Arquivo da tag: Vandalismos do Coração

Raimundo

Postado em 22 de maio de 2014

Enquanto caminho para a morte, como todos, atravesso pessoas e paisagens. Há momentos em que só passo. Ando inquieta com o futuro, como quando, adolescente, usava a metáfora do livro no alto da estante para dizer que a felicidade é um monstro desconhecido e imponderável. Era difícil para aquela pessoa que eu era encontrar felicidade no presente. Então, adiava. Não que eu fosse triste. Era só que eu achava que felicidade, felicidade mesmo, felicidade batata, era uma coisa muito grande e não as várias vezes em que eu ri sozinha por algum motivo bobo. Conforme fui aprendendo a ler fui descobrindo e defendendo as muitas cores e tons da alegria. E a principal delas, que hoje estou entre reflexiva e didática, é não se levar a sério e olhar com atenção para isso, como característica de aproximação ou distância. A partir desse recorte dá para pensar um monte de coisas. Hoje vi um vídeo que compila uma série de modelos caindo por conta de seus saltos na passarela. É duro ser bonita autorizada. O riso vem do desacerto de uma matemática calculada para dar certo. Rimos da falha, do desconcerto. E se saí melhor quem não se constrange e ri da desestabilização daquela situação. No meio do fluxo de pensamento, lembrei de demandas por terminar, granas por receber e todo um futuro que tem se apresentado incerto, porque a minha ficção de estabilidade terminou. Então, li pela metade várias notícias da semana e gastei tempo nada fazendo. Pensei: pelo menos aquela adolescente que divagava sobre a felicidade lia mais literatura do que você tem lido. Coice. Perdi um pouco o tempo de ouvir discos inteiros, ler romances ou livros extensos de contos e poesia, e filmes. Isso não tem a ver com assistir longamente narrativas compridas, a fragmentação das séries me mantém cativa. Longas temporadas, com muitos capítulos. Também não é falta de vontade de conviver comigo. Eu aprecio pequenas multidões da mesma maneira que aprecio rir sozinha. Na minha cabeça vem: problemas com a palavra continuidade. Eu sinto desejo de permanecer mas permaneço muito pouco. Insisto mas insisto pouco. E, pior, vou perdendo a crença. Não exatamente a fé. Esse viço da entrada nos doze, já menstruadinha, esse me dá saudade. Mas é saudade metafísica que acha bonito o sol quando aparece atrás dos prédios de São Paulo. Está longe de querer viver lá atrás. Eu lamento cada pessoa que vai e vira fermento e vira flor. Entendo a enigmática hora. Mas lamento a perda da presença nesse mundo, além da falta inevitável da pessoa. O mundo dói e me dói, mas é tão delicioso. Quanto mais eu ando e me deparo com modos muito diferentes de existir, mais me agrada estar presente, aqui e em movimento. Estou tentando me reconstruir de novo e deixar florescer novas verdades, sempre movediças. Falo comigo lá atrás. Falo comigo há pouco tempo. E se estou aqui de passagem, o que significa mesmo estar estável? Penso em perdoar tudo o que anda em desalinho. Vou aprendendo que curva é coisa macia. Até o amor dos bichos eu estou aprendendo: o tempo de afagar um gato, o tempo de afagar um cachorro. Escrevo pois não acontecia há muito tempo. Escrevo porque me cansei dos astros e das religiões e das minhas ficções de futuro. As imprevistas e as que tento diariamente prever por conforto. Quero olhar cuidadosamente, me indignar e amar e ficar quieta. Fazer listas e cumprir listas. É aquilo: viver não é preciso. Vou de barco, com um nome bem engraçado, fazer troça e apreciar a vista. Um amigo meu diz que é tudo nosso. E é mesmo. Vou ali humanizar uma cachorrinha fofa que não é minha, mas com quem divido apartamento temporariamente. Voz de criança e tudo. Hoje a gente fica por aqui.
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Manso

Postado em 29 de março de 2014

Vibe macha e medo de mulher: um hit. Chupo cana e assovio. Diz que sim. Disque não. Trocadilho infame. No divã dos past few days: lembrar de quando os olhos brilham sem medo. Viro caramujo, viro elefante. Sou uma girafa. O que mais te atrai em um homem? Ele não me coloca no meu lugar. Eu não coloco ele no lugar dele. Equilíbrio não tira teima. Tem idílio, tem cabana, tem silêncio. Estou em frente a você e ao seu lado. Atrás também. Amo em círculo. Nota: vulnerável, vulverável, vulnerável, vulverável. Não sou eu, é você. Saudade de curiosidade que não se assusta e se aconchega.    

