Arquivo da tag: Palavra no divã

Rainha de Copas

Postado em 1 de outubro de 2013

Um antídoto qualquer para a dureza. Os arquivos sobre a mesa, alguma indisposição para alegrias. Acordou alérgica, mal-ajambrada, mas, apesar do pesar, desejando o bem. No meio de tudo que vai bem, obrigada, pensa, atônita, sobre malas, pesos, penas e flores de parque construído pelo homem. Volta para aquele momento rarefeito, subindo a parte baixa do Aconcagua, cercada de uma beleza controlada mas ainda bruta e de gente desconhecida. Ali, altas montanhas, registrou em foto, o rosto do seu primeiro namorado com grifo. Um fantasma, uma sobra esquisita num momento como aquele. Ato falho, baby, sombra. No meio de um frio incalculável, tendo enfrentado provavelmente a maior altura de sua vida, cercada de histórias longas que não eram dela, mas que atravessavam seu caminho naquele momento, para passar, era bom saber que ela tinha para onde voltar e que ao mesmo tempo era importante ter ido ver as montanhas perto do alto. Eu não sei por que  estou escrevendo isso. Não é possível saber todos os motivos. Eu até enxergo bem, Maria, mas é difícil separar as coisas e alimentar os rompantes. Um rompante acontece. Não se pode prever o rompante. E eu só quero ser mole, macia, volátil mesmo.

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Como um desabraço

Postado em 31 de agosto de 2013

A menina parada na beira da cerca. A menina parada com a mão no queixo. A menina parada e não via o rio. Não era Nininha, carregava uma trouxa que não era trouxa. Quando falou, minha mãe, eu vou embora, a mãe disse: se tiver que voltar, volte. Estou me afogando, pensei. Mãe, acordei assustada com a alma fora do corpo.

– Se você respirar três vezes eu volto e você se acalma.

– Como?

– Encontre uma muleta qualquer.

– Eu desacreditei das coisas profundas.

– Eu sei. Mas eu também sou a sua pele.

Parada na beira do rio e o rio não existe. Não era para narrar, a menina. Foi tanta coisa, mainha. Foi tanta coisa que não sei se paro e descanso no corpo dele ou se sigo pedalando. Botei a marmita na cestinha e as flores, já. Minha mala vira um anel que vira uma ponte. Quando eu acabar isso aqui, vou sentir alívio como depois que se mija. Ou se come. Ou. Me deixe, mãe. Hoje vou chorar até mais tarde. E não ficar bonita. Um dia de férias, sem cultivo de nada. Então, eu li na carta dele algo como ter cuidado com gente que te desvitaliza. E pensei: mas eu rio tanto. Estou tonta de azul e de coisas. Foi o susto no quarto do hotel, acordar e não ter ninguém, porque sempre tem e nunca tem, é assim que somos feitos.

Estou parada, baby, com a mão no queixo, cheia de vermelho espanto, chove tanto, aquele colibri molhado, desenho um círculo quente e apenas sento e desmancho.

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“Palavras como se elas fossem mãos”

Postado em 18 de agosto de 2013

Em meio à concentração dispersa das palavras de hoje, pensei sobre algumas novas metas pessoais e, sempre, políticas. Minimizar os ímpetos de poder e as vontades de verdade. A culpa não é do outro. A culpa nem existe. Talvez o outro também. Até os santos de barro que eu admiro são santos de barro. Que eu admiro. Alter ego é uma ideia que pode ser bonita, um outro de mim que sou eu mesma. Mas, atenção, não há vozes outside your head, Mark. No meu agora: sempre lembrar que não existe uma única história. Mesmo que doa. Eu apenas não exerço aquilo com que não concordo, mas eu não alimento desprezo por conta disso. Não sustento mais relações oportunistas, nem de um lado nem dos outros. Eu não preciso me relacionar com todo mundo, tampouco ser amada por essa generalização abstrata. Vaidades são lugares perigosos de poder. Na minha terceira margem do rio só existirá a calma que eu li no livro e a amizade, que é um tipo de amor. Nenhuma menção a vampiros. O troco já está dado. O troco nem existe. Falo para me ouvir melhor, à ação. Não existem assuntos melhores e piores. Oposições binárias aniquilam lindas complexidades. Você não me diz o quê, você ouve se quiser. Tudo ideia. O amor, a melhor e mais bonita. O amor é todas as margens, sem centro, sem hiato, amor.

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New mistakes only

Postado em 13 de agosto de 2013

Entrei rastreando o fim. Ele veio. Entrei desenhando futuros certos. Corte brusco. Nos dois casos eu não saí antes do barco afundar, fui saindo ao mesmo tempo em que ele afundava, saindo e vendo durante, todo o movimento do fim. Pro futuro: cortar pela raiz os medos das ervas mais fundas. Quando acaba, acaba. Mas escute os sinais. Respire o tempo. Ouça o que é intuitivo e só de sozinho. Se é trapézio, não evite a queda. Mas sinta e pense. Naquele sal de rio a perder de vista. Algumas coisas são apenas infinitas. Mas isso é dentro. Assente nova carapuça e dance. De certas bebidas, você prefere o doce. Com gelo, por favor.

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