Arquivo da tag: Vandalismos do Coração

Transe

Postado em 23 de setembro de 2013

Acendeu um cigarro pelo drama da vida, fechou a janela mais uma vez, recolheu as vísceras, tomou draminha, tomou, tomou, não houve medicamento que trouxesse reparo, nem mecânico, nem jardim, a noite é tarja preta, quero sair, isso tudo fede a lixo cru, o azedume azul das sextas-feiras obrigatórias, meu corpo nu no cinza, é Débora, é Vinícius, tudo opaco, pensa em uma coisa dura, escapa à primeiras piadas, em sua frente o rosto de Paulo Honório, cinquenta anos, oitenta e nove quilos, muita consideração, assim escreve, assim é, adelante todo aquele futuro bom que virá, mas hoje não, coração, hoje você está explorando aquela energia de fim que semeia metáfora, é cura que virá, mas, antes, o cigarro, a dispersão de um plural mal feito, vamos pensar em parede, em montanha, vamos não esquecer do voo para dentro, vamos aquecer as marmitas, vamos costurar para fora, vamos ser caixeiros viajantes, vamos esperar as estreias, vamos aquecer a sopa, lembrar das coisas mornas e esperar o tempo do feijão estar cozido e bom, é um solfejo, é uma porteira de uma fazenda no sertão, mas ninguém esteve lá, tanta coisa, Madalena, tanta coisa, você nunca vai saber, mas fique suave, amora, fique suave, não abrace o que te traz angústia, não dirija o nariz ao alto, no céu navega uma pipa vermelha, o seu futuro no seu pincel, uma pitada de intuição na mistura do desejo, um fermento, folha de louro, e, veja, nem há mais fumaça, só aquela muda, murga, um galo tecendo a manhã, outros galos, fluxo, viagem, novas cidades, o disco novo de um compositor que já te habita, um novo compositor para conhecer, zero cheiro de vinagre e um coração escancaradamente aberto.

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I now walk into the wild

Postado em 21 de setembro de 2013

Hoje eu conheci um homem com uma dor falando de outras pessoas. Ele me disse que a felicidade só é real quando compartilhada. Isso depois de morrer só antes de morrer. No filme, o excesso de literariedade, músicas-legenda, aquela velha necessidade de justificar grandes decisões com grandes traumas e o apelo à beleza, aquele rosto easy to look at, como se aquele mundo já não fosse o suficiente para me manter lá, into the wild, me deixaram um pouco entediada. Mas, como quase sempre, a presença de bons atores vem e me emociona. É que tem uma hora que excede o truque e os olhos ficam vermelhos de uma emoção sentida naquele momento e que o cinema eterniza como o teatro nunca fará. A emoção no teatro vem do calor do ao vivo e isso muda todo dia e garante que eu continue querendo ver e querendo estar lá, o único lugar que me tem inteira. Todo o resto é minha dispersão consentida. Tem outra coisa muito linda que o filme detona: a paixão incalculável pelos encontros casuais que vão se perder no mundo e dos quais não levamos retratos. Eles todos seguem na pele. Vão escrevendo o que vamos sendo. I’d take you all the way to Alaska but i have an eight o’clock mass. E meu horóscopo diz que é tempo de brilhar.

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Como um desabraço

Postado em 31 de agosto de 2013

A menina parada na beira da cerca. A menina parada com a mão no queixo. A menina parada e não via o rio. Não era Nininha, carregava uma trouxa que não era trouxa. Quando falou, minha mãe, eu vou embora, a mãe disse: se tiver que voltar, volte. Estou me afogando, pensei. Mãe, acordei assustada com a alma fora do corpo.

– Se você respirar três vezes eu volto e você se acalma.

– Como?

– Encontre uma muleta qualquer.

– Eu desacreditei das coisas profundas.

– Eu sei. Mas eu também sou a sua pele.

Parada na beira do rio e o rio não existe. Não era para narrar, a menina. Foi tanta coisa, mainha. Foi tanta coisa que não sei se paro e descanso no corpo dele ou se sigo pedalando. Botei a marmita na cestinha e as flores, já. Minha mala vira um anel que vira uma ponte. Quando eu acabar isso aqui, vou sentir alívio como depois que se mija. Ou se come. Ou. Me deixe, mãe. Hoje vou chorar até mais tarde. E não ficar bonita. Um dia de férias, sem cultivo de nada. Então, eu li na carta dele algo como ter cuidado com gente que te desvitaliza. E pensei: mas eu rio tanto. Estou tonta de azul e de coisas. Foi o susto no quarto do hotel, acordar e não ter ninguém, porque sempre tem e nunca tem, é assim que somos feitos.

Estou parada, baby, com a mão no queixo, cheia de vermelho espanto, chove tanto, aquele colibri molhado, desenho um círculo quente e apenas sento e desmancho.

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“Palavras como se elas fossem mãos”

Postado em 18 de agosto de 2013

Em meio à concentração dispersa das palavras de hoje, pensei sobre algumas novas metas pessoais e, sempre, políticas. Minimizar os ímpetos de poder e as vontades de verdade. A culpa não é do outro. A culpa nem existe. Talvez o outro também. Até os santos de barro que eu admiro são santos de barro. Que eu admiro. Alter ego é uma ideia que pode ser bonita, um outro de mim que sou eu mesma. Mas, atenção, não há vozes outside your head, Mark. No meu agora: sempre lembrar que não existe uma única história. Mesmo que doa. Eu apenas não exerço aquilo com que não concordo, mas eu não alimento desprezo por conta disso. Não sustento mais relações oportunistas, nem de um lado nem dos outros. Eu não preciso me relacionar com todo mundo, tampouco ser amada por essa generalização abstrata. Vaidades são lugares perigosos de poder. Na minha terceira margem do rio só existirá a calma que eu li no livro e a amizade, que é um tipo de amor. Nenhuma menção a vampiros. O troco já está dado. O troco nem existe. Falo para me ouvir melhor, à ação. Não existem assuntos melhores e piores. Oposições binárias aniquilam lindas complexidades. Você não me diz o quê, você ouve se quiser. Tudo ideia. O amor, a melhor e mais bonita. O amor é todas as margens, sem centro, sem hiato, amor.