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Merenda é uma palavra com sabor de infância

Postado em 4 de março de 2014
Na minha escola tinha a “hora da merenda” e a “moça da cantina” trazia sonho e banana real pra comer com refrigerante. Tinha suco também, mas era década de oitenta. Merenda não era tão policiada. Lembro do cheiro que saía da vasilha até hoje. Aquele momento também era pausa e alegria para brincar fora da sala de aula. Naquele tempo eu só corria derrubando coisas e suando a farda do colégio. Tinha também as brincadeiras que gostávamos de repetir. O trepa-trepa (sim, isso mesmo) era o castelo de Ravengar, areia era farinha para bolos incríveis e meia hora contava um infinito.  
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Aquela velha história de um desejo

Postado em 4 de janeiro de 2014

O tempo é de concha. Coisas que a procratisnação e o privilégio dos prazeres imediatos podem fazer por você: condensar o alinhavo de um tratado épico de quatro anos de pesquisa no mês mais quente do ano. Minha pior inimiga sou eu. Credo. E os que me conhecem do avesso dizem: você vai fazer, o problema é que você sabe disso. Tá correto, tá joinha. E sei que não posso prometer para mim mesma que isso nunca mais vai acontecer. Curto mentira não. Paralelo à ansiedade, que hoje nem consegui transformar em metáfora baixa e suja, sigo querendo ir embora e fugindo do medo que isso tem me provocado. Aqui não é. Aqui não tem sido. Vontade de largar tudo e existir apenas virtualmente. Ou como um fractal. O gnomo que vive na veia que leva ao meu dedo mindinho do pé ri de mim toda vez que eu digo vou e será sem aviso. Vou como quem não está indo. Aquele fim de semana enternamente prolongado. Estou em cólicas e a cada espirro perco três filhos. Fora isso, as fantasias paranóicas e pensamentos parasitas. Respiro um mantra para viver de outra maneira. Truth is: I’m a mess. Mas, indo lá fora, em minha ficção dos dias, eu me acho. Isso é um parêntese necessário e sem necessidade. Não quero enlouquecer ainda. Nem aos quarenta e cinco. Ventre aberto ao sono no peito que me amolece. Chico me dizendo: a concha guarda o mar no seu estojo.

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Espirro na antesala da estreia

Postado em 4 de novembro de 2013

Estou embrulhada. Em meio a tantas urgências, o estômago subindo, aprendo a aceitar ajuda. O cerco que eu criei é a coisa mais real que tenho, o de dentro o de fora, os limites todos de aproximação. Tem sido intenso. Tem sido bom. O coração como um balão vermelho de gás que quer sair pra conhecer o vento. Eu ainda quero ir embora. Eu ainda quero chorar e ser escutada. Alguém que não me afaste. E cada vez mais distância de gente que não se importa. Gente de umbigo. Imagem sonâmbula: estou correndo nua, no parque, na varanda, com o estômago nas mãos, pelos campos de trigo que lembram os cabelos do pequeno príncipe, dentro de um avião em chamas, enquanto uma nuvem de glitter e um cheiro de éter me perseguem.

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Nota-tijolo dispersa e comovida sobre desejo desembaçado

Postado em 27 de outubro de 2013

Eu fui pensar em cinema e vivi um momento Clarice. Parei, estupefata, no estacionamento, cenário de fundo burguês. Muitos minutos de silêncio preenchidos por algumas máscaras faciais. Parte desse mergulho eu iniciei há pouco mais de uma semana, parte começou quando eu nasci. Penso sobre estados corporais, pontes com a emoção que preenchem cenas inteiras. É como se meus desejos de escrever viessem já calçados pelos meus desejos de atriz. Mudo o ponto de vista, vejo de fora e de dentro. Recorto os interesses, os campos de centeio, me pergunto e tenho algumas respostas. Outro dia falei: eu gosto de infância e de transformismo e das relações que eu leio entre essas duas gavetas. Vou falar quase sempre disso, falando com a minha pequena traveca que cresce e vive comigo.

