Arquivo da tag: Vandalismos do Coração

Temporã (Guinga/MauroAguiar)

Postado em 2 de setembro de 2016

Vou-me embora/ Vou lá fora/ Uso a imaginação/ Quero ver antes da hora/ Minha nova encarnação/ A sabiá/ Ao divagar no andor/ Fez sem querer/ O tempo andar de ré/ És tu no ar/ O meu primeiro amor/ A sabiá me confirmou/ Vem de longe esse querer/Mas um guará/ Só pra desmerecer/ A sabiá e seu bom coração/ Fez disparar/ O tempo e o pé do ipê/ Ficou sem flor/ Pro bem-me-quer/ Você nem saiu do grão, hein?/ Quer a fábula burlar/ Fui-me embora a contrafeito/ Não aceito a solidão/ Faço agora do meu jeito/ Minha nova encarnação/ Será um sol de não se por/ E a sabiá, meu derradeiro amor/ De par em par/ O que me apetecer/ Irá se dar até porque/ Sei que eu nem saí do grão/ Mas eu fiz por merecer/ Vou-me embora sei que agora/ Já se vive de antemão/ Quem quiser que conte outra/ Uma outra dimensão

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Três pontinhos

Postado em 4 de janeiro de 2016

Um pensamento que me seguiu, ainda na avaliação das entranhas sobre o ano passado, foi sobre a enorme diferença entre estar a serviço da criação sob encomenda e estar a serviço da criação autoral, aquela do umbigo. Não há conclusão, há desejo de umbigo. Aquele buraco que sempre me leva para a barriga do meu pai, muito embora a minha concha tenha sido sempre materna. Estou no começo de um abismo. Vejo isso sublinhado em dourado, com cola e purpurina. No meio do ano solar, aos 35. Não é só um ano que virou, a cabeça vibra. Cheguei naquele ponto de fêmea independente. Só que, vejo agora, não existe topo da montanha, nem local sagrado o suficiente para assentar e descansar. Vou ali, morrer de querer mais.

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Sobre anteontem

Postado em 2 de janeiro de 2016

Dois mil e quinze foi tão infinito que nem conseguir escrever antes do ano acabar, aqui nesse consultório a céu aberto. Aliás, escrevi pouco de modo geral. Pensando retrospectivamente, cumpri uma lista de coisas imprevistas que aconteceram e me tomaram, sem que eu tenha cavado objetivamente, mas a gente sempre cava, para o bem e para todas as outras coisas.

Perdi dois amigos fisicamente, a mãe das minhas irmãs também se foi. Desliguei o interruptor outra vez, para pessoas, situações, lugares, essa metáfora que ainda segue comigo, não sei ainda se para o bem ou se para todas as outras coisas, mas segue. Não fiz rituais, como no ano passado, fui para a rua, pouco mentalizei, resolvi começar recomeçando e agindo. Pensei em uma nova metodologia de foco, de foca. Estou cumprindo. Só por hoje, mais um dia, tudo isso é bastante sério. Revisitando, para não ser completamente injusta e focada in the dark side of the moon, comecei o ano viajando para Conquista, com Masturbatório, peça de 2014, estreei “O mundo de dentro”, a convite de Mariana Moreno, com texto de Luciana Comin e com as meninas e Leo Villa e Marconi Araponga no elenco; inaugurei o Inspiratório, proposta de Fabiana Pimentel, que encontrou minha total animação, comecei a produzir o projeto Tripa – Trilogia do Patrocínio, a convite de Rafael Rebouças, passei como professora substituta no IHAC/UFBA, pro BI de Artes, e, meses depois, passei como professora efetiva para a cadeira de Design do Espetáculo, no CECULT/UFRB, isso, inacreditavelmente para mim, foi o primeiro semestre.

No segundo, produzi o projeto do livro “Caminho”, de Mariana David, produzi também o show “Vulcanidades”, de Lívia Nery, mudei de casa cruzando a Contorno, Santo Antônio-Canela, estreei “Floresta debaixo do mar”, a convite de Leonel Henckes e Christina kyriazidi, minha primeira direção de peça adulta, processo que me fez conhecer pessoas incríveis; voltei em cartaz com “Parece Bolero”, com nova escritura e novas parcerias, com Gildon Oliveira no texto comigo, Juliana Molla, repeteco na assistência de direção, e os parceiros de sempre, Márcio, René e Estevam; escrevi/colaborei com, seguramente, mais de dez projetos para editais diversos, bem mais, nos quais dois foram aprovados, um de circulação de “Para o menino-bolha”, em parceria com a Giro Produções, outro grande encontro do ano, e, um do Nariz de Cogumelo, cuja peça de celebração de dez anos de grupo irei escrever e dirigir, daqui a pouquinho. Antes do ano se encerrar, finalizei a produção do Tripa, fiz a primeira parte da preparação de elenco da série “A professora de piano”, a convite de Henrique Filho e Edson Bastos e tomei posse na UFRB.