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New mistakes only

Postado em 13 de agosto de 2013

Entrei rastreando o fim. Ele veio. Entrei desenhando futuros certos. Corte brusco. Nos dois casos eu não saí antes do barco afundar, fui saindo ao mesmo tempo em que ele afundava, saindo e vendo durante, todo o movimento do fim. Pro futuro: cortar pela raiz os medos das ervas mais fundas. Quando acaba, acaba. Mas escute os sinais. Respire o tempo. Ouça o que é intuitivo e só de sozinho. Se é trapézio, não evite a queda. Mas sinta e pense. Naquele sal de rio a perder de vista. Algumas coisas são apenas infinitas. Mas isso é dentro. Assente nova carapuça e dance. De certas bebidas, você prefere o doce. Com gelo, por favor.

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Criança nonsense

Postado em 12 de agosto de 2013

No chevette, voltando de Periperi, depois de contar todas as luzes dos postes, deitada no banco de trás, chupando dedo e cheirando o paninho. Vamos atravessar o túnel Américo Simas, minha mãe anuncia:

– Filha, olha o túnel.

– ÊÊÊ! O túnel do pau! Parabéns pra você! Todo mundo!

(Família moribunda)

– Parabéns pra você, nessa data querida!

E todo túnel era assim.

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A roda gigante dele

Postado em 5 de agosto de 2013

A energia caiu, não suportou o alto volume das demandas por luz, tudo ligado, inclusive a fogueira, pedindo, pedindo, a casa acesa, todas as armadilhas em uso, ao mesmo tempo lavar os cabelos, secar, usar a escova de dentes elétrica, manusear o computador, ouvir música, ver filmes, terminar uma quinta temporada, zappear, ouvir o noticiário, abrir a geladeira quinze vezes consecutivas, comer pipoca de microondas, terminar de lavar o corpo, desligar, desligar, desligar. Aurora diz que isso é um pedido de socorro. Eu falo: banho de folhas e vento. Essa tia que sempre vinha nas férias, da pele lisa, do xale cinza, do terço na mão, cheia de tempo. Aurora.  Aconteceu que horas? Na hora do tornado. Onde dói? Na garganta. Dificuldade de engolir? E de ficar. Tudo volta? E queima. O que aconteceu exatamente? Adoeci do mundo. Tia Aurora, quando minha cabeça diminuir, quero ir na sua casa, quero ouvir voz lenta, passo arrastado e um sapo. Quero ouvir o sapo. Passa rápido, tia. Juventude foi, ela detectou, hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. Tudo relâmpago, tudo trovão: aquela luz que não demanda, acontece apenas, beleza de corte e espanto. Acabo de fim, sem fecho bonito. Já disse o meu, o seu, até o de Drummond eu disse. Fiquei lélé da cuca. Meu nome é Creuza. Prazer, cantora. Prazer, prazer. E eu saí dessa conversa.

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O azul dela

Postado em 3 de agosto de 2013

Às vezes ela acorda para dentro, mas sempre que me vê abre um sorriso. Esses dias ela pegou uma gripe que diminuiu a barriguinha e tudo. Ver minha vó mais murcha sempre me deixa com vontade de chorar. Se eu pudesse imobilizava o tempo com ela. É uma parte muito dolorosa essa de saber que nada dura para sempre. Ela está bem e hoje vimos Cauby juntas, quando ela me chamou para tomar café com ela. Minha vó sempre dispara alguma coisa que eu acho linda. E acho porque em seguida ela ri com som e quase nenhum dente. Os extremos da vida me encantam e entre minha vó e meu começo temos um mundo. Quando um amigo meu terminou um relacionamento e pediu colo, ela me perguntou se ele ainda estava com aquele rapaz. Eu lembro disso e fico emocionada. Sei que o que ela não entende mas respeita porque vê amor, a mim e ao amigo, é a coisa mais bonita que eu aprendo nos silêncios serenos dela.

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Seu tempo

Postado em 3 de agosto de 2013

Eu não sei dar laço. Alimento essa vontade apenas. Ando com os pés soltos. Procuro sapatos que apenas amem o caminho. Mas certas calçadas fazem a vista perder o horizonte. Acontece assim dos pés quererem ficar ali. Aprendendo as gretas, as grutas todas. Tanta querência de deitar e saber tudo sobre paralelepípedos. Mesmo não sabendo ao certo o segredo do laço, essa cosquinha faz o mundo ficar um pouco mais doce.

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Pequeno Ponto de Virada

Postado em 2 de agosto de 2013

Começo a mudar um pequeno paradigma. Como se vivesse o ruído visto de dentro. Minha resposta ao barulho que faz a tevê quando sai do ar ou o rádio entre as estações. É um pouco dar uma uma forma qualquer ao vasto mundo mudar uma forma já muito gasta. Quem não acompanhar, não vai brincar no parquinho. A coceira no corpo, as marcas são isso. Amassei o papel com todos os desejos imediatistas saciados e, pasmem, comi. Vem aquele drama, vem aquele drama. É tudo muita coisa. Aquilo que depende só de mim e cujo benefício é somente meu, semana passada movi essa peça. Vontade de dedicar a Martha Brum essa pluma: a small beautiful turn of events.

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