Quando eu me ponho em cena, em solo, esses desejos estão no chão junto com outros. Até aqui um inevitável apreço pela queda cega. You jump i jump. Só que estou sozinha no palco. Quando eu tinha grupo e confiava nessa ideia, estar com aquelas pessoas em cena era a casa que eu descrevia incessantemente em verso. Seguro, concentrado, impossível de não funcionar. O que dava certo, eu vejo agora, ia muito além da cena, passava pelo afeto dos nossos corpos juntos fazendo alguma coisa no tempo e dá alegria que borbulhava ao compartilhar isso. Sozinha em cena, pela terceira vez, é outro frio na barriga. E olhe que sei que sozinha em cena nunca se está. Assim como nunca se está completamente acompanhada. Estou com o público, preciso manipular esse público, em alguma medida, a meu serviço, preciso escutar quem está ali, mas antes de tudo, preciso me escutar bem. E volto ao estudo dos estados. No fim, quando não há nada e nem ninguém para se apoiar, resta um estado de concentração, um estudo de presença, algo que reverbere, que se amplie, se projete. Aquela atriz que eu vi no palco anos atrás tragando pela presença, a principal coisa no teatro, aquelas pessoas da plateia. Toda a minha emoção nunca mais repetida porque é sobre isso esse acontecimento também. Minha palavra de sorte é: irradiação. Vira e mexe esqueço essa palavra que busco sempre como corpo.

Estou muito confusa, coração. Muito cheia de ideias. Mais cedo pensei: é surto. Estou surtando. Então, lembrei que isso é Vivien Leigh enchendo o peito de Blanche. Eu não, eu aprendi primeiro a fazer tudo de forma distanciada. E quando se aponta o dedo antes de sentir na carne parece que se funda um terreno um pouco mais protegido. Vem da magia da ironia e do sarcasmo. Só que eu decidi raspar o cabelo e fazer a cabeça. Muitas cabeças. Decidi que quero sentir muito todas as coisas que formarem rede comigo numa opção clara pelo abismo que não nega tudo o que eu aprendi mas avança na certeza de que demorei muito para enxergar com clareza e brilho essa palavra: desejo. É meta honesta, águia, um motor, fica no meio das pontas e avança em proporções diferentes para todos os lados, em diferentes tempos. Um anti-Apolo-Onze que não tinha vontade de nada. Todas as músicas que eu ouvi e os livros. E toda a telenovela que me formou. Heart, eu não costumo negar nada que ficou na carne. E meu corpo é como aquele saco de bolas de programa de televisão. Ganha quem pocar mais bolas mais rápido. Mentira. Ganha quem soltar os balões, a casa e seguir só com o corpo.

Fazendo a defesa do caramujo, meus exercícios diários incluem respirar mais, acumular menos e fazer paradas incríveis, cênicas, demoradas, melodramáticas para prestar atenção em mim e amar isso. Esse corpo é só o que eu tenho, é dele que vem o verso, o projeto, a possibilidade de cena. O disparador disso tudo, eu que quase nunca acho que sou tão explícita, viva a vontade de criar imagem para respirar melhor, foi ter chegado tão perto e, logo, tão longe, de um baú. Talvez a imagem não seja essa e isso não dê conta de nada, esse baú. Esse baú. Esse barril. Queria fazer um trocadilho entre projeto, projétil e o fato de que fui projetada para fora da órbita. Mas vou me contentar com a agudeza do retrato do meu caos visto através da orelha. Acabo de matar três formigas simultâneas. You jump i jump.  Mas não. Eu aprendi a não ter medo me expor em grupo e isso fazia da minha experiência de estar não só em cena mas no mundo uma pisada às vezes até mais firme do que o passo de fato dado.

