que tem rima. Luz!

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Raia

Postado em 17 de novembro de 2014

É cheiro de alho. Aconteceu mais cedo. Vai passar. Isso tudo que você diz ao vento, como quem fala consigo. As pessoas não são a pessoa. Eu sei, bem oitenta a construção. Ele te diria: não há problema. Diria? Uma projeção bem cuidada de sonho. Agora, sem furacões demasiados, respiro em oito tempos. Limpo a piscina côncava do umbigo. Expando. Muita dificuldade de usar o telefone, em tempos digitais, entretanto. Quero dizer que Agualusa tem me feito bem. E aquele disco. É preciso que o ano não vire da mesma maneira. Movimento, palavra de ordem. Os médicos, as receitas, os remédios. Tudo perto das decisões difíceis. Vou envelhecer em Buenos Aires, mas até lá vou livrando os pulmões como exercício.

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Náusea

Postado em 22 de agosto de 2014

Enjoei de comer. Acordei tonta. Primeiro pensamento: falta de café. Depois me ocorreu que eu gostaria de ser lida por uma girafa. Mas é bicho, não lê e nem faz conta. É fato que eu preciso parar de receber a luz do meu computador ao dormir. Mas é difícil me apartar da ficção. Eu sei, é outra coisa. Mas faz de conta que não. Minha casa nova é uma delícia. Estou refém desse prazer. E da rede. E de intermináveis horas com Agualusa. Eu sei. Eu sei. Faz de conta. Muitas demandas de escrever. Os braços doem. Quero ir embora. Não quero ir embora. E isso aqui não é nada não.

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Meu pai, o sol

Postado em 10 de agosto de 2014

Pensei agora em ouvir uma música que produzisse alegria. Jorge Ben Jor, quase sempre. Bem era como algumas pessoas chamavam o meu pai. Bem ou Bau. Depende da facção. Os dias dos pais dos últimos doze anos são assim. Em verdade, os meus dias dos pais sempre foram assim. Vou me lembrando um pouco melhor dele, enquanto leio as manifestações calorosas de outras pessoas sobre seus pais, vivos ou mortos, tendo sido eles pais presentes ou não, em vida. Sempre lamento, com certa estranheza, que minha referência paterna principal tenha sido mesmo a minha mãe e a minha avó. Elas são incríveis,  mas, já não posso negar, isso criou lacunas já perdoadas e descrenças insuperáveis. E me formou. Peguei o mundo em plena mudança de paradigmas familiares. São trinta e quatro anos apreciando todas elas. Filha de mãe solteira era um estigma na década de oitenta, tão veementemente presente em mim como a ausência de meu pai. Assim como filha bastarda, outro assombro. Eu fui um pouco das duas coisas. O que mudou de lá para cá foi o espelho, que diariamente altera a maneira como me vejo. Minto. Eu mesma altero a maneira como me vejo no espelho, para o bem, para o mal e para o meio das coisas, que é sempre mais interessante. O que mudou também foi a minha maneira de me relacionar com tudo o que me veio, com alegria, da parte de meu pai, durante e depois que ele morreu. Estabelecer vínculos de confiança, amizade e cumplicidade, enfrentando um histórico difícil e a minha pouca idade/experiência de vida, quando as histórias todas foram escritas. Coisas são irrecuperáveis e coisas podem ser construídas, a partir de demolições macias. Os nomes, como o tempo, vão me ensinando. Escrevo com certa sobriedade, de um eu em recuperação. E só noto como ainda importa, em momentos em que um novo pai se apresenta. E as figuras maternas e paternas são de cruze eterno na vida de muitos. Meu pai escolheu a parte ventania da alegria. Não sei muito disso, mas, já me disseram, que ele era de Omolú e que havia assentado Iansã. Me sinto acolhida pelos dois, no abraço de Carlos. Ele passando de branco naquela rua escura. Aquele dia nos búzios. Meu processo de auto-conhecimento e aproximação com as energias que eram do meu pai. Com tudo o que eu, tão racional, não posso compreender completamente. Depois de tanto tempo não sendo filha de um pai, preciso respeitar esses buracos e as minhas lágrimas, muito emocionadas, ao abraçar Carlos, me recebendo como filha de Xangô.    

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