Foi um ano farto de atravessamentos, cavados e conquistados. No fim das contas, dormi pouco, mas cresci muito. No Natal, quando levei minha mãe e minha avó para passar dois dias num hotel fazenda, nossa comemoração a três, pelo aniversário de 94 anos da vó, minha posse no concurso e o fato de estarmos vivas e saudáveis nesse mundo louco e imprevisível, desejei profundamente o luxo do tempo, para elas, para o nada, para mim, o enorme benefício de poder continuar gerindo e decidindo sobre o uso do meu tempo aqui neste planeta. Voltei de viagem e fiz um pão, com minhas mãos e com tempo, tempo de fermento. Esperei muito esse ano, esperei, esperei, aprendi a ter muitas paciências. Ainda estou engatinhando nisso, o trânsito que o diga. Saber esperar é meu grande desafio, selecionando melhor os temperos, as paciências. Para o bem e para todas as outras coisas, com ação e emoção.

Saravá!

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Dona Juju

Postado em 1 de dezembro de 2015

E ela foi enterrada no mesmo dia em que meu pai. Será. Treze anos depois.

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O vulcão

Postado em 24 de agosto de 2015

Daqui de baixo, de onde ainda não posso escalar, vejo a neblina que não é fumaça, um sinal de lava, daquele calorzinho lá de dentro, altos índices de poluição natural, dizem, mas não para mim, que antecipo a carta que encerrará tudo, vejo três letras desenhadas pelo efeito do fogo, não são suas, são minhas, e piscam, de onde estou, sentada, fazendo leitura, a fumaça acima da sua cabeça tem som e tem rima, e não é neblina, uma garrafa foi aberta, vou ajeitar a alça do vestido e as taças, para a demora.

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Curando

Postado em 21 de maio de 2015

Uma bolinha na altura do coração. Muitas compressas de água quente depois, bolinha ameaça desinchar e volta. Nada visível. Contato com o celular? Aquele coração desejoso de comunicação, é isso? Algum chakra inominado que não aprecia centralização precisa? Um ponto escuro guarda o vulcão. Quando explodir, eu sei, não espocarão coisas prateadas. Anteontem achei que me ia dessa. Coisa que sempre me ocorre, posto que iremos todos algum dia. Drama queen, você diz. Batizada como Jéssica.  A menor mulher do mundo, tivesse uma bolinha com a minha, seria toda ela um imenso coração enfermo-flamejante.

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Rainha de espadas

Postado em 31 de dezembro de 2014

Eu só queria terminar o ano sem poeira. Então, vesti vermelho e ritualizei uma limpeza, com vermelho, verde e laranja. Cheiro bom na casa. Comecei pela sala, os pés no pano sujo, azul, aquela importância que dou ao chão e às suas coisas. Esfreguei os pés no chão como quem deseja firme. Quando estava no céu com meu amigo, ontem, ergui as mãos e pensei, cósmica, que gostaria muito de deixar a preguiça de mim sossegada em outro canto. Como só posso começar pelo texto do meu próprio corpo, única coisa que me carrega, caramuja, eu decidi suar. Expeli os brilhos, as ilusões. Os sonhos não, esses estão comigo, na gaveta do casulo. Fui respirando, entradas e saídas das belezas todas. Para a frente e avante: maior conexão comigo, com o outro, nisso a que chamam universo. Ando onde há espaço. Ação: abrir-espaço-para-receber. Um ano de inspirações nos poros, com amor. Que tem rima. Luz!

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Tomando corpo

Postado em 12 de junho de 2014

Inventei um interlocutor teórico com quem divago sobre as imensas tarefas que tenho a cumprir e o tempo que eu deixo escapar quando sinto ou não sinto sono. Hoje acordei de oito horas raramente dormidas e só senti mais sono. Xangô mandou avisar que não dormir não é boa opção para mim. Mas tem a luz do computador e a vontade de postergar. Penso no troco, penso na fala das duas mulheres que atravessaram meu caminho essa semana e na falta de disposição para sair minimamente do conforto de certos sensos comuns, penso na girafa, nos personagens que daqui a pouco vou matar, nos que penso em dar vida, nas contas, nas metas, nas cidades, nas pessoas, nele, em ideias, em projetos e sinto muita preguiça de cavar. Tenho andado muito escavadora. Acho importante rédea e fio da meada. Mas não máquina. Levei dois dias desfazendo a mala como quem não quer encerrar a viagem. Um mês e meio e um cataclismo, essa palavra linda que revela o temporal. A pergunta principal de qualquer plano deveria sempre começar com: e como se comportará o seu corpo nisso?

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Saravá

Postado em 10 de junho de 2014

Nos poros, você sentado na veia. Meu sangue trêmulo. Muitas bobagens. Fiz bobice, os dois. Isso lá em cima que eu vejo muda radicalmente o meu jeito de caminhar na rua. Se os pés avoam, os pés avoam. Vou ficar quietinha terminando as coisas. O cozimento do preparado. Me dá um tempinho. Vou ajeitar o travesseiro. Hoje tem gosto de broa. E amanhã ninguém sabe o que será. Vejo o cheiro do espelho, as esmolas todas. E aquele vento. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

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I don’t need to knock on wood

Postado em 2 de junho de 2014

Sofro de foca, meu bem. Mais de mês fora de casa. O pó do café em um lugar sempre novo. Eu, que já guardei livros por ordem de preferência. Escutei bem muito tudo o que você me disse. E resolvi acreditar. Mas, resolvi acreditar. Eu não vou reto. E as adversativas são pura curva extenuante-excitante. Venci todos os colchões, as toalhas e os banheiros todos. Faço mala em tempo recorde. Pelo cheiro já sinto se vou ou até onde. Isso tudo até entrar no carro. E ter uma impressão. Nas cartas o nome é intuição. Homem de casaco e imperfeito. And yes, this feels so good.

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