Faz pouco tempo eu aprendi uma coisa muito bonita com um encontro recente e cheio de amor pela experiência de estar junto compartilhando algo em um tempo: qualidade de vínculo. Isso faz da queda um espaço coletivo possível. Se você vem junto, eu sou essa companhia. Se você não vem, eu não pulo sozinha. Eu refaço a casa, sirvo café fresquinho, abro as janelas, vejo chegar fantasmas, gente colorida e em preto e branco, os erês, aqueles bichinhos da mata, os personagens do coração e danço jogando corações no ar como os balões no vento. É pela possibilidade de novos vínculos que penso cada vez mais em preencher com qualidade o tempo, o meu e o dos outros. Aquela mulher no carro, que sempre sou eu e nunca sou eu, pensou alto: viver é preencher o tempo. Acrescento: e os espaços vazios, agora eu sei. Quando acabar, desafogo. O quê? Uma sardinha.

Depois que a terceira formiga morreu, e isso ela viu do carro, a moça acendeu um cigarro invisível, que fumou inteiro, sem jogar cinza no chão, ensaiou um choro, ainda estupefata com o que vira dentro do baú, repare, ela usa vira, e, de sobressalto, elevou os olhos à esquerda, como quem contempla uma memória vaga de franzir a testa, ao seu lado, um carro simples que em sua cabeça era um mini trio elétrico parou tocando rumba, a música alta não dispersou sua ideias e, em contraste, paralelismo clássico, seguiram conversando, para quem via, em estados de corpos absolutamente distintos. Quando essa onda acabar, ela vai ligar para a amiga, vai precisar ouvir uma voz que faça sentido, a bateria do celular vai acabar, ela vai subir, sem sequer saber como chegou à casa da mãe, vai tomar café, vai dizer olha como fiquei diferente com essa nova cor de cabelo, vai perceber que parte de ficar adulto é saber, sem peso, que nem sempre dormir na casa da mãe resolve, apesar de atenuar algumas angústias, vai voltar ao carro, perceber ao seu lado um carro diferente, bem amarelo, vai dirigir pensando na alta concentração de carros que acumula o Rio Vermelho, até nos domingos à noite, vai chegar em casa, se sentir provisória, se sentir comovida, se sentir mais tranquila, conversar com as coisas sólidas que importam e mover mais uma parede de vento.

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Guia vermelha, guia branca

Postado em 11 de outubro de 2013

Eu, pensando sobre o que você me disse. Eu, pensando sobre o que você não me disse. Eu, pensando. Uma imagem de vento espalha as folhas sobre o cesto. Pausa. Não havia folha alguma. De todos os enredos que eu ainda vou escrever, o que mais me suscita dúvida é aquele não exercitado enredo que diz que eu, e apenas eu, sou responsável pela minha saída do meu próprio corpo. No espaço etéreo onde vivem as perguntas, eu já me dei a conhecer tanto. Só existe aprendizagem, eu sei, mas cansa um pouco, desorienta. Sentei na calçada, esperei o trem passar de longe. Isso não é apenas uma imagem. Lendo o coração da minha mãe, hoje, na cadeira de balanço, eu percebi o quanto de mim é também gaiola. Meu olho furado vê adiante e longe. E eu já não sei se é porque a felicidade está mesmo na prateleira mais alta ou se sou eu que continuo tendo dificuldade de enxergar as coisas de longe. Perdoe, Vicente, esse pequeno desabafo. As metáforas todas que fui germinando depois. Você nem faz ideia, eu virei seu pó na pá. No meio das lembranças todas, lembrei da gente e de sua família que me acolheu. Foi um segundo inteiro desejando que você soubesse de mim, como quem produz filmes para que sejam cartas. Um segundo inteiro e passou. Outras emoções me receberam tão bem e uma emoção concreta de um sonho que acontece é a casa solta no espaço, depois de largar os balões. Ela se move de raiz de vento. Eu vou te amar para sempre não te amando nunca mais e isso é uma coisa muito bonita. Pelo que já foi. Por todos os barcos naufragados que encontraram repouso perto dos guarda-chuvas adormecidos pelo esquecimento, frase puxada de tão imagética, por favor, não sofra tanto, mas é sem sangue, eu sei, toma esse copo, bebe, é só hoje, e isso passa, retome a respiração, isso, suave, já estamos quase no final. A arte de mudar gavetas de lugar e pessoas de gavetas, eu domino.

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Estudando o bolero

Postado em 8 de outubro de 2013

Aos poucos, Perla, a cachorra companheira de Alice, foi desistindo, coração, de querer saber. Sem adivinhação, sem jogo. No mesmo dia, virou a noite batendo pedras contra uma mesa apoiada em quatro pernas. Lasquinê preso, riu sozinha. Já não interessa saber antes, nem depois. Algumas coisas, cachorras nunca saberão. Nem ninguém. Buzina na porta. Alice, focinho empinado, maquiada, fita verde nos cabelos. Logo atrás, sua dona, nunca antes mencionada aqui: Martha Brum. Aproximadamente seis anos aprendendo e inventando um tipo qualquer de escrita. Diz que um dia vira um romance, uma novela, qualquer coisa editada e quente que nunca condensará o processo de expurgação criativa. Aquele drama, mão nos cabelos, passe-me as batatas, você não sabe do que eu sou capaz. Buzina na porta. Martha Brum, cigarro na mão, whisky com guaraná, tudo portátil, não pronunciou palavra. Meneou a cabeça e eu entendi: caminho da padaria, o amor. Deixei que Perla saísse em bolero de três. O amor pode gostar disso. Filha, espero, tabuleiro nas pernas? Não, mãe. Disse a cachorra. Entro e acendo um abajur, cor de carne, é claro. Cheguei perto do coração de Perla para conhecer o amor. Só depois veio o sovaco seguro dele. Isso é uma chama rarefeita e oscilante há anos acesa e que não se apaga nunca. Perdi o apetite, acompanha o movimento de lançar o guardanapo de pano do colo no prato brevemente sujo. Chego longe, meu bem, para poder amar de novo.

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Penteando os cabelos da minha ansiedade

Postado em 7 de outubro de 2013

Naquele dia de febre e compressa de água quente, estar morto era a única condição do meu corpo. O formigamento nas pernas indicava a falta absoluta de movimento. Tanto que se um pássaro ouvisse de longe o ruído do meu sangue na veia e voasse, pena alguma me provocaria cócegas. Dentro seiva muda. Em cima do joelho, esquina de uma dobra com uma veia, duas formigas conversavam serelepes. Falavam sobre uma onda que vinha calma depois de uma onda meio furacão. Da sabedoria das formigas, fica evidente que: uma trilha-objetivo é mais importante que um desejo vago, metas coletivas são mais prazerosas que metas solitárias e, enquanto se caminha, é melhor cantar. No centro da febre, eu escutei a voz mansa e o sossego do tempo. Ele como uma onda. Uma das formigas mordiscou minha pele e eu, ao sentir inflamado o lugar, fiz jorrar, um hidrante vermelho-aberto, todo o sangue meu que era ruim. Nisso, efeito sanguessuga, novos espaços internos foram abertos para a respiração. Um pensamento que adoece a gente é todo barquinho de papel que eu soltei ao vento. Aqueles olhos arregalados do menino na capa do livro, com os barcos. Eu já estou longe e continuo muito perto. Vai chegar o dia em que você vai olhar para o lado e eu não estarei mais lá. Viro fada, viro enguiço, sumo. Estarei dentro daquela outra história. E daquela outra também. Hoje, amor, ardo em febre e descanso. Durante a madrugada vou criar escamas, pele de zebra, oncinha. Ninguém lembrará de nada. Nem as minha formigas. Pausa. Água, pão integral, receita de sono em pílulas. Ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam. Foi assim que eu aprendi duas palavras e é assim que eu ligo os pontos: o-por-tu-ni-da-de. Escrevo para me perder, escrevo para encontrar, que escrever é alegria.

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Mormaço

Postado em 27 de setembro de 2013

Atravessou o extenso corredor, começou com um verbo forte e fraquejou no meio do caminho. Naquele momento em que escutou a respiração ofegante dele. Ia continuar mas precisou não. Oito passos para trás, andamento esquizofrênico. Ele estava ali, com meia bala para fora do peito. Não havia mais nada a fazer. Tentou prece, tentou compressa de água quente, tentou até amor. Metade da bala para fora dizia: Do alto de uma montanha, por cima das pedras, cigarro natural, chá de qualquer coisa, ouça o catavento. O tempo que aquele cantor compôs e que me rega. Uma sensação de metade ou pouco antes do caminho tracejado. E o melhor ainda está por vir. Das coisas que me respiram na vida, tem a música, tem a palavra, tem o dengo que é a soma quando soma